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Juros da dívida reaproximam-se de 3%

Os juros das Obrigações do Tesouro a 10 anos regressaram a uma trajetória de subida no mercado secundário. O movimento é comum aos periféricos do euro. O contágio grego foi o gatilho. Preços do petróleo continuam a descer para mínimos desde maio de 2009.

As yields das Obrigações do Tesouro português no prazo de referência, a 10 anos, subiram esta quarta-feira no mercado secundário para 2,96% pelas 9h35 segundo dados da Investing.com. Registam agora 2,91%, um aumento de sete pontos base em relação ao fecho de terça-feira e de 20 pontos base em relação ao fecho da semana passada. As yields desceram no início de dezembro para um mínimo histórico de 2,71%.

O movimento de subida verificado desde segunda-feira é comum a todos os periféricos do euro, com destaque para a Grécia, Portugal, Itália e Espanha. O gatilho desta subida foi o anúncio pelo governo grego de que antecipa para 17 de dezembro a primeira volta de votação no Parlamento dos candidatos presidenciais com vista à substituição em março do atual presidente que chega ao final de mandato. O risco político disparou e contagiou os periféricos do euro. Bruxelas, através da porta-voz da Comissão Europeia Annika Breidthardt, declarou o seu apoio ao candidato presidencial apresentado pelo governo grego, Stavros Dimas, que foi comissário europeu.

No caso da Grécia, as yields das obrigações a 5 anos dispararam 78 pontos base nas primeiras três horas de sessão desta quarta-feira, registando, agora, 8,6%, um nível mais elevado do que o custo de financiamento a 10 anos que se situa em 8,2%.

A Bolsa de Atenas que registou na terça-feira o maior crash diário desde a derrocada de dezembro de 1987, com o índice ASE a recuar quase 13%, prossegue a queda na abertura desta quarta-feira.

 

Risco político

"A fonte do próximo abalo na zona euro vai ser política", é o prognóstico de Yanis Varoufakis, um académico grego que é atualmente professor visitante na Universidade do Texas em Austin, nos EUA. Em seis meses, distribuídas de janeiro a dezembro de 2015, vão realizar-se eleições legislativas normais ou antecipadas em seis membros da União Europeia (UE), com destaque para três periféricos da zona euro - Grécia, Portugal e Espanha - cujos resultados eleitorais poderão alterar significativamente o atual panorama político nesses países, que foram sujeitos a programas de resgate totais ou parciais.

Por outro lado, o preço do barril de petróleo continua a descer, registando na abertura desta quarta-feira 65,63 dólares na variedade Brent cotada em Londres e 62,46 dólares na variedade norte-americana WTI cotada em Nova Iorque. São mínimos desde maio de 2009. A descida do preço do barril do ouro negro em mais de 40% desde o pico em junho está a provocar o agravamento do processo de desinflação (descida da taxa de inflação para níveis próximos de 0%) particularmente na zona euro, o que é uma dor de cabeça para o Banco Central Europeu (BCE). Um responsável de análise de mercados do Ministério dos Petróleos do Irão, citado pela Bloomberg, admite que o preço do barril poderá cair até aos 40 dólares no decurso da atual guerra de preços.

O risco de estagnação, ou de crescimento medíocre em torno de 1%, e de um período prolongado de inflação abaixo de 1% até final de 2015 na zona euro, pressiona o BCE a tomar sucessivamente mais e mais medidas de estímulos monetários. Na quinta-feira, o BCE testa o mercado com um segundo leilão da sua linha de refinanciamento de longo prazo direcionada (conhecida pelo acrónimo em inglês TLTRO). O montante alocado no primeiro leilão em setembro desapontou. Os analistas esperam para ver se a meta de 400 mil milhões de euros nos dois leilões de 2014 é atingida, ou se o montante ficará muito aquém. O governador do Banco central da Eslováquia confirmou na terça-feira que há uma "maioria esmagadora" no conselho de governadores do BCE a favor de um programa mais agressivo de estímulos incluindo compra de dívida soberana dos membros do euro.

 

Risco de perda de confiança no BCE

A segunda linha de risco político em 2015 é a perda de confiança no BCE por parte dos investidores financeiros, referiu recentemente "The House View" do Deutsche Bank Research. "O próximo ano poderá ser o momento dramático em que todos vamos perceber que está para além do BCE o poder para resolver os problemas, que o banco central não pode fazer milagres. O que poderá provocar uma grande crise de confiança", refere-nos, também, Daniel Stelter, um economista alemão, ex-consultor do Boston Consulting Group, que fundou em Berlim o think tank Beyond the Obvious.

Segundo simulações do modelo macroeconómico do BCE, a que o jornal alemão "Frankfurter Allgemeine Zeitung" teve acesso,  mesmo um programa massivo de compra de dívida soberana apenas aumentará a inflação da zona euro entre 0,15 e 0,6 pontos percentuais.

Os atuais mínimos históricos no custo de financiamento da dívida obrigacionista da maioria dos periféricos do euro dependem umbilicalmente dessa confiança no BCE por parte dos investidores na dívida soberana. Se for rompida, poderão regressar o disparo nos juros da dívida soberana e no prémio de risco para os periféricos e o aumento súbito do risco de incumprimento.