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Juros da dívida em novos mínimos históricos

Depois da afirmação do presidente do BCE de que não era necessária unanimidade para avançar com mais estímulos monetários em 2015, os juros da dívida a 10 anos de Espanha, Itália e Portugal fixaram novos mínimos no fecho da semana.

O custo de financiamento da dívida de longo prazo dos países periféricos da zona euro voltou a descer esta semana para mínimos históricos no mercado secundário, com exceção da Grécia.

No fecho da semana, as yields das Obrigações do Tesouro português (OT) no prazo de referência, a 10 anos, fixaram um novo mínimo em 2,76%, uma descida de nove pontos base em relação ao fecho do mês de novembro. No caso da dívida espanhola na mesma maturidade, as yields desceram para um novo mínimo de 1,84% e no caso italiano para um novo mínimo de 1,98%, apesar da agência Standard & Poor's (S&P) ter cortado o rating da dívida italiana de longo prazo para BBB-, apenas um nível acima de dívida especulativa, vulgo "lixo financeiro". O custo mais baixo de financiamento da dívida a 10 anos entre os periféricos do euro continua a ser registado na Irlanda, que fechou em 1,39%, dois pontos base acima do mínimo de 1,37% registado no final de novembro. A S&P decidiu subir a notação da Irlanda de A- para A, um rating a meio no grau médio superior de investimento.

O prémio de risco da dívida portuguesa em relação à dívida alemã desceu para um mínimo de 198 pontos base e o custo dos credit default swaps (seguros contra o risco de incumprimento da dívida) caiu para 170 pontos base. A rentabilidade nas últimas 52 semanas de toda a dívida obrigacionista portuguesa subiu para 22%, a segunda mais elevada da zona euro, depois da rentabilidade da dívida grega (que subiu para 22,66%), segundo dados do indicador da Bloomberg para a dívida soberana.

 

Nova frase mágica de Draghi

A tendência de descida para mínimos jamais registados no custo de financiamento da dívida soberana nestas economias periféricas é atribuída, pelos analistas financeiros, às intenções do Banco Central Europeu (BCE) em prosseguir uma política de estímulos monetários não convencionais até conseguir aumentar o balanço do banco central em 1 bilião de euros.

A última reunião do ano do conselho do BCE, realizada na passada quinta-feira, serviu para Mario Draghi, o seu presidente, usar uma nova expressão que animou os investidores na dívida soberana dos periféricos do euro: "Já tomámos grandes decisões sem unanimidade". O que foi "lido" como significando que não é necessária unanimidade para tomar novas medidas não convencionais em 2015.

As expetativas viram-se, agora, para a reunião de março de 2015 em Chipre e para a possibilidade de adoção de um programa muito mais amplo de compra de ativos financeiros, incluindo dívida soberana dos países membros do euro. Draghi referiu na última conferência de imprensa deste ano que "há evidência suficiente de que um programa de expansão quantitativa é eficaz" e que "comprar dívida soberana está dentro do nosso mandato". 

No entanto, na sexta-feira, Philip Plickert no jornal alemão "Frankfurter Allgemeine Zeitung", citando fontes do BCE, adiantava que na reunião do dia anterior os conselheiros do banco central teriam discutido um programa de aquisição de dívida de mais de 1 bilião de euros, com um grupo dos intervenientes a defender o seu lançamento já na próxima reunião de 22 de janeiro.

Entretanto, o BCE realizará dia 11 de dezembro uma segunda operação no âmbito da linha de refinanciamento de longo prazo condicionada, conhecida pela sigla TLTRO.  Na anterior operação em setembro, os bancos apenas solicitaram 82,6 mil milhões de euros. Até final de novembro, no âmbito dos dois programas de compras de ativos financeiros privados, lançados recentemente, o BCE já adquiriu 17,8 mil milhões de euros em covered bonds (obrigações hipotecárias e sobre créditos do sector público) e 368 milhões no âmbito do programa de compra de ABS (acrónimo em inglês para asset-backed securities, instrumentos de dívida titularizados).

