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The Economist

E o seu tapete chama o médico

Cristina Sampaio

Futuro A iminente junção de comunicações sem fios, redes sociais e medicina irá transformar os cuidados de saúde

Exclusivo Expresso/The Economist

Será possível que, entre todo o alarido publicitário sobre o iPad da Apple, uma das suas utilizações potenciais tenha ficado esquecida? Larry Nathanson, chefe de "informática" de medicina de urgência de um dos hospitais da Faculdade de Medicina de Harvard, experimentou utilizar este dispositivo na enfermaria de sinistrados. E escreve: "Os ensaios iniciais com os nossos programas (informáticos) clínicos correram espantosamente bem... os electrocardiogramas viam-se melhor no ecrã e em papel. Era excelente ter toda a informação clínica, ali ao lado da cama, para discutir com o doente."

O entusiasmo do dr. Nathanson dá uma ideia do potencial dos inventos sem fios para melhorar os cuidados de saúde e, em especial, para assegurar um tratamento mais personalizado. Há muito que os especialistas previram que os progressos da genética iriam conduzir a uma idade de ouro de terapias individuais feitas por medida. Na verdade, porém, são dispositivos sem fios de tecnologia muito menos sofisticada e o software para a saúde disponível na Internet que estão a acelerar a personalização em massa dos cuidados de saúde e, ao mesmo tempo, a criar novos modelos empresariais.

Segundo a empresa de estudos de mercado Kalorama Information, a saúde sem fios está a "tornar-se omnipresente" nos hospitais. Esta empresa estima que, só na América, o mercado para tais dispositivos e serviços aumentará de 2,7 mil milhões de dólares [cerca de 2 mil milhões de euros], em 2007, para 9,6 mil milhões de dólares [cerca de 7 mil milhões de euros], em 2012. Don Jones, da Qualcomm, que produz tecnologias de rede, defende que esta tendência apressa o diagnóstico e o tratamento e poupa tempo a médicos e enfermeiros. O gigante industrial GE e a Sprint, um operador de rede móvel americano, juntaram forças para oferecer serviços deste tipo aos hospitais. O software Carescape, da GE, permite uma monitorização segura da saúde do paciente através de telemóveis, tal como o software concorrente da Airstrip.

Os médicos são o alvo inicial óbvio da saúde sem fios. O think tank California HealthCare Foundation (CHCF) irá apresentar em breve um relatório que indica que dois terços dos médicos americanos já possuem smartphones. Mais de um terço dos médicos americanos utilizam o Epocrates, um programa para telemóveis e computadores portáteis que apresenta informação instantânea sobre interacções entre medicamentos, recomendações de tratamentos e por aí adiante. O software poderá, em breve, aceder a registos de saúde electrónicos (RSE) através de telemóveis - coisa que o autor do relatório da CHCF pensa poder ser uma "aplicação informática de sucesso garantido" na área da saúde sem fios.

Milhares de aplicações

A esperança é que novas tecnologias hábeis, dos smartphones aos RSE e aos dispositivos de monitorização do estado de saúde, darão autonomia a doentes e médicos, o que melhorará os resultados e reduzirá custos. A quase ubiquidade dos telemóveis é a principal razão que leva a pensar que este cenário optimista poderá tornar-se realidade. Os doentes que têm smartphones sofisticados poderão sem dúvida beneficiar das aplicações interactivas de "bem-estar", que rastreiam a dieta, o exercício e os sinais vitais. O App Store, da Apple, por exemplo, propõe milhares de aplicações relacionadas com a saúde. O Jitterbug, um operador de rede móvel americano que vende telefones fáceis de usar para idosos, passou recentemente a oferecer mais serviços de saúde. E os operadores móveis concorrentes estão a fazer o mesmo.

Mas Carolyn Buck-Luce, da empresa de consultoria Ernst & Young, sublinha que o (sistema) 'mHealth' (saúde móvel) está a transformar os cuidados de saúde, tanto nos países ricos como nos países pobres. O Medicall Home, um grupo mexicano que oferece consultas por telemóvel, já tem milhões de clientes. Paul Meyer, da empresa americana de tecnologia Voxiva - que instalou sistemas 'mHealth' no Ruanda e no Peru, entre outros países - diz que estes sistemas têm tido tanto êxito no mundo em desenvolvimento que estão agora a ser também adoptados nos países ricos. A sua empresa ajudou o Governo americano no recente lançamento da Text4Baby, uma campanha de saúde pública destinada a informar mulheres grávidas (através de mensagens de texto com conselhos médicos), que, em breve, será a maior iniciativa deste tipo a nível mundial.

