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Pressão sobre juros gregos abranda

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O nervosismo dos mercados financeiros em relação à Grécia acalmou esta sexta-feira com a Bolsa de Atenas a subir e os juros da dívida soberana a descer, sobretudo no prazo a 2 anos.

As yields das obrigações gregas a 2 anos desceram no mercado secundário de 24,42% no fecho de quinta-feira para 21,96% pelas 13h30 desta sexta-feira. Uma redução de quase 2,5 pontos percentuais em relação ao pico de mais de 24% nesta linha obrigacionista que foi lançada em julho do ano passado.

Na maturidade de referência, a 10 anos, as yields desceram 60 pontos base (o equivalente a 0,6 pontos percentuais) no mesmo período, registando, agora, 11,53%.

São níveis ainda muito elevados, mas foi invertida a trajetória de subida que se estava a verificar durante a semana.

A Bolsa de Atenas estava a valorizar 2,3% pelas 13h30, depois de ter perdido 6,1% de segunda a quinta-feira. As ações dos bancos cotados são as que registam maiores subidas.

 

Mesa redonda de Tsipras  noite dentro

A inversão do nervosismo dos mercados financeiros face à Grécia foi provocada esta manhã após o conhecimento dos resultados positivos da reunião restrita pedida pelo primeiro-ministro grego Alexis Tsipras que se realizou na quinta-feira após o primeiro dia da cimeira europeia em Bruxelas.

O temor crescente entre os investidores de uma rutura política iminente no processo negocial que levaria a um pânico financeiro na Grécia na próxima semana foi afastado. Esse temor traduziu-se durante a semana  no disparo das yields da dívida no mercado secundário e no aumento significativo do custo de segurar a dívida grega contra uma bancarrota, que atingiu mais de 2500 pontos base no fecho de quinta-feira. Esta sexta-feira, esse custo baixou para perto de 2000 pontos base.

A reunião organizada pelo presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, que funcionou como anfitrião, juntou numa mesa redonda um quarteto, formado pelos chefes das duas principais potências europeias, a chanceler alemã Angela Merkel e o presidente francês François Hollande, e pelos presidentes da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, e do Banco Central Europeu (BCE), Mario Draghi. À mesa juntaram-se, ainda, o presidente do Eurogrupo, Jeroen Dijsselbloem, e o secretário do Conselho Europeu, Uwe Corsepius.

A reunião que durou quatro horas e só terminou já de madrugada na sexta-feira levou Merkel a falar de "progressos" e Hollande a sublinhar que "a Grécia quer ser a dona das suas próprias reformas". O comunicado da Comissão Europeia, BCE e Eurogrupo reafirma que as autoridades gregas terão a responsabilidade das reformas e apresentarão uma lista completa de reformas específicas nos próximos dias. O funcionamento do designado "Grupo de Bruxelas" mantem-se repartido entre as discussões políticas em Bruxelas e as reuniões de recolha de informação técnica em Atenas. Os analistas referem a possibilidade de uma reunião de urgência do Eurogrupo (órgão dos ministros das Finanças dos membros do euro) no final da próxima semana para apreciar a lista específica de medidas de reformas logo que apresentada pelo ministro das Finanças Yanis Varoufakis. Segundo o jornal grego "Protothema", Tsipras ter-se-á comprometido com "certas propostas".

Segundo o mesmo jornal grego, Tsipras conseguiu dos responsáveis europeus que sentou à mesa a reafirmação de que o governo de Atenas terá a exclusiva responsabilidade pela escolha das reformas estruturais e que não haverá lugar a um Grexit (saída da Grécia do euro). O jornal refere que poderá haver flexibilidade do BCE à medida que as medidas de reforma forem executadas e que terá sido referido que não há problemas de liquidez até abril. A primeira etapa deste processo será a resposta "com espírito construtivo" por parte do governo grego a uma "lista de pedidos" dos técnicos dos credores oficiais a respeito das medidas de reformas, refere o jornal grego "Kathimerini". O primeiro-ministro adjunto Giorgos Stathakis, o ministro das Finanças Varoufakis e o ministro da Economia Yiannis Dragasakis deverão reunir para preparar a lista.

A Comissão Europeia irá disponibilizar à Grécia 2 mil milhões de euros por utilizar de Fundos europeus para o Desenvolvimento, noticiou esta sexta-feira a Agence Fance Presse. A oferta de Juncker, refere a agência, surge na manhã seguinte à reunião.

A chanceler alemã reafirmou que o governo grego pode substituir reformas individuais listadas na última revisão de dezembro do ano passado realizada pela troika por outras medidas desde que "tenham o mesmo efeito". Citou o caso da Irlanda como exemplo durante o período de resgate.

 

Incógnita sobre a liquidez

A questão da liquidez do Tesouro grego tem sido tema constante nas últimas semanas. Segundo cálculos da Bloomberg, o buraco de caixa do governo poderá atingir 3,5 mil milhões de euros este mês e subir para 5,7 mil milhões no segundo trimestre. Como o nível exato de liquidez não é conhecido, alguns analistas citados pela imprensa grega estimam que a solvência não ultrapasse "semanas".

O Tesouro grego acabará por pagar esta sexta-feira a amortização e juros de uma tranche de 1,5 mil milhões de euros do empréstimo do Fundo Monetário Internacional. Alguns analistas referem que o Tesouro tem conseguido recorrer a reservas na mão de empresas públicas, fundos de pensões, hospitais e universidades, que estão depositadas na banca grega. No final de janeiro, o sector público dispunha de 12,3 mil milhões de euros em depósitos nos bancos.

Em abril, o Tesouro grego tem de amortizar mais de 3 mil milhões de euros em dívida obrigacionista e refinanciar 2,4 mil milhões de euros em Bilhetes do Tesouro.

A única porta aberta para o financiamento da banca grega é o recurso à linha de emergência de liquidez junto do Banco central da Grécia, cujo teto o BCE tem aumentado às pinguinhas. Esta semana aumentou em 400 mil milhões de euros. A almofada de liquidez da banca estaria em torno de 3 mil milhões de euros, segundo os analistas financeiros citados pela imprensa grega. O Tesouro conta com a banca grega para colocar no mercado Bilhetes do Tesouro (dívida de muito curto prazo) que vai emitindo. Significativamente, o BCE rejeitou, esta semana, a proposta do Mecanismo Único de Supervisão, dirigido por Daniele Nouy, no sentido de proibir a banca grega a uma maior exposição à dívida pública de muito curto prazo, atualmente único canal de financiamento de sobrevivência no mercado do Tesouro grego.

O primeiro-ministro grego reúne-se com a chanceler alemã na segunda-feira em Berlim.