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Edição electrónica ou morte

O iPad começou a ser vendido nos EUa, há uma semana, por 500 dólares (375 euros). Houve corrida às lojas logo pela manhã.

Robert Galbraith/Reuters

Livros. O iPad e os seus pares são uma bênção e uma maldição para os editores.

Exclusivo Expresso/The Economist

Durante muito tempo, John Grisham, o autor prolífico de obras de acção e suspense, recusou-se a permitir que os seus livros fossem vendidos em formato electrónico. Numa entrevista televisiva, em 2009, referiu que os livros electrónicos e os grandes descontos em livros impressos, praticados pelos grandes retalhistas, eram "um desastre a longo prazo" para o sector da edição. Porém, no mês passado, o editor de Grisham anunciou que o autor mudara de opinião: a partir de agora, todos os seus livros vão ficar disponíveis em formato virtual. A escolha do momento não podia ser melhor. No dia 3 de Abril, a Apple iniciou a expedição dos seus primeiros computadores tablet iPad, que se espera venham a dar um grande impulso à venda de livros electrónicos.

A chegada iminente dos iPad gerou uma intriga comercial digna de uma história de Grisham. Um grupo de grandes editoras, entre as quais a Macmillan e a HarperCollins, tem estado a utilizar o interesse da Apple nos livros electrónicos para convencer a Amazon, que actualmente domina o mercado de livros digitais, a rever a sua estrutura de preços. A dada altura de Janeiro, a Amazon, irritada, retirou muitos dos livros da Macmillan das suas prateleiras virtuais, só voltando a disponibilizá-los depois de alguns autores terem feito grande alarido.

Como acontece com muitos outros ramos da indústria dos media, o crescimento da Internet está a induzir uma reestruturação radical do sector da edição. Os revendedores em linha já se incluem entre os maiores distribuidores de livros. Agora, os livros electrónicos ameaçam prejudicar as vendas do formato tradicional. Em resposta, os editores tentam sustentar as suas actividades convencionais e, ao mesmo tempo, preparar-se para um futuro no qual os livros electrónicos representarão uma fatia muito maior das vendas.

Até que ponto será maior, é uma questão que suscita forte debate. A empresa de consultoria PricewaterhouseCoopers calcula que, até 2013, os livros electrónicos passarão a representar cerca de 6% das vendas de livros ao consumidor na América do Norte, contra 1,5% no ano passado. Carolyn Reidy, directora-executiva da Simon & Schuster, considera que, dentro de três a cinco anos, estes poderão corresponder a 25% das vendas do sector na América. Pode muito bem ter razão, se os iPad e outros tablet forem bem-sucedidos, se os preços dos dispositivos de leitura direccionados, como o Kindle, da Amazon, continuarem a descer e houver mais consumidores a ler livros nos smartphones. A empresa de publicidade Mobclix considera que o número de programas, ou apps, para livros no iPhone, da Apple, ultrapassou recentemente o existente para jogos, que dantes eram a categoria com maior peso.

Atentas a estas mudanças, as editoras tentam desfazer uma confusão pela qual são largamente responsáveis. Durante algum tempo, praticaram um sistema de preços por atacado com a Amazon, no âmbito do qual o distribuidor em linha paga os livros às editoras e depois decide quanto vai cobrar ao público por eles. O sistema permitiu que a Amazon fixasse em 9,99 dólares (pouco mais de 7 euros) o preço de muitos novos títulos e best-sellers em edição digital, montante que, em muitos casos, é inferior àquilo que pagou por eles. A Amazon tem mantido os preços baixos para incentivar a procura do seu Kindle, que domina o mercado da leitura electrónica, mas enfrenta uma dura concorrência da Sony e outros.

As editoras estão preocupadas com a hipótese de isto ter habituado os consumidores a esperar que todos os tipos de livros tenham preços baixos. E também as inquieta que esta espiral descendente possa reduzir ainda mais as suas já escassas margens de lucro - nos últimos anos, algumas delas tiveram de cancelar edições e de despedir pessoal - e causar maior desalento aos livreiros que têm lojas de pedra e cal e que já estão a lutar pela sobrevivência. Alguns profissionais da edição pensam que, a menos que as coisas mudem, as editoras de livros poderão ter um destino semelhante ao das editoras musicais, cuja prosperidade foi por água abaixo, quando a Apple virou a indústria de pernas para o ar, ao vender em linha canções isoladas, a baixo custo.

300 mil vendidos no primeiro dia Os fiéis da Apple responderam com entusiasmo à última criação da empresa de Steve Jobs. Só no dia de lançamento venderam-se 300 mil iPAd., uma esécie de cruzamento entre um computador portátil e um iPhone 1 milhão de downloads Além das vendas em loja, a Apple registou nesse dia o download de mais de 1 milhão de aplicações da App Store para o iPad e ainda 250 mil livros electrónicos da iBookstore Hackers atacam Nem tudo foram boas no´ticias para a empresa nos primeiros dias de vida do iPad. Em pouco mais de 24 horas, um grupo de hackers desbloqueou o aparelho, permitindo a instalação de aplicações não autorizadas pela Apple

Ironicamente, as editoras recorreram à Apple para as ajudar a dar um apertão à Amazon. Ansiosa por obter grande variedade de títulos para os novos donos dos iPad, esta empresa aceitou um "modelo de agência", no quadro do qual as editoras estabelecem os preços pelos quais os seus livros electrónicos são vendidos e a Apple recebe 30% das receitas geradas. Perante este tipo de acordos, a Amazon terá concluído contratos semelhantes com várias grandes editoras. Devido a esse facto, o preço de alguns livros electrónicos populares deverá aumentar para 12,99 ou 14,99 dólares (cerca de 9,62 e 11,10 euros).

