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Sem contágio grego, juros da dívida em novos mínimos históricos

Os juros das Obrigações do Tesouro português a 10 anos fecharam em 2,69%, um mínimo histórico já verificado durante a sessão de 23 de dezembro. Alemanha, Espanha, Irlanda e Itália fixam novos mínimos. Juros da dívida grega a médio prazo agravam-se.

O custo de financiamento da dívida soberana de longo prazo no mercado secundário registou esta terça-feira novos mínimos históricos para a Alemanha, Espanha, Irlanda, Itália e Portugal. Num leilão de dívida a 10 anos realizado no mercado primário de emissão de dívida pelo Departamento do Tesouro italiano, a taxa de remuneração média desceu para um mínimo histórico de 1,89%, coincidindo com os sinais do mercado secundário.

O contágio da crise política grega - que fez disparar as yields da dívida helénica sobretudo no médio prazo e que tem provocado uma maré vermelha nas bolsas europeias e a subida do índice de volatilidade europeu - não se está a verificar no mercado da dívida soberana da zona euro.

Esta terça-feira registaram-se novos mínimos históricos no prazo de referência, a 10 anos, com as yields das Obrigações do Tesouro português a fecharem em 2,69%, um mínimo já verificado durante a sessão de 23 de dezembro. O custo de financiamento naquela maturidade desceu para mínimos de 1,59% nas obrigações espanholas durante a sessão, tendo fechado em mínimos de 1,89% para as obrigações italianas e de 1,24% para as obrigações irlandesas. As yields das obrigações alemãs a 10 anos desceram, também, para um mínimo, registando no fecho 0,54%, demonstrando, uma vez mais, o seu papel de ativos de refúgio.

A dívida obrigacionista portuguesa consolidou a sua posição de liderança na zona euro em termos de rentabilidade nas últimas 52 semanas. Segundo o índice da Bloomberg regista 22,06%, enquanto o retorno para a dívida grega é o pior da zona euro, tendo entrado em terreno negativo, registando esta terça-feira -0,12%.

 

Escudo contra o contágio

A expetativa de que o Banco Central Europeu (BCE) venha a avançar com um programa de compra de dívida soberana em 2015 face à desinflação e aos riscos de estagnação tem provocado a descida sucessiva das yields no mercado secundário para mínimos históricos em quase todos os periféricos, funcionando, agora, como um "escudo" contra contágios.

Como referia na segunda-feira numa nota o Citi Research, "não esperamos que a evolução na Grécia venha a desencadear inquietação mais ampla na zona euro". A baixa probabilidade de contágio deriva atualmente "da ação do BCE e da existência de proteções sistémicas mais amplas" em relação ao risco de saída do euro (Grexit) antes da reestruturação da dívida no início de 2012 e depois durante o período eleitoral em maio-junho do mesmo ano.

A convicção dos analistas de que o BCE tomará medidas reforçou-se face à divulgação esta terça-feira de que a inflação anual em Espanha se mantém negativa há seis meses consecutivos e que em dezembro se agravou registando -1,1%, muito acima de -0,46% verificada em novembro e do consenso entre os analistas que apontava para -0,7% no último mês do ano.

No início de 2015, o BCE tem duas reuniões em que poderá tomar medidas de política monetária, uma em Frankfurt já a 22 de janeiro, três dias antes das eleições gerais na Grécia, e outra, em Chipre, a 5 de março, já depois do fim da extensão de dois meses do programa de resgate à Grécia.

A exceção é a Grécia, que vai avançar para eleições legislativas antecipadas em 25 de janeiro, em que, pela primeira vez na zona euro, há uma probabilidade elevada de vitória de um partido de oposição frontal à austeridade e que exige uma segunda renegociação da elevada dívida grega. O custo de financiamento da dívida grega a 10 anos desceu 10 pontos base fechando em 9,54%. Estes níveis de yields são os mais elevados desde setembro de 2013.

Mas nos prazos a 3 e a 5 anos subiu mais de 1 ponto percentual e mais de meio ponto percentual respetivamente. As yields das obrigações a 3 anos subiram para 13,5% e no prazo a 5 anos aumentaram para 11%. O custo de segurar a dívida contra uma bancarrota desceu, mas mantem-se acima de 1200 pontos base (mais de 6 vezes o preço para segurar a dívida portuguesa e mais de 3 vezes o custo para segurar a dívida russa), colocando-a no clube restrito em que se incluem a Venezuela (mais de 3000 pontos), a Argentina (cerca de 3000 pontos) e a Ucrânia (mais de 2000 pontos).

Depois de uma descida das yields da dívida grega no prazo a 10 anos para um mínimo de 5,48% em setembro, a situação agravou-se com a perspetiva que a Grécia não conseguiria realizar uma "saída limpa" à irlandesa e portuguesa, como pretendia o governo de Atenas. O Eurogrupo fechou essa porta e o executivo chefiado por Antonis Samaras jogou a cartada de eleições presidenciais antecipadas, que perdeu, e prepara-se, agora, para enfrentar eleições legislativas antecipadas com as intenções de voto a colocar a Nova Democracia (o principal partido da coligação) em segudo lugar.

 

Volatilidade a subir e maré vermelha nas bolsas europeias

Fruto do impacto negativo, junto dos investidores financeiros, da crise política grega e da descida continuada do preço do barril de petróleo (com o preço do Brent a descer esta terça-feira para o patamar dos 57 dólares, o que já não sucedia desde maio de 2009), o índice de volatilidade europeu tem estado a subir desde 19 de dezembro.

O índice VIX relacionado com o índice bolsista Eurostoxx 50 subiu de 20,84 euros a 19 de dezembro para 26,19 euros no fecho desta terça-feira. Este índice atingiu um pico mensal de 32,31 euros a 16 de dezembro, o momento de mais um susto pontual ao longo de 2014, derivado da crise cambial do rublo russo, tendo depois descido.

O índice Markit iTraxx Europe Crossover, que avalia os problemas das empresas privadas europeias quanto ao pagamento das suas dívidas, subiu de 322,65 pontos em 23 de dezembro para 342,31 pontos no fecho desta terça-feira. Quanto mais elevado, mais grave a situação. O índice registou um máximo do ano de 404,92 pontos a 15 de outubro, aquando do mais grave susto do ano nos mercados financeiros.

Esta terça-feira, a maré vermelha inundou sobretudo as bolsas europeias. O índice global MSCI para a Europa caiu 1,09%, enquanto o índice mundial MSCI perdeu 0,6%. Em termos anuais, a Europa é a pior região do mundo em termos bolsistas, com o índice a cair 9,5% desde o início do ano. Os cinco piores índices do ano são europeus: RTSI da Bolsa de Moscovo que já caiu desde o início do ano mais de 45%; ASE da Bolsa de Atenas com um trambolhão de 29,8%; PSI 20 da Bolsa de Lisboa com uma queda de 26,8%; CSE de Chipre com uma quebra de 18%; e ATX da Bolsa de Viena de Áustria com um recuo de 15%.