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Juros da dívida grega voltam a subir com maré de incerteza

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O jornal alemão "Bild" anunciava pela manhã eleições antecipadas em preparação, o britânico "Financial Times" referia ao final da tarde a possibilidade de uma bancarrota e diversos economistas propõem que o governo de Atenas comece a pagar salários e pensões com promissórias.

As yields das obrigações gregas a 10 anos subiram esta segunda-feira no mercado secundário quase meio por cento em relação a sexta-feira passada, fechando em 11,57%, segundo dados da Investing.com. Nos máximos do dia registaram-se 21,5% a 2 anos, 16,1% a 5 anos e 11,6% a 10 anos.

Atenas tem pela frente mais uma semana crítica, com o refinanciamento de 2,4 mil milhões de euros em Bilhetes do Tesouro a 3 e 6 meses a 14 e 17 de abril e o pagamento de 206 milhões de euros em juros de obrigações nas mesmas datas. Até dia 20 tem de apresentar uma lista mais detalhada de reformas para ser apreciada na reunião do Grupo de Trabalho do Euro no dia 21 de abril, como preliminar à reunião do Eurogrupo dia 24.

A expetativa de que se chegue a um acordo é baixa. O vice-presidente da Comissão Europeia Valdis Dombrovskis referiu esta segunda-feira à Bloomberg TV que as negociações técnicas entre o governo grego e os técnicos dos credores oficiais são "muito complicadas" e que falta "muito terreno para desbravar" até à reunião do Eurogrupo a 24. Alguns analistas colocam a possibilidade de uma reunão extraordinária dos ministros das Finanças do euro a 29.

Pela manhã, o jornal alemão "Bild" adiantava que Atenas preparava eleições antecipadas no caso das negociações com os credores oficiais correrem mal, o que o governo grego depois desmentiu.

Ao final da tarde, os dois correspondentes do jornal britânico "Financial Times" (FT) em Atenas adiantavam que o governo grego já considerava a possibilidade de um default no caso de não haver acordo, citando fontes familiares "com o pensamento do governo de esquerda radical". O artigo do jornal referia a possibilidade de Atenas "reter" o pagamento ao Fundo Monetário Internacional (FMI) em maio e junho. O FT refere um montante de 2,5 mil milhões de euros de cheques ao FMI. O total é inclusive superior. Em maio, a Grécia terá de pagar ao FMI 203 milhões de euros de juros a 1 de maio e 770 milhões de euros a 12 de maio de vencimento de mais uma tranche do empréstimo. Ao longo de junho, vencem 2021 milhões de euros de tranches do FMI.

Alguns analistas gregos e de bancos internacionais consideram maio o mês crítico se não houver um acordo no Eurogrupo até final de abril. Para o analista grego Yannis Koutsomitis em declarações ao Expresso, "se as negociações com os credores oficiais falharam, o default é inevitável. Todas as partes o sabem. O primeiro pagamento ao FMI em maio não poderá ser realizado".

O governo helénico, para além destes pagamentos relativos à dívida obrigacionista e ao empréstimo do FMI, tem uma folha mensal de ordenados e pensões para pagar e faturas pendentes aos fornecedores do Estado. Por isso, têm surgido economistas a prever que o governo tenha de recorrer à emissão de promissórias para saldar compromissos e dívidas domésticas, como já foi feito em outras ocasiões neste século.

Em 2009, o estado da Califórnia, nos EUA, recorreu a esse instrumento financeiro para escapar à crise aguda de liquidez. O próprio governo grego entre 2007 e 2009 anterior emitiu "farma-obrigações" (pharmabonds) no valor de 5,6 mil milhões de euros para cobrir dívida pendente à indústria farmacêutica. Depois do default argentino de 2001, províncias e outras entidades argentinas usaram esse tipo de promissórias, como patacones (títulos de Tesouraria da Província de Buenos Aires), lecops (títulos de pagamento de obrigações provinciais, emitidos pelo Banco central), num total de mais de uma dezena desse tipo de títulos de emergência.

Uma fonte da zona euro admitiu recentemente à Reuters que esse tipo de instrumentos, numa situação limite, poderá ter de ser usado pelo governo grego. Em fevereiro, o Levy Economics Institute do Bard College, uma instituição sediada a norte de Nova Iorque, já havia feito essa sugestão.