No âmbito deste novo acordo, depois de a Apple e a Amazon receberem as suas fatias, as editoras deverão ganhar menos dinheiro com os livros electrónicos do que no âmbito do acordo das vendas por grosso - um preço que parecem dispostas a pagar, para reduzir a influência da Amazon e sustentar as vendas de livros impressos. No entanto, há boas razões para duvidar se esta e outras estratégias - como atrasar o lançamento das versões electrónicas de novos livros por vários meses, depois de as versões impressas terem sido lançadas - irão travar a gradual redução das margens de lucro dos livros.

A Apple, por exemplo, fez constar que conseguiu manter a opção de cobrar muito menos por livros electrónicos populares, quando estes estiverem a ser vendidos com grandes descontos noutros pontos de venda. Outras empresas, incluindo a poderosa Google, deverão entrar em breve nesta disputa, o que só irá aumentar a pressão concorrencial.

Tudo isto é especialmente assustador para as editoras, porque as margens digitais são quase tão estreitas como as dos livros em papel. É verdade que os livros electrónicos não precisam de ser impressos e enviados para os retalhistas, mas segundo estimativas do banco de investimento Crédit Suisse, de um modo geral, estes custos representam apenas um décimo do preço de retalho de um livro impresso. Entretanto, como sublinha David Young, o patrão do grupo Hachette, as editoras têm de suportar novos custos, sob a forma de investimentos em sistemas destinados a armazenar e distribuir textos digitais e, também, a protegê-los da pirataria.

As editoras estão ainda a investir na Internet de outras formas. Algumas começam a criar os seus próprios grupos de leitores em linha. O Tor.com, por exemplo, um site para entusiastas de ficção científica e literatura do fantástico, destaca conteúdos com interesse para os seus membros, mesmo quando esses conteúdos provêm de editoras rivais. "Isto é um sinal raro de que a luz está finalmente a chegar à edição", diz Mike Shatzkin, da empresa de consultoria Idea Logical. A Sourcebooks, uma editora de média dimensão que criou um grupo em linha centrado na poesia, concluiu que as vendas dos seus livros aumentaram mais de 50% nas seis semanas que se seguiram à publicação nosite de poemas neles incluídos.

Idade de ouro da leitura

As editoras estão igualmente a investir muito dinheiro naquilo a que David Young, da Hachette, chama "livros digitais enriquecidos", que aliam a versão impressa com áudio, vídeo e outros media para criar conteúdos pelos quais se pode cobrar um preço especial. O lançamento do iPad irá acelerar este tipo de experimentação, mas não é ele o único dispositivo a captar as atenções das editoras. A HarperCollins, por exemplo, vendeu centenas de milhares de cartuchos no Reino Unido, que permitem aos utilizadores ler versões electrónicas de textos clássicos nas consolas de jogos portáteis Nintendo DS. Charlie Redmayne, o "director-executivo digital" de uma das suas unidades, considera que muitos dos compradores não teriam gasto dinheiro em edições impressas e que, por isso, mudar para uma nova plataforma criou uma nova procura para os livros.

Na verdade, muitos quadros das editoras gostam de dizer que a revolução digital poderá marcar o início de uma idade de ouro da leitura, na qual muitas mais pessoas ficarão expostas a textos digitais. Também sublinham que as novas tecnologias como a impressão a pedido, que torna mais económica a impressão de pequenas tiragens de livros em papel, deverá ajudá-las a ganhar mais dinheiro com aquele formato antiquado. E insistem em que o abandono dos livros impressos será lento, o que lhes dará mais tempo para se adaptarem ao admirável mundo novo digital.

Talvez tenham razão. No entanto, há ainda muitas deficiências na cadeia de abastecimento de livros convencionais que empresas como a Amazon e a Apple podem explorar. Por exemplo: muitas editoras continuam a demorar demasiado tempo a colocar livros no mercado, em formato impresso ou electrónico, perdendo assim oportunidades preciosas. Carolyn Reidy, da Simon & Schuster, diz que introduziu na empresa funções como a composição, para aumentar a eficiência. Na Sourcebooks, a responsabilidade pela produção de livros foi até transferida da equipa editorial para o director da área tecnológica da empresa, sublinhando a necessidade de pensar "digitalmente" desde o início do processo de preparação.

As empresas de edição que vão sobreviver ao que promete ser uma transição dolorosa serão aquelas cujos patrões e empregados consigam aprender rapidamente a pensar como os empresários de multimédia e não como fornecedores de prosas perfeitas. Nem todos serão capazes de virar com sucesso essa página específica.

(c)2010 The Economist Newspaper Limited. Todos os direitos reservados. Em The Economist, traduzido por Fábrica do Texto para Impresa Publishing, publicado sob licença. O artigo original, em inglês, pode ser encontrado em www.economist.com