Açúcar no sangue

Mais ainda: os telemóveis fazem parte de uma orientação mais vasta das comunicações sem fios para os cuidados de saúde, que, segundo as estimativas da empresa de consultoria McKinsey, poderá em breve movimentar até 60 biliões de dólares (mais de 44 mil milhões de euros) em todo o mundo. Muitas empresas estão a produzir dispositivos de "saúde em casa" que são incorporados na tecnologia sem fios. Alguns deles têm uma natureza claramente clínica. O gigante de aparelhos médicos Medtronic está a desenvolver um monitor sem fios que se coloca ao lado da cama e que detecta os níveis de açúcar no sangue das crianças diabéticas que dormem ali perto. A GE já apresentou as "redes de sensores do corpo", minúsculos dispositivos sem fios que medem os sinais vitais daqueles que as usam.

IP5.7,0,0>Os inventos com mais sucesso podem ser "sub-reptícios", como diz Eric Dishman, da Intel. A sua empresa, uma grande fabricante de chips, está a investir em dispositivos que acompanham o estado de saúde dos idosos - tais como "tapetes mágicos" que detectarão movimentos vacilantes e poderão, deste modo, prever uma queda. A Continua, uma espécie de coligação do sector, está a desenvolver normas comuns para que os monitores de tensão arterial e as balanças sem fios possam transmitir as suas leituras para os gabinetes dos médicos ou para serviços pessoais de RSE como o Google Saúde.

Lembretes e treino electrónico

Todos estes dispositivos e serviços permitem aos médicos fazer diagnósticos mais precisos, prescrever tratamentos mais eficazes e manter-se mais a par do estado dos seus doentes. Mas também permitem aos serviços de saúde personalizar os tratamentos segundo as preferências pessoais e os pontos fracos de cada doente. Há estudos que indicam, por exemplo, que, embora algumas pessoas com doenças crónicas sejam meticulosas no que se refere a tomar comprimidos ou insulina como deve ser, outras são descuidadas e esquecidas. Algumas preferem lembretes electrónicos eficientes, enquanto outras respondem melhor a um telefonema de um enfermeiro. Um estudo sobre consumo global, divulgado em 6 de Abril pela empresa de consultoria PricewaterhouseCoopers (PWC), conclui que os idosos preferem cuidados de alta qualidade com muita atenção pessoal, ao passo que pessoas mais novas preferem cuidados e planos de saúde baratos.

Muitos sistemas de saúde, indica o estudo da PWC, estão a começar a dividir os utentes em diversas categorias e a modelar os tratamentos de acordo com elas. A seguradora sul-africana Discovery Health, por exemplo, usa um leque de métodos diferentes para conseguir que os doentes com doenças crónicas sigam os tratamentos com rigor - das mensagens de texto a lembrar-lhes que tomem os comprimidos a prémios por bom comportamento.

A HealthMedia, uma empresa da área da saúde propriedade da grande farmacêutica Johnson & Johnson, utiliza um sistema semelhante: ferramentas em linha (chama-lhes "treinadores digitais de saúde"), para ajudar os doentes a controlar a diabetes e a perder peso. Os seus estudos indicam que metade dos que recebem treino electrónico perdem de facto peso e que cada cliente que sofre de doenças crónicas rende 1000 dólares (740 euros) anuais aos patrões da empresa.

A concorrente americana Virgin HealthMiles levou a mesma ideia um pouco mais longe, recorrendo a redes sociais em linha, através das quais colegas de trabalho ou familiares podem aplaudir os doentes ou ralhar-lhes por via electrónica, para os incentivar a fazer exercício ou a perder peso. Os doentes parecem gostar deste tipo de coisas: um doente que sofre de colite ulcerosa, por exemplo, criou um fórum para os que sofrem da mesma doença e que a ele podem ter acesso por meio de uma aplicação iPhone.

Todas estas iniciativas são especialmente prometedoras, porque ajudam a produzir alterações de comportamento, em geral o elemento mais complicado de qualquer tratamento. Em muitos casos, os doentes ignoram as prédicas dos médicos e são mais propensos a ouvir os amigos e os familiares que os apoiam. Além disso, os médicos e os enfermeiros não estão sempre por perto, para incentivar comportamentos saudáveis, mas os telemóveis e outros inventos sem fios podem estar. Isto é uma coisa que nem mesmo as terapias genéticas personalizadas podem oferecer.

(c)2010 The Economist Newspaper Limited. Todos os direitos reservados. Em The Economist, traduzido por Fábrica do Texto para Impresa Publishing, publicado sob licença. O artigo original, em inglês, pode ser encontrado em www.economist.com