Siga-nos

Perfil

Economia

Dívida

Novos mínimos nos juros de Portugal, Espanha, Itália e Irlanda

A expetativa de uma intervenção no mercado da dívida soberana em 2015 por parte do Banco Central Europeu continua a alimentar a trajetória de descida do custo da dívida de longo prazo dos quatro periféricos. A exceção continua a ser a Grécia que terá a primeira volta da eleição do Presidente da República já a 17 de dezembro.

A sessão desta segunda-feira foi marcada no mercado secundário da dívida soberana por novos mínimos históricos nas yields da dívida obrigacionista no prazo de referência, a 10 anos, de Portugal, Espanha, Itália (apesar de recente corte na notação da dívida de longo prazo por parte da Standard & Poor's) e Irlanda.

As yields das Obrigações do Tesouro português (OT) no prazo a 10 anos fecharam esta segunda-feira em 2,73%, três pontos base abaixo do valor de fecho de sexta-feira passada. O custo de financiamento das OT neste prazo de referência está abaixo de 3%  - o limiar abaixo do qual o governo português poderá equacionar propor pagar antecipadamente grande parte da dívida ao Fundo Monetário Internacional - desde 24 de novembro.

A rentabilidade nas últimas 52 semanas da dívida obrigacionista portuguesa (em todos os prazos) subiu esta segunda-feira para 22,37%, em contraste com a descida para 21,73% no caso da dívida grega e para 21,18% no caso da dívida eslovena, segundo dados do indicador da Bloomberg para a dívida soberana. A rentabilidade da dívida portuguesa voltou à liderança na zona euro. Em segundo e terceiro lugares posicionam-se as dívidas grega e eslovena.

Nesta tendência para mínimos históricos sucessivos no custo de financiamento dos periféricos do euro assumem papel central as medidas não convencionais tomadas pelo Banco Central Europeu (BCE) e a sua gestão de expetativas de que poderá avançar para um programa de estímulos monetários ainda mais massivo. As próprias más notícias sobre a conjuntura económica (desinflação, crescimento medíocre) e a revisão em baixa das projeções para 2015  na zona euro, apontando para a probabilidade de uma "estagnação persistente" (como referiu recentemente a OCDE), "alimentam" ainda mais a expetativa de que o BCE venha a ser ainda mais interventivo.

A sessão favorável no mercado da dívida soberana dos periféricos do euro contrastou com o fecho no vermelho nas bolsas europeias e em Wall Street. As bolsas foram afetadas pela divulgação da contração em cadeia de 0,5% na economia japonesa no 3º trimestre (em termos homólogos, a contração anual foi de 1,9% superior à estimativa inicial de uma quebra de 1,6%) e da possibilidade de uma revisão em baixa da previsão de crescimento da China em 2014 (de 7,5% para 7,4%) e da projeção para 2015 (que deverá colocar a meta política em 7%).  O índice mundial MSCI caiu 0,71%, enquanto o europeu recuou 0,8%. Em Wall Street, o Dow Jones caiu 0,59% e o S&P 500 recuou 0,73%.

 

Movimento político de surpresa na Grécia

A exceção na trajetória de descida para mínimos históricos continua a ser a Grécia. As yields da dívida a 10 anos subiram esta segunda-feira para 7,33%, uma subida de 15 pontos base em relação a sexta-feira passada.

O Eurogrupo (reunião dos ministros das Finanças da zona euro) decidiu esta segunda-feira estender por dois meses o final do envolvimento europeu no segundo plano de resgate à Grécia, que terminaria a 31 de dezembro. A decisão seguiu-se à aprovação no Parlamento grego esta segunda-feira ao início do dia do orçamento para 2015, que recolheu 155 votos a favor, 134 contra e 1 deputado declarando "presente". O orçamento prevê um crescimento económico de 2,9% e um défice orçamental de apenas 0,2% do PIB. A troika não deu o aval ao orçamento considerando que há um buraco de 2 mil milhões de euros que obrigariam a mais medidas de austeridade, o que o governo se recusa a assumir por agora.

Num movimento político de surpresa, o governo, aproveitando o prolongamento técnico do programa de resgate obtido em Bruxelas, anunciou que antecipa para 17 de dezembro a primeira volta no Parlamento de eleição do Presidente da República. O atual presidente termina o mandato em março e a eleição estava prevista para fevereiro. De acordo com a constituição grega, o candidato vencedor terá de obter 200 votos (em 300 deputados). Se não o conseguir, uma segunda votação ocorrerá cinco dias depois e, se houver necessidade de uma terceira votação, esta requererá apenas uma maioria de 180 votos. Se falhar a eleição pela terceira vez consecutiva, o Parlamento é dissolvido e são convocadas eleições legislativas antecipadas um mês depois. O final normal da atual legislatura é em junho de 2016, mas poderá ser antecipado para o primeiro trimestre de 2015. O objetivo do governo de coligação conservador-socialista em Atenas é clarificar a situação política o mais rapidamente possível, pois o risco político cada vez mais elevado está a minar completamente a confiança dos investidores financeiros.

 

Leilão a realizar pelo BCE concentra expetativas

As expetativas centram-se, esta semana, no segundo leilão da linha de refinanciamento de longo prazo direcionada (conhecida pelo acrónimo em inglês TLTRO) que o BCE realizará na quinta-feira.

No primeiro leilão em setembro, o recurso por parte de 255 bancos da zona euro ficou-se por apenas 82,6 mil milhões de euros. Uma sondagem da Reuters sobre o montante previsto para o segundo leilão aponta para um consenso de um valor inferior a 150 mil milhões de euros, o que desapontaria, de novo. A previsão para estas duas primeiras operações em 2014 situava-se em setembro, aquando do lançamento do programa, em 400 mil milhões de euros. Caso o montante alocado nas duas operações fique muito aquém, os analistas antecipam que aumentará a pressão para o BCE adotar mais medidas não convencionais em 2015.

A última reunião do ano do conselho do BCE, realizada a 4 de dezembro, ficou marcada pelo uso de uma nova expressão por parte do seu presidente, Mario Draghi, que animou os investidores na dívida soberana dos periféricos do euro: "Já tomámos grandes decisões sem unanimidade". O que foi "lido" como significando que não é necessária unanimidade para tomar novas medidas não convencionais em 2015.

Philip Plickert no jornal alemão "Frankfurter Allgemeine Zeitung", citando fontes do BCE, adiantou na sexta-feira passada que na reunião do dia anterior os conselheiros do banco central teriam discutido um programa de aquisição de dívida de mais de 1 bilião de euros, com um grupo dos intervenientes a defender o seu lançamento já na próxima reunião de 22 de janeiro, não aceitando o adiamento para a reunião de março em Chipre. Draghi referiu na última conferência de imprensa deste ano que "há evidência suficiente de que um programa de expansão quantitativa é eficaz" e que "comprar dívida soberana está dentro do nosso mandato".