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Portugal. O periférico que beneficiou mais da reunião do BCE

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Os juros da dívida portuguesa a 10 anos desceram acentuadamente durante a semana. A maior queda entre os periféricos do euro. Chegaram a um mínimo inferior a 1,7% depois do anúncio por Draghi do programa de compra de dívida pública.

As yields das Obrigações do Tesouro (OT) a 10 anos desceram sete pontos base durante a semana. Registaram um mínimo histórico de 1,69% logo após o anúncio na quinta-feira por Mario Draghi, o presidente do Banco Central Europeu (BCE), do arranque do programa de compra de dívida pública (batizado com o acrónimo de PSPP, para public sector purchase programme) no mercado secundário a partir da próxima segunda-feira. As yields das OT naquela maturidade de referência caíram de 1,84% a 27 de fevereiro para 1,77% no fecho de 6 de março.

O prémio de risco da dívida portuguesa em relação à dívida alemã desceu 14 pontos base, de 152 pontos para 138 naquele período, ou seja o diferencial está em 1,38 pontos percentuais. A dívida obrigacionista portuguesa (todos os prazos incluídos) continua a ser a mais rentável na zona euro em termos anuais (52 últimas semanas). Segundo o índice da Bloomberg, subiu de 18,86% a 27 de fevereiro para 18,94% a 6 de março, acima da rentabilidade anual da segunda classificada, a dívida italiana, que regista 16,09%, e significativamente acima da rentabilidade média anual da dívida da zona euro que se situa em 13,11%.

As yields das OT a 10 anos foram as que desceram mais acentuadamente no mercado secundário da dívida soberana na zona euro entre 27 de fevereiro e 6 de março. As yields das obrigações italianas (BTP) a 10 anos recuaram apenas 2 pontos base durante a semana. No caso das obrigações espanholas (OE), naquela maturidade, as yields subiram 3 pontos base, e no caso das irlandesas (IGB) não registaram alteração naquele período.

Há que assinalar que o efeito imediato do anúncio pelo BCE do arranque do programa de compra de dívida pública no mercado secundário provocou a descida para novos mínimos históricos nas yields dos  restantes periféricos, registando-se, no dia 5 de março, 1,69% para as OT, 1,24% para as OE, 1,29% para as BTP e 0,84% para as IGB.

 

BCE mantém aperto da Grécia

As yields das obrigações gregas a 10 anos registaram uma subida de 1 ponto base, fechando a semana em 9,61%, um nível ainda muito elevado ainda que claramente abaixo de 11,45% registado a 30 de janeiro, cinco dias depois das eleições legislativas antecipadas ganhas pelo Syriza. A rentabilidade anual da dívida obrigacionista grega está em terreno negativo e agravou-se; piorou de -10,69% a 27 de fevereiro para -13,01% a 6 de março.

O risco de um evento de crédito - declaração de um incumprimento seletivo de dívida - em março abrandou depois do Tesouro grego ter pago a primeira tranche de 300 milhões de euros ao Fundo Monetário Internacional para amortizar 1,5 mil milhões de euros do empréstimo de resgate que vencem em março. O preço de segurar a dívida grega a 5 anos através de credit defaut swaps desceu de 1647,84 pontos base para 1545,91 pontos base, segundo o índice da CNBC.

No conjunto, em março e abril, o Tesouro grego tem mais de 14 mil milhões de euros em amortizações e juros de obrigações e bilhetes do Tesouro que vencem. Final de abril é o limite para a concretização das medidas de reforma a implementar pelo governo grego.

O BCE manteve, na reunião realizada em Nicósia, capital de Chipre, o aperto sobre a Grécia, deixando apenas a porta aberta aos bancos para financiamento através da linha de assistência de liquidez de emergência junto do banco central grego, que aumentou para 68,8 mil milhões de euros. Draghi repetiu na conferência de imprensa três vezes "não" - recusa de subida do teto de emissão de dívida de muito curto prazo (Bilhetes do Tesouro); manutenção da interdição de se usar as obrigações gregas altamente especulativas como colateral pelos bancos que as detêm em carteira; e exclusão da dívida obrigacionista grega no programa de compra que se inicia segunda-feira pelo menos até ao verão. O BCE volta a reunir a 15 de abril.

 

Eurogrupo pode adiar decisão sobre lista de Varoufakis

Uma reação negativa adicional no mercado secundário poderá ocorrer na próxima semana face à perspetiva que as 7 propostas de medidas de reformas enviadas na sexta-feira pelo ministro das Finanças helénico para o Eurogrupo (órgão de reunião dos ministros das Finanças da moeda única) não terão o acordo dos 18 parceiros do euro na reunião da próxima segunda-feira e que serão enviadas para melhor análise pelas três instituições outrora designadas por troika.

"A lista é ainda bastante fina. E quando se tem em conta a retórica sobre o cancelamento das privatizações por parte de alguns ministros [particularmente o da Energia] e o aumento do salário dos trabalhadores do sector elétrico, [o ministro das Finanças] Yanis Varoufakis vai ter muito que explicar no Eurogrupo", refere-nos Hugo Dixon, fundador dos Breakingviews da Reuters. O tema das privatizações não consta da lista de Varoufakis, mas é, segundo muitos analistas, o 8º "passageiro". "As privatizações vão ser, obviamente, um tópico importante nas negociações", diz-nos Yannis Koutsomitis, um analista grego radicado em Londres, que se mantém pessimista: "Não vai haver nenhum pagamento parcial de nenhuma tranche antes das três instituições concluírem a primeira ronda de negociações com o governo grego".

 

Euro em queda face ao dólar

Um outro efeito importante das decisões do BCE sentiu-se na própria moeda única. O câmbio do euro face ao dólar desceu para um mínimo desde setembro de 2003. O euro desvalorizou quase 1% face ao dólar durante a semana, caindo para 1,084 dólares, um mínimo de há 11 anos. Uma queda significativa face ao câmbio de 1,4 dólares que se registava em maio de 2014. O analista de Wall Street Marc Chandler admite que o câmbio desça para 1,075 dólares. Muitos analistas apontam para a probabilidade elevada de alcançar a paridade ao dólar no próximo ano, uma situação que não se regista desde dezembro de 2002.

É crescente o contraste entre as políticas monetárias dos dois lados do Atlântico. O BCE avança com um programa de quantitative easing quando a Reserva Federal norte-americana (FED) já desativou o seu e se prepara para iniciar o processo de subida do intervalo da taxa diretora de juros em julho ou setembro, segundo os analistas. As yields dos títulos do Tesouro norte-americano subiram significativamente durante a semana, em 24 pontos base, de 2% para 2,24% entre 27 de fevereiro e 6 de março.

Refira-se que o preço do barril de petróleo da variedade Brent (variedade europeia que serve de referência internacional) para entrega em abril desceu de 62,21 para 59,82 dólares naquele período. Apesar da queda está ainda distante do mínimo (neste ciclo que teve um pico em junho de 2014) de 46,40 dólares atingido em janeiro.