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FMI aponta "risco grego", juros da dívida disparam

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Com o risco grego a surgir nos documentos do Fundo Monetário Internacional e face a expetativas baixas de acordo na reunião do Eurogrupo de 24 de abril, os juros das obrigações gregas a 2 anos subiram para perto de 24% e a 10 anos superaram a barreira dos 12%. S&P cortou rating para nível de risco substancial.

O Fundo Monetário Internacional incluiu esta quarta-feira o risco grego na sua análise de riscos financeiros publicada no "Global Financial Stability Report", um dos documentos chave da organização dirigida por Christine Lagarde. No dia anterior tinha sido a vez do economista-chefe do Fundo, Olivier Blanchard, referir a Grécia como um risco político e geopolítico "óbvio" que poderá "muito bem perturbar os mercados financeiros".

Ao mesmo tempo, as expetativas de um acordo na reunião do Eurogrupo em Riga a 24 de abril são baixas. Poul Thomsen, diretor do Departamento Europeu do FMI, teria referido na reunião do conselho executivo na segunda-feira, que um tal acordo não seria possível na reunião de Riga e essa perspetiva passou a marcar a opinião dos analistas. A porta-voz do Ministério das Finanças alemão confirmou esta quarta-feira em Berlim que ninguém espera uma conclusão das negociações com a Grécia na próxima reunião dos ministros das Finanças do euro.

O jornal alemão "Die Zeit", sem citar fontes, refere esta quarta-feira que o governo em Berlim estaria a trabalhar "num plano em que a Grécia poderia entrar em default dentro da zona euro", prevendo uma injeção de fundos adicionais pelo Banco Central Europeu (BCE) "desde que o país continuasse com as reformas necessárias". Caso Atenas, mesmo assim, não cumprisse, o "governo alemão poderia aceitar, então, uma saída da Grécia do euro, mas, mesmo nestas circunstâncias, o país receberia fundos de Bruxelas até que a transição para uma moeda nacional estivesse completa", escreve-se no jornal de Hamburgo. 

O governo grego desmentiu, entretanto, o jornal "Financial Times" que avançara no início da semana que Atenas estaria a preparar um default em relação às responsabilidades face ao FMI em maio, mês em que tem de passar dois cheques a Lagarde, um de 200 milhões de euros de juros no primeiro de maio e outro de 763 milhões de euros a 12 de maio.

O mercado secundário da dívida soberana reagiu a este acumulado de informação negativa sobre o curso das negociações entre Atenas e os credores oficiais, apesar de Mario Draghi, o presidente do BCE, ter esta quarta-feira reafirmado que a linha de emergência de liquidez para a banca grega continua aberta "enquanto [os bancos] foram solventes com colateral adequado". As yields das obrigações gregas no médio e longo prazo dispararam. A 2 anos as yields da dívida subiram esta quarta-feira para 23,88% e a 10 anos superaram a barreira dos 12%, fechando em 12,13%. O custo de segurar a dívida a 5 anos contra uma bancarrota subiu esta quarta-feira para mais de 3000 pontos base, o que aproxima a situação grega dos outros membros do "clube", a Venezuela, a Ucrânia e o Paquistão.

O Tesouro grego vai refinanciar na sexta-feira mil milhões de euros em Bilhetes do Tesouro (BT), tendo hoje colocado 812,5 milhões de euros em BT a 3 meses. Na sexta-feira e no domingo tem de passar cheques relativos a juros de obrigações num montante de 273,6 milhões de euros.

Já depois do fecho dos mercados financeiros na Europa, a agência Standard & Poor's cortou o rating da dívida de longo prazo da Grécia para o terreno de risco substancial, de dívida extremamente especulativa, reduzindo a notação de B- para CCC+ com perspetiva negativa. A Moody's, que classifica a Grécia em Caa1 (equivalente a CCC+), tem a dívida grega em revisão desde 6 de fevereiro e a Fitch cortou o rating para CCC (a pior notação atribuída pelas três agências) em 27 de março.

O panorama negro para a dívida grega contrastou com a fixação de novos mínimos históricos no mercado secundário nas yields das obrigações alemãs, francesas e irlandesas no prazo de referência, a 10 anos.

O âmbito da dívida obrigacionista com yields negativas ampliou-se esta quarta-feira, com a inclusão do prazo a 8 anos para a dívida alemã, a 7 anos para a dívida austríaca e a 5 anos para a dívida francesa. Sete economias emissoras de dívida soberana da zona euro registam yields negativas em diversos prazos - Alemanha, Áustria, Bélgica, Finlândia, França, Holanda e Irlanda (esta última em dívida de 12 meses a 3 anos).

No prazo a 10 anos, as yields desceram para as obrigações dos periféricos, com exceção da Grécia. No caso das Obrigações do Tesouro português fecharam em 1,71%, sete pontos base menos do que na terça-feira.