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Juros da dívida portuguesa lideram subidas

Foram os maiores aumentos entre os países periféricos da zona euro desde o final de agosto e também no "clube" das 15 economias à escala mundial com juros mais elevados.

Com o fecho das yields das obrigações do Tesouro português (OT) no prazo a 10 anos em 7,42% a 13 de setembro, Portugal lidera, desde o final de agosto, a dinâmica de aumento destas taxas no mercado secundário da dívida pública entre os países periféricos da zona euro.

No espaço de menos de uma quinzena, as yields das OT a 10 anos subiram 68 pontos base (equivalente a 0,68 pontos percentuais), seguidas a alguma distância pelas BTP (obrigações italianas) com um aumento de 16 pontos base (pb), pelas obrigações gregas com 7 pb e pelas obrigações eslovenas com 4 pb, segundo dados da Investing.com. No mesmo período desceram as yields das obrigações húngaras (41 pb), irlandesas (16 pb) e espanholas (6 pb) naquela maturidade.

Como as yields das Bunds - designação das obrigações alemãs - no prazo a 10 anos subiram 11 pontos base naquele período, todas as dívidas cujas yields aumentaram menos ou desceram viram o seu prémio de risco diminuir. O prémio de risco de Portugal e Itália subiu. No caso português, o diferencial em relação às yields da dívida alemã a 10 anos - o que se designa por prémio de risco - subiu de 4,88 para 5,45 pontos percentuais entre final de agosto e 13 de setembro, segundo dados da Datosmacro.com.

O prémio de risco é o adicional que o Tesouro português tem de oferecer a mais do que o Tesouro alemão para que os investidores adquiram dívida portuguesa. Quando se julgou, em janeiro de 2012, que a zona euro corria o risco de uma onda de saídas - com a crise grega no auge -, o prémio de risco da dívida portuguesa atingiu níveis acima de 15 pontos percentuais. Nessa altura já estava em curso o plano de resgate da troika.

Se olharmos à evolução desde que o presidente Cavaco Silva decidiu manter o atual governo (21 de julho), e, desse modo, encerrar o episódio da crise governativa de julho, as yields das OT a 5 e a 10 anos subiram mais de um ponto percentual. A 13 de setembro, ambas registavam valores acima de 7%.

Maior subida à escala mundial

Entre os 15 países à escala mundial com as yields mais elevadas nos títulos a 10 anos, Portugal foi a economia com a maior subida nos últimos trinta dias, segundo dados da Tradingeconomics - um disparo de quase 2 pontos percentuais. Seguidamente, as maiores subidas ocorreram com a Grécia, Turquia, Indonésia e Nigéria. Recorde-se que a Turquia e a Indonésia estão incluídas no grupo das cinco economias emergentes (que reúnem mais a Índia e o Brasil) que estiveram sob enorme stresse nos mercados financeiros (bolsista, cambial e de dívida) desde maio.

No TOP 15 das yields mais elevadas, Portugal situava-se na sexta-feira passada em 12º lugar, abaixo da África do Sul e acima da Rússia, Colômbia e Eslovénia. O "clube" é liderado pela Nigéria; a Grécia ocupa o 5º lugar. Os restantes periféricos, com yields no patamar dos 4%, situam-se em 24º (Itália), 26º (Espanha) e 31º (Irlanda), fora desse TOP 15.

Estes níveis de yields no mercado secundário para o médio e longo prazo dão sinais negativos em relação à continuação do plano de "regresso ao mercado" obrigacionista que visava financiar antecipadamente as necessidades de 2014.

Outro movimento negativo foi a subida da probabilidade de incumprimento da dívida portuguesa que se baseia, entre outros indicadores, na variação do preço dos credit default swaps que seguram essa dívida contra um risco de bancarrota num horizonte de cinco anos.

Essa probabilidade subiu de 32,96% a 22 de julho para 37,84% a 13 de setembro, segundo dados da S&P Capital IQ. Este nível de risco está, apenas, a meio ponto percentual do pico anual registado em 12 de julho, no auge da crise governativa.