 

BCE e Bundesbank cortam nas previsões para 2015

Esta semana aumentou a probabilidade de serem necessárias mais medidas de estímulos não convencionais em 2015 depois do BCE divulgar o corte nas previsões de inflação e crescimento do PIB na zona euro para os próximos dois anos. Em 2015, a previsão para a inflação média anual desceu de 1,1% para 0,7%, continuando bem distante da meta estatutária de abaixo, mas próximo de 2%. A previsão para o crescimento económico no próximo ano foi reduzida de 1,6% para 1%.

Também o Bundesbank, o banco central alemão, reviu em baixa significativamente as suas previsões de inflação e crescimento para a Alemanha em 2015. De uma previsão de 2% de crescimento do PIB alemão em 2015, na análise de junho, para 1%. Admite que possa subir para 1,1% no caso da quebra de preços do barril de petróleo prosseguir. A previsão para o nível de inflação anual médio em 2015 foi reduzida de 1,5% para 1,1%. Em termos trimestrais, a Trading Economics prevê que a inflação em cadeia (de um trimestre para outro) desça para terreno negativo no primeiro trimestre de 2015.

A desinflação (processo de descida da taxa de inflação) "importada" acentuou-se, nomeadamente em virtude da derrocada do preço do barril de petróleo desde a decisão da OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) a 27 de novembro em prosseguir o braço de ferro com os principais produtores fora do cartel (EUA e Rússia). O preço do barril de Brent fechou a semana em 68,70 dólares face a 70,15 dólares no fecho de novembro. A 1 de dezembro chegou a cotar-se em Londres em 67,72 dólares. Desde o pico em junho acima de 115 dólares, o preço já caiu 41%. Os responsáveis da Saudi Arabian Oil Co. (Aramco), a principal companhia petrolífera da Arábia Saudita (o líder do cartel da OPEP), decidiram esta semana aumentar ainda mais o desconto no preço base para exportação em janeiro para os clientes na Ásia (objetivo estratégico da exportação russa) e nos Estados Unidos (numa concorrência feroz em relação ao petróleo com origem no xisto norte-americano).

 

A exceção grega

A Grécia continua a ser a exceção à trajetória de descida para mínimos históricos no custo de financiamento da dívida de longo prazo. Esta semana, as yields das obrigações gregas reestruturadas a 10 anos desceram para 7,18%, uma redução de 15 pontos base em relação ao fecho no final de novembro. Este nível continua muito acima do mínimo do ano, de 5,48%, registado em setembro.

A razão imediata de desconfiança dos mercados financeiros deriva da dificuldade do governo de Atenas em fechar um acordo com a troika sobre o exame em curso ao andamento do segundo programa de resgate e sobre o modo de saída parcial desse programa no final do ano. O grau de dificuldade, dada a fraca margem de manobra política interna do governo de coligação conservador-socialista, ficou muito visível esta semana, com o primeiro-ministro Antonis Samaras a criticar publicamente pela primeira vez a troika. O Eurogrupo deverá discutir a situação grega na próxima segunda-feira.

O risco político de uma alteração substancial no quadro parlamentar helénico, caso se realizem eleições legislativas antecipadas em março, paira no horizonte. O presidente da República Karolos Papoulia termina o mandato em março e a eleição de um novo presidente no Parlamento deverá ser realizada em fevereiro. Se nenhuma candidato conseguir a maioria terão de ser convocadas eleições legislativas antecipadas. O partido de oposição Syriza continua à frente nas sondagens.

Em 2015, os analistas apontam para três momentos em que o risco político pode aumentar em alguns membros do euro, em virtude de alta probabilidade de alterações no quadro parlamentar. O primeiro momento situa-se no primeiro trimestre do próximo ano no caso da Grécia, como referido. Outros dois momentos eleitorais importantes situam-se no final do terceiro trimestre ou início do quarto trimestre para Portugal e em dezembro para Espanha.