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Grécia, Petróleo e Rublos assustaram mercados financeiros

A crise política helénica aberta pelo governo, a continuação da derrocada dos preços do barril de crude e o afundamento da moeda russa marcaram a semana que viu o índice de pânico na Europa gerar o segundo surto de medo mais elevado do ano entre os investidores financeiros.

O índice de pânico financeiro na Europa subiu 62% durante a semana que findou. O índice VIX relacionado com o índice bolsista Eurostoxx 50 passou de 16,33 euros a 5 de dezembro para 26,49 euros a 12 de dezembro. Este índice de sexta-feira é superior ao registado no surto de pânico no início de fevereiro, mas inferior ao verificado em meados de outubro.

O VIX indica pontos extremos de pânico bolsista relacionados com o índice bolsista e, por isso, é alcunhado de "índice do medo". Mede as expetativas do mercado financeiro em relação à volatilidade nos 30 dias seguintes. No caso do índice relacionado com o índice bolsista S&P 500 de Wall Street o disparo foi de 76% durante a semana. O VIX subiu de 12,01 dólares para 21,08 dólares no período referido.

O impacto mais visível da agitação nos mercados financeiros observa-se nas bolsas. O índice mundial MSCI caiu 4% desde o início de dezembro. O relativo às bolsas europeias teve uma queda de 5,2% no mesmo período. Wall Street registou uma quebra menor no mês, de 1,3% para o Dow Jones e de 1,6% para o S&P 500.

As duas derrocadas bolsistas mais significativas verificaram-se para o índice ASE da Bolsa de Atenas que caiu 20,18% durante a semana, fruto da crise política grega aberta na segunda-feira, e para o PSI 20 da Bolsa de Lisboa que recuou 8,2% no mesmo período. Desde o início do ano, o ASE quebrou 29,09% e o PSI 20 caiu 26,43%.

 

Irlanda separa-se dos periféricos

No mercado secundário da dívida soberana na Europa e nos Estados Unidos a semana ficou marcada por duas velocidades.

As yields relativas à dívida obrigacionista a 10 anos do Reino Unido (Gilts), dos EUA (US Treasuries), da Alemanha (Bunds), da França (OAT) e da Irlanda desceram entre 10 pontos base para o caso da Irlanda e 23 pontos base para as Gilts. As Bunds e as OAT fixaram novos mínimos históricos no prazo de referência. No caso francês, a descida para 0,9% ocorreu apesar da agência Fitch ter cortado o rating da dívida de longo prazo de AA+ para AA, que é ainda uma notação de alto grau. A dívida irlandesa na maturidade de referência, com yields em mínimos históricos de 1,29%, separou-se claramente do resto dos periféricos do continente europeu.

Em contraste, o custo de financiamento para os quatro periféricos continentais (Espanha, Grécia, Itália e Portugal) subiu, com um disparo de 200 pontos base (2 pontos percentuais) para as yields da dívida grega que fecharam em 9,18%, uma subida intermédia de 20 pontos base para as yields das Obrigações do Tesouro português que fecharam em 2,96%, e subidas de nove e oito pontos base para os casos de Itália (fechou em 2,07%) e Espanha (1,92%) respetivamente. As yields para a dívida portuguesa, espanhola e italiana continuam próximas de mínimos históricos, apesar das subidas desta semana.

 

Grécia regressa a maio de 2010

A situação grega regressou aos níveis de yields verificadas em maio de 2010, quando ocorreu o primeiro resgate. O custo de financiamento da dívida a 5, a 10 e a 15 anos está acima de 9% e o registado para a dívida a 3 anos subiu para 11,16%.

O custo de segurar a dívida grega contra o risco de bancarrota disparou para 1119,9 pontos base, o equivalente a uma probabilidade de incumprimento de 59%. A 5 de dezembro, estava em 733,5 pontos base.

A rentabilidade da dívida obrigacionista grega (em todos os prazos) nas últimas 52 semanas caiu abruptamente de 22,66% a 5 de dezembro, a mais elevada na zona euro, para 6,2% no fecho de sexta-feira, segundo o índice da Bloomberg. Apesar de ter descido durante a semana, a rentabilidade nas 52 semanas da dívida obrigacionista portuguesa é a mais elevada da zona euro, registando 20,84%.

 

A trilogia que está a marcar esta situação de pânico financeiro é formada por três protagonistas: a crise política grega aberta pela decisão do governo em antecipar as eleições presidenciais para 17 de dezembro (ver artigo relacionado), a continuação da derrocada do preço do barril de petróleo que desceu para níveis de maio de 2009, e o afundamento da moeda russa para mínimos históricos com o euro a superar no mercado cambial a barreira dos 72 rublos.

O preço do barril de Brent negociado em Londres caiu 10,5% em dólares e 8,5% no contravalor em euros durante a semana; desceu de 68,7 dólares a 5 de dezembro para 61,47 dólares no fecho de sexta-feira. O preço do Brent caiu 46,9% desde o pico em junho. No caso do barril da variedade WTI norte-americana, negociado em Nova Iorque, o preço caiu para 57,46 dólares. A guerra de preços desencadeada pela OPEP prossegue com alguns dos responsáveis do cartel petrolífero a admitirem a possibilidade do preço do crude descer para o patamar dos 40 dólares antes do cartel voltar a reunir em junho de 2015.

O rublo já desvalorizou face ao euro mais de 58% desde o início do ano. Em dezembro já caiu perto de 24%. A Bolsa de Moscovo quebrou 16% desde o início de dezembro e mais de 43% desde o início do ano. O Banco Central da Rússia já se viu obrigado a encarecer sucessivamente o custo do dinheiro, realizando cinco mexidas na taxa diretora de juros desde fevereiro, subindo-a 500 pontos base, de 5,5% para 10,5%, depois da decisão tomada a 11 de dezembro. O primeiro-ministro russo Dmitry Medvedev avisou que a derrocada do rublo é prejudicial "em sentido estratégico".

A guerra de preços no mercado do crude provocou, na Europa, uma outra vítima, a Noruega, cuja coroa já desvalorizou quase 8% face ao euro e ao dólar desde o início do mês. O Banco Central da Noruega viu-se obrigado esta semana a descer a taxa diretora de 1,5% para 1,25%, embaratecendo em 25 pontos base o custo do dinheiro.

Os analistas viram confirmadas as piores previsões sobre o recurso dos bancos da zona euro ao segundo leilão da linha de refinanciamento de longo prazo conhecida pelo acrónimo TLTRO realizado pelo Banco Central Europeu (BCE). Nas duas operações realizadas, em setembro e agora a 11 de dezembro, os bancos licitaram pouco mais de metade dos 400 milhões de euros disponíveis. Ignazio Angeloni, membro da comissão de supervisão do BCE admitiu, em Roma, que o buraco de 25 mil milhões de euros, identificado nos testes de esforço divulgados em outubro, é apenas "o topo do icebergue".

A próxima semana tem na agenda três eventos marcantes. Em Atenas, no Parlamento, a 17 de dezembro, decorre a primeira volta das presidenciais. No mesmo dia, reúne o comité monetário da Reserva Federal norte-americana (FED); a semântica do comunicado e das declarações da sua presidente Janet Yellen será escrutinada, com os investidores a tentarem perceber quando a FED poderá iniciar as subidas da taxa diretora de juros. No dia anterior, reúne-se em Bruxelas o Conselho Europeu.