Siga-nos

Perfil

Economia

Dívida

Quarteto vai decidir sorte da Grécia

  • 333

FOTO ARIS MESSINIS/AFP/Getty Images

Com os juros da dívida soberana acima de 21% no prazo a dois anos, Tsipras reúne-se esta quinta-feira, depois da cimeira europeia em Bruxelas, com o quarteto Merkel, Hollande, Juncker e Draghi. Obama disse a Merkel que quer "solução realista".

O primeiro-ministro grego Alexis Tsipras reúne-se esta quinta-feira, a seu pedido, com a chanceler alemã Angela Merkel, o presidente francês François Hollande, o presidente da Comissão Europeia Jean-Claude Juncker e o presidente do Banco Central Europeu (BCE) Mario Draghi, encontro a que deverá assistir, também, o presidente do Eurogrupo, Jeroen Dijsselbloem. A reunião é organizada pelo presidente do Conselho Europeu Donald Tusk. Está, também, prevista uma reunião em Berlim no dia 23 de março entre Tsipras e Merkel. Os jornais gregos referem o papel de "mediador" de Hollande e a posição conciliadora de Juncker.

A reunião de hoje com o quarteto de poderosos (Merkel, Hollande, Juncker e Draghi) realizar-se-á depois do final da cimeira europeia em Bruxelas. Muitos analistas gregos esperam que seja o início de uma solução política para o impasse nas negociações técnicas no designado Grupo de Bruxelas (que reúne a Grécia com quatro instituições, Fundo Monetário Internacional, BCE, Comissão Europeia e Fundos Europeus de resgate) em torno da concretização da lista de medidas de reformas apresentada pelo ministro das Finanças helénico Yanis Varoufakis.

O primeiro-ministro belga Charles Michel disse ao jornal "Le Soir" que iria protestar na cimeira europeia contra esta reunião à porta fechada do quarteto com os gregos.

A presença de Mario Draghi sinaliza a importância financeira crucial do BCE, que tem mantido uma única porta aberta para a Grécia através da linha de emergência de liquidez (conhecida pelo acrónimo ELA em inglês) a que os bancos helénicos podem recorrer junto do Banco Central grego. Esta quarta-feira, o BCE aumentou em 400 milhões de euros o teto dessa linha que agora está em 69,8 mil milhões de euros. Este aumento foi inferior ao de 600 milhões de euros autorizado na semana anterior. O ministro grego Varoufakis tem insistido num pedido de autorização pelo BCE para o aumento do teto de emissão de bilhetes do Tesouro (dívida de muito curto prazo), o único recurso atual do Tesouro grego para se financiar nos mercados financeiros.

A saída da Grécia da zona euro, por opção política (o que se tem designado de Grexit na contração em inglês) ou por "acidente" (o que, na semana passada, o ministro alemão das Finanças Wolfgang Schäuble designou em inglês de Gracident) não tem saído de cima da mesa. Esta semana, o próprio comissário europeu Pierre Moscovici, que tem a pasta dos Assuntos Económicos e Financeiros, afirmou que há a intenção de manter a Grécia no euro mas "não a qualquer preço" e o presidente do Eurogrupo falou à estação de radio do seu país BNR Nieuwsradio sobre a hipótese de imposição de controlo de capitais (como ocorreu em Chipre em 2013).

Neste clima de risco de um Grexit, a saída de capitais continua. Só na quarta-feira 350 a 400 milhões de euros foram levantados dos bancos gregos. De dezembro ao final de fevereiro, a saída soma 26 mil milhões de euros. A bolsa de Atenas afundou-se em 16.2% desde início de março. Na quarta-feira fechou a cair 4.13%, mas esta quinta-feira abriu positivo.

Os media gregos têm sublinhado que a reunião de hoje com o quarteto vai decorrer depois de um telefonema do presidente norte-americano Obama à chanceler Merkel na quarta-feira pedindo uma "solução realista" para a crise grega. O cônsul norte-americano em Tessalónica, Robert Sanders, disse esta semana que a Grécia tem "um papel estabilizador na região dos Balcãs" e que esse aspeto (geopolítico) tem de ser tido em conta, segundo o jornal grego "Protothema". Ainda segundo este jornal, a chanceler alemã poderá sugerir "métodos não ortodoxos" para resolver a crise grega.

 

Disparo nos juros da dívida

O quadro da dívida grega agravou-se no mercado secundário esta semana. As yields das obrigações gregas de curto e médio prazo são superiores às registadas para a dívida russa (a 2 e 5 anos) e ucraniana (a 2 anos). No fecho de quarta-feira, as yields das obrigações gregas registaram 21,49% a 2 anos e 16,41% a 5 anos, níveis elevados similares aos verificados no início de fevereiro. A 10 anos, as yields subiram para 11,37%, quase 1 ponto percentual acima do fecho na sexta-feira passada e abriram esta quinta-feira em 11,29%.

O custo de segurar um incumprimento de divida a 5 anos, aumentou para quase 2150 pontos base, o que coloca a Grécia no "clube" das quatro economias com mais alto risco de bancarrota, liderado pela Venezuela e que integra, também, a Ucrânia e o Paquistão. A rentabilidade da dívida grega é altamente negativa e tem-se agravado desde o início do ano. Segundo o índice da Bloomberg, o retorno a 52 semanas é de -23,15% e a yield efetiva de toda a dívida obrigacionista helénica subiu para 12% (a média da zona euro é de 0,54% e no caso da dívida obrigacionista portuguesa é de 1,15%).

O governo grego está pressionado internamente para cumprir o seu programa. As intenções de voto no Syriza, o partido líder da coligação governamental, desceram de 43% a 3 de março, numa sondagem da MRB, para 39,8% na sondagem desta semana da Interview para o canal televisivo Vergina. Continuando a ser o partido que recolhe mais apoio popular, e mesmo superior ao voto registado nas eleições de 25 de janeiro, esta última sondagem revela que 50,5% não estão satisfeitos com o curso das negociações com os credores oficiais e que 73% acham que o governo não acabou com o papel da troika. Uma maioria de 58,5% considera que o Syriza não está a cumprir as suas promessas eleitorais.

Numa outra sondagem, da Marc para o canal televisivo Alpha, uma maioria de 61,2% dos inquiridos pronunciou-se a favor da manutenção do país no euro e só 32,5% querem regressar ao dracma.

Apesar de um dos membros do Grupo de Bruxelas, Declan Costello, representante da Comissão Europeia, numa carta prévia ao governo de Tsipras ter considerado que a votação desta proposta de lei seria uma "decisão unilateral", o Parlamento grego aprovou esta quarta-feira, também com apoio da maioria da própria Oposição (incluindo a Nova Democracia de Antonis Samaras, ex-primeiro-ministro), o pacote legislativo para lidar com a crise humanitária, que custará 200 milhões de euros. O primeiro-ministro Tsipras disse aos deputados que "não recuaremos no que prometemos".

O Tesouro grego deverá terminar na sexta-feira, com um cheque de 350 milhões de euros, o pagamento da amortização e juros de uma tranche de 1,5 mil milhões de euros do empréstimo do FMI ao abrigo do resgate.  Em abril, há mais de 3 mil milhões de euros em amortizações e juros.