O aviso do BCE

Para além do ruído em torno do aumento ou não da meta de défice orçamental para 2014 prévio ao início na próxima semana da oitava e nona revisões do programa de resgate pela troika, passou relativamente despercebida em Portugal uma "reprimenda" do Banco Central Europeu (BCE) à tática seguida pela Comissão Europeia em relação à contínua revisão das metas de redução dos défices orçamentais no caso dos países sujeitos a procedimento por défice excessivo. No seu relatório de setembro, o BCE critica explicitamente a "permissividade" da Comissão Europeia, permitindo revisões sucessivas das metas, e nomeia em particular os casos de Portugal e da Espanha, casos em que "a redução do ajustamento estrutural anual médio necessário é substancial".

Além da questão levantada no início de agosto pela revista britânica "The Economist" em relação à sustentabilidade das dívidas públicas da Grécia, Irlanda e Portugal e das dúvidas sobre o regresso destes países a um financiamento "normal" no mercado primário após conclusão dos seus programas de resgate, o BCE adiciona, agora, a possibilidade de "se intensificarem os riscos de sustentabilidade das finanças públicas" nomeadamente nos casos de Portugal e Espanha. Recorde-se que o ministro das Finanças grego já anunciou que em novembro será discutido o financiamento "oficial" em falta para 2014 e 2015, que terá de ser resolvido pelo Eurogrupo, e que o ministro das Finanças irlandês declarou que o país poderá recorrer a uma linha de crédito cautelar de 10 mil milhões de euros após concluir o programa de resgate no final deste ano.

A semana que se concluiu viu o risco geopolítico derivado da questão síria abrandar com a prioridade à diplomacia e a possibilidade de uma queda do governo de coligação em Itália ser adiada, o que aliviou a pressão sobre os mercados financeiros.

A próxima semana é rica no que os analistas apelidam de "eventos de risco" que poderão ter influência sobre o "sentimento" dos investidores na dívida.

Na segunda e na terça-feira iniciam-se as revisões dos programas de resgate em Portugal e na Grécia.

Na terça e na quarta-feira realiza-se a reunião mensal da Reserva Federal norte-americana (Fed), que poderá dar sinais sobre o plano de redução dos estímulos monetários ainda até final deste ano. Depois dessa reunião, poderá ocorrer o anúncio pelo presidente Obama do sucessor de Ben Bernanke, o atual presidente da Fed. O jornal nipónico Nikkei anunciou que Obama optará por Lawrence Summers, tido como um "neoliberal" no campo dos Democratas. As decisões da Fed têm repercussão mundial, dado tratar-se do mais importante banco central. Na linha de mira do impacto estão as economias emergentes e os periféricos com crises de dívida na zona euro, mais "sensíveis" às mudanças nos fluxos internacionais de capitais. Recorde-se que, com o aumento das yields dos títulos do Tesouro norte-americano e das Bunds alemãs desde maio, a sua atratividade, para alguns tipos de investidores, em termos de remuneração mais elevada - atualmente próxima de 3% nos EUA e de 2% na Alemanha - é cada vez maior, para além do seu papel de "refúgio". Pode considerar-se um dois em um.

Na quarta-feira poderá ocorrer a votação final num Comité do Senado italiano do caso Berlusconi. No caso de uma crise política em Itália em vésperas do grosso das eleições legislativas alemãs (que decorrerão no domingo dia 22, com a votação na Baviera a decorrer antecipadamente a 15 de setembro), os efeitos serão imprevisíveis.

Entretanto, o BCE tem continuado a pressionar para que a Eslovénia(membro do euro desde 2007) recorra a um plano de resgate. Contudo, desde final de agosto, as yields das obrigações a 10 anos aumentaram ligeiramente de 6,77% para 6,81%. A OCDE estimou, no entanto, que o problema do crédito mal parado na banca eslovena pode representar 20% do PIB. Na semana passada, o governo esloveno anunciou que teria de proceder à liquidação de dois pequenos bancos - Factor Bank e Probanka - representando apenas 4,5% dos ativos bancários, mas que necessitarão de uma garantia de 1,3 mil milhões de euros (3,7% do PIB).