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The Economist

Estará à altura do cargo?

Eleições Entrevista com David Cameron, líder do Partido Conservador, à frente nas sondagens.

Exclusivo Expresso/The Economist

o Partido Conservador há mais de quatro anos e é o mais provável futuro líder do Reino Unido, após as eleições gerais desta Primavera. Não obstante, as pessoas ainda se interrogam sobre quem é David Cameron. Não porque esconda o que faz ou evite dizer o que pensa, como pode testemunhar quem acede às notícias e vídeos do site WebCameron ou recebe um sem-fim de e-mails políticos. A questão é que os seus pontos de vista nem sempre são próprios do seu partido ou, talvez, da sua idade.

"The Economist" falou com David Cameron a 29 de Março: era a última de uma série de entrevistas formais com os dirigentes dos três principais partidos políticos. Apesar de ser apenas 15 anos mais novo do que Gordon Brown, primeiro-ministro e líder do Partido Trabalhista, Cameron parece de outra geração e possui o contacto pessoal fácil que Brown se esforça muitas vezes por alcançar. São mais óbvias as parecenças com o líder dos Liberais Democratas, Nick Clegg, também quarentão, com 1m87 de altura. Mas Cameron está a outro nível e é um político muito mais experiente.

Quem dele esperar um 'grande plano' vai ficar desapontado. Cameron tem um cepticismo bem britânico quanto às grandes teorias. A sua identidade situa-se algures entre a Londres liberal, onde passou a vida de adulto, e os conservadores Home Counties (condados adjacentes a Londres), onde cresceu. Ironicamente para alguém cujo eurocepticismo irritou a chanceler alemã, Angela Merkel, Cameron poderá ser, lá no fundo, o que um europeu continental classificaria de democrata-cristão. Defende um conservadorismo social centrado em temas gerais, como as causas culturais da pobreza, e não em questões de estilo de vida limitadas como os direitos dos homossexuais (em relação aos quais é, aliás, tolerante), uma obsessão da direita americana. É um atlantista, embora não apaixonado, e um defensor moderado do mercado livre.

Faz, contudo, uma análise singular do seu próprio país. A sociedade britânica está destruída, critica Cameron. E a causa é a erosão da responsabilidade (a sua palavra preferida), sob um Estado hiperactivo. Empolga-se ao máximo quando justifica o seu (comprovadamente exagerado) pessimismo social, salientando "os nossos números em relação ao resto da Europa, no que toca à gravidez na adolescência, ao abuso de drogas e álcool, às famílias no desemprego, aos problemas de educação". A análise está sujeita a críticas: as sociedades que Cameron considera intactas, muitas delas na Europa continental, gastam mais em bem-estar social do que ele quereria ou poderia gastar. A cura, afirma, é delegar poder, reforçando as administrações locais e dando-o directamente às pessoas, permitindo, por exemplo, que criem as suas próprias escolas. Não é dogmático quanto à dimensão exacta do Estado, mas lastima o excesso de centralismo. Prefere uma sociedade com peso a um Estado com peso. Resta ver se isso trará algum alívio às já sobrecarregadas finanças públicas.

À medida que as eleições se aproximam, o Governo trabalhista procura tirar o máximo partido da sua (não imaculada) experiência em gestão económica, denegrindo os opositores tories como novatos que só estorvam - George Osborne, ministro-sombra das Finanças, é um dos seus alvos preferidos. Cameron defende o desempenho de Osborne durante a crise financeira, convidando os seus adversários a "esforçarem-se ao máximo". Salienta que os conservadores apoiaram a operação de salvamento dos bancos em 2008. A sua oposição ao estímulo orçamental foi atacada por alguns economistas, mas outros concordam que a medida "acrescentou 12.500 milhões de libras (mais de 14.100 milhões de euros) à dívida, sem produzir uma diferença visível na economia".

Numa competição que, insiste, é uma escolha entre os dois principais partidos e não um referendo ao seu, Cameron tem sido mais claro - e há mais tempo - do que Brown ao falar da necessária contenção orçamental. "Dê-me um equivalente ao nosso pedido para que as pessoas se reformem um ano mais tarde a partir de 2016", diz. Na conferência do partido, em Outubro, George Osborne teve o mérito de assumir uma posição avançada, ao indicar medidas específicas para reduzir o défice fiscal. E, por isso, os trabalhistas foram obrigados a encarar a realidade. "O debate já não é entre investimento e cortes", observou Cameron, referindo-se à linha divisória favorita dos trabalhistas nas eleições anteriores.

