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Dívida

Espanha coloca 4800 milhões, mas paga juros mais altos a três anos

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O Tesouro Público espanhol, numa operação no mercado primário, muito aguardada, emitiu 4,8 mil milhões em dívida a três e a dez anos Foi a segunda colocação esta semana. E pagou juros mais baixos do que em operações anteriores similares a dez anos, mas mais altos a três anos.  

Jorge Nascimento Rodrigues (www.expresso.pt)

O Tesouro Público espanhol, numa operação muito aguardada, colocou 4,8 mil milhões de euros em duas emissões de dívida, uma a 3 anos e outra a 10 anos. O máximo previsto era de 4,5 mil milhões.

Ao todo, esta semana, em quatro operações - a 12 e a 18 meses, no dia 18 de setembro, e a 3 e a 10 anos, hoje - arrecadou mais de 9,3 mil milhões de euros.

Mas o resultado foi "misto" em termos de taxas de remuneração média pagas, o que aponta para a necessidade de uma análise cuidadosa do que se passa em Espanha.

Na operação de mais longo prazo, o Tesouro espanhol colocou 858,68 milhões pagando uma taxa de remuneração média de 5,666%, mais baixo do que na operação anterior em agosto, em que pagou 6,647%. No entanto, é de referir que nesta operação de longo prazo arrecadou menos do que os 1062 milhões de euros que emitiu em operação anterior similar.

Na operação de emissão a três anos, o Tesouro arrecadou 3940 milhões de euros pagando uma taxa média de 3,845%, mais elevada do que na operação similar anterior, quando pagou 2,789%. Neste caso, o montante foi mais do triplo do arrecadado em emissão anterior similar, mas pagou mais. O que revela a focalização dos investidores nas emissões de prazo menor, susceptíveis de estar no intervalo referido pelo Banco Central Europeu para a sua intervenção no mercado secundário no âmbito do programa de compras de títulos OMT.

Foi a segunda operação do Tesouro esta semana. No dia 18 de setembro, ocorreu uma emissão de letras do Tesouro a 12 e a 18 meses tendo colocado cerca de 4580 milhões de euros com juros mais baixos do que nas operações anteriores similares - 2,835% contra 3,557% no primeiro prazo, e 3,0728% contra 3,335%, no segundo prazo. Os analistas, em Espanha, sublinham que os tomadores de dívida nestas emissões no mercado primário continuam a considerar que o Banco Central Europeu acabará, mais tarde, por intervir no mercado secundário adquirindo dívida ao abrigo do programa OMT ou aceitar tais títulos como colateral para refinanciamento bancário a juros de 0,75%, pelo que dispor de obrigações espanholas no portefólio surge como um bom investimento na atual conjuntura.

A operação do Tesouro espanhol contrasta hoje com as emissões levadas a cabo pela Agência do Tesouro francês que colocou dívida a dois, quatro e cinco anos num montante de 7965 milhões de euros pagando taxas de remuneração abaixo de 1%. No caso da emissão a dois anos, a agência francesa paga 0,2%.

Risco e juros da dívida espanhola com volatilidade

Espanha saiu ontem ao final da tarde do "clube" dos 10 países com maior probabilidade de incumprimento da dívida. Madrid tem visto o país sair e reentrar no "clube" desde 6 de setembro. As yields das obrigações espanholas desceram ontem no mercado secundário em todos os prazos. No entanto, hoje, reabriram em alta. Mas depois da operação de colocação de dívida, a subida abrandou ou inclusive já se inverteu (como no caso do prazo a dois anos).

A agência de notação de crédito Standard & Poor's poupou, esta semana, Espanha a um corte de rating para o nível especulativo (vulgo, lixo financeiro) "no curto prazo", mas os mercados da dívida começam a manifestar "fadiga" da tática de "adiamento" de Mariano Rajoy, chefe do governo espanhol, agora apoiada, por razões de política doméstica, por Ângela Merkel, chanceler alemã, e pelo seu ministro das Finanças, Wolfgang Schauble.

Rajoy não admite publicamente o recurso a um plano de resgate global nem mesmo a uma "linha de crédito preventiva". A discussão na reunião informal do Eurogrupo (17 ministros das Finanças) do fim da semana passada foi inconclusiva. A ideia é empatar a situação até à apresentação a 27 de setembro de um plano nacional de reformas. A próxima reunião crítica do Eurogrupo só decorre a 8 de outubro e a cimeira europeia começa a 18 de outubro.

Na frente política interna, o executivo espanhol defronta uma estratégia de exigência de maior "autonomia" por parte da Catalunha. Mariano Rajoy, chefe do governo espanhol, reúne hoje com Artur Mas, presidente da Generalitat da Catalunha. Artur Mas reclama, para já, um estatuto fiscal de maior autonomia similar ao do País Basco e de Navarra. O rei Juan Carlos publicou uma carta aberta contra o "divisionismo", mas as manifestações massivas na Catalunha pela independência já levaram a Generalitat a falar da necessidade de "construir estruturas de Estado". Já se discute inclusive se, no futuro, o Futebol Clube de Barcelona deverá continuar a participar na Liga espanhola.

Rajoy tem na agenda interna eleições autonómicas a 21 de outubro na Galiza (sua região natal) e no País Basco e Artur Mas já admitiu poder convocar eleições para novembro na Catalunha.

 

Na emissão de bilhetes do Tesouro a 18 meses lançada ontem pelo IGCP, a agência portuguesa que gere a dívida soberana, foram colocados 1,29 mil milhões de euros pagando aos investidores uma taxa de remuneração de 2,967%, inferior aos 4,537% pagos em operação similar anterior.

No entanto, o