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FMI erra no cálculo do "multiplicador" da austeridade

O Fundo Monetário Internacional (FMI) revelou ontem, em Tóquio, que o "multiplicador" para o efeito recessivo no PIB por parte das políticas de ajustamento orçamental é muito superior ao que os governos usam. A revisão das metas em Portugal deveu-se à "correção" desse erro de origem.

Jorge Nascimento Rodrigues (www.expresso.pt)

Uma das razões para a revisão em baixa das previsões de crescimento nos países desenvolvidos em 2012 e 2013, realizada pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) esta semana, em Tóquio, deveu-se à avaliação dos efeitos recessivos das políticas de austeridade.

O efeito "multiplicador" delas é muito superior - muito mais "amplo", no dizer do FMI - ao que estimam os governos envolvidos em tais políticas e as entidades internacionais que deram luz verde aos planos de resgate (troika). Os governos consideram implicitamente, regra geral, um efeito recessivo de 0,5, quando, segundo os estudos do FMI agora divulgador no "World Economic Outlook" (WEO), o multiplicador move-se, provavelmente, num intervalo entre 0,9 e 1,7.

FMI penitencia-se

"A investigação da equipa do FMI sugere que os cortes orçamentais tiveram efeitos multiplicadores de curto prazo no produto maiores do que se esperava", lê-se na página 1 do WEO. A explicação mais detalhada encontra-se, depois, numa caixa, nas páginas 41 a 43 ("Caixa 1.1: "Estaremos a subestimar os multiplicadores orçamentais de curto prazo?"), que é da autoria de Olivier Blanchard, conselheiro económico do FMI e Daniel Leigh. A conclusão de que houve uma "subestimação" do efeito é tirada a partir do estudo de 28 economias desenvolvidas.

Ou seja, por cada euro "poupado" com o ajustamento orçamental, o efeito recessivo no PIB varia entre 90 cêntimos a 1,7 euros (muito acima da unidade) e não de 50 cêntimos, como se julgava. Enfim, a quebra no PIB no decurso desta Grande Recessão é muito superior às previsões. A espiral recessiva é muito mais ampla.

A entidade que mais errou foi o FMI e depois a Comissão Europeia (CE). Por cada 1% do PIB em ajustamento orçamental (austeridade), o FMI subestimou 1 ponto percentual no efeito negativo e a CE 0,8. O erro de subestimação na previsão do desemprego foi na ordem de 0,5 pontos percentuais por cada 1% do PIB em cortes. E no investimento foi arrasador, na ordem de uma quebra de 2 pontos percentuais mais por cada 1% de PIB de corte orçamental.

Este disparo do efeito multiplicador recessivo das políticas de austeridade deve-se, explica o FMI, ao contexto atual de Grande Recessão e crise financeira, em que o crescimento é "frouxo", a margem de atuação da política monetária pelos bancos centrais está no limite (com taxas de juro de referência já perto de 0%) e os países resolveram proceder a ajustamentos simultâneos, ampliando o efeito negativo das políticas de austeridade.

Portugal foi um exemplo claro

Segundo Olivier Blanchard, o conselheiro económico do Fundo, e que assina o Prólogo do WEO agora divulgado, foi o reconhecimento expresso deste facto, de que o efeito recessivo da austeridade é muito superior, que levou à revisão das metas nominais do défice orçamental no caso português e à extensão do seu plano de ajustamento. "Temos de estar prontos para ajustar as metas já que os multiplicadores orçamentais são muito amplos", disse Blanchard em Tóquio.

Posteriormente, Christine Lagarde, a diretora-geral do FMI, diria, em conferência de imprensa no dia seguinte, estar em total sintonia com Olivier Blanchard e sublinhou dois pontos que adveem do reconhecimento deste erro:

-  o tempo é essêncial; é preferível por vezes ter mais tempo para os ajustamentos, e sobretudo quando há vários países em simultâneo a realizá-los no caso da zona euro; por isso o FMI sugeriu a extensão do programa em Portugal (mais um ano) que veio a ser acordado após a quinta revisão do programa pela troika e propõe a extensão do programa grego até o final de 2016 (mais dois anos), o que ainda está em discussão;

- não é um aspeto sensível agarrar-se às metas nominais desses programas de ajustamento; é mais apropriado aplicar as medidas e deixar os estabilizadores automáticos atuar.