À medida que a diferença nas sondagens se estreita, também não se ouve falar muito dos planos dos tories para a contenção orçamental. A promessa de Osborne, anunciada esta semana, de revogar o plano do Governo para aumentar as contribuições para a segurança social será financiada através da redução da despesa excessiva, tema caro a ambos os lados. Isso poderá ser "realizável e viável", garante Cameron, sem, no entanto, adiantar exactamente como.

A ferroada das Falklands

Em tempos, David Cameron dizia-se "herdeiro de Blair". É na política externa que menos se parece com o ex-primeiro-ministro, preferindo definir o rumo caso a caso, não em função de ideais orientadores. Blair foi, em simultâneo, o primeiro-ministro mais atlantista e mais europeísta do Reino Unido. É provável que Cameron fique atrás numa coisa e noutra.

Há uma relação especial com a América? Pensa que sim. "Em todos os assuntos o Reino Unido e a América trabalham... mais estreitamente do que com outros aliados." Sublinha, porém, que "convém lembrar que somos o parceiro júnior. Penso que, para que a relação funcione bem, há que perceber a melhor forma de desempenhar esse papel".

Cameron está "mais satisfeito do que estava" com a forma como está a ser travada a guerra no Afeganistão, mas diz que "ainda estamos numa situação em que as tropas britânicas têm a seu cargo dois terços da população (em Helmand) apesar de sermos só dez mil e os americanos vinte mil". Exprime uma admiração discreta pelo Presidente afegão, Hamid Karzai: "No seu melhor, pode fazer coisas boas."

O que não agradou a Cameron foi a recente sugestão americana de que o Reino Unido deveria negociar com a Argentina sobre as Ilhas Falkland. "Sempre disse que a relação especial deve ser franca e leal e penso que devemos dizer, franca e lealmente, que estamos desiludidos."

A sua visão da Europa também é menos rígida do que se poderia esperar. Cameron foi criticado (e bem) por afastar o seu partido do grupo de centro-direita no Parlamento Europeu - a que pertencem os partidos de Angela Merkel e do Presidente francês, Nicolas Sarkozy - e cultivar o eurocepticismo dos seus correligionários. E, todavia, Cameron exerce uma influência globalmente dissuasora e, com tanto para fazer em casa, não quererá meter-se em lutas com Bruxelas. "Penso que as pessoas na Europa ficarão agradavelmente surpreendidas ao verem que estamos activos e empenhados desde o primeiro dia", declara. "Mas temos uma ideia muito clara quanto à direcção a seguir." Cameron quer obter autoexclusões (opt-outs) em relação ao capítulo social da União Europeia e à carta dos direitos fundamentais. Poucos acreditam nas suas probabilidades.

E quanto às suas hipóteses nas eleições gerais do mês que vem? A vantagem de 17 pontos de que os tories gozavam no ano passado reduziu-se para margens de menos de metade. A queda da popularidade dos conservadores, nos últimos meses, permanece um mistério. Há quem a atribua a uma mensagem demasiado triste e austera, outros julgam que o motivo é quase o oposto: falta de pulso e clareza ao estilo de Thatcher.

É provável que a queda se deva mais à recente recuperação económica, que parece suficientemente forte para dar alguma razão ao Governo na forma como reagiu à recessão, deixando dúvidas sobre se é, de facto, boa ideia apostar numa mudança de governo. Os trabalhistas subiram mais nas sondagens do que os conservadores desceram. E a crise foi um desafio, tanto para a oposição como para o Governo. Depois de terem assumido a nova imagem de partido capaz de ver para lá do mercado, com preocupações sociais e ambientais, os tories terão de assumir a novíssima imagem de condutores moderados de uma economia em ruínas. "Não me sinto muito chocado pela descida nas sondagens, porque sempre acreditei que teríamos de escalar uma montanha muito alta", comenta Cameron.

O clima hostil aos políticos - desencadeado pelo escândalo das despesas parlamentares, no ano passado - também dificulta que qualquer político, por mais cativante que pareça, consiga electrizar o público. A propensão do país para se deixar encantar por um líder, como sucedeu em 1997, acabou. Ser preferido aos opositores, coisa que os tories ainda são em todas as sondagens, talvez seja o máximo a que um político pode aspirar. "Os trabalhistas bem gostariam de falar só dos conservadores, para escaparem a prestar contas", opina Cameron. "Não o vamos permitir."

(c)2010 The Economist Newspaper Limited. Todos os direitos reservados. Em The Economist, traduzido por Fábrica do Texto para Impresa Publishing, publicado sob licença. O artigo original, em inglês, pode ser encontrado em www.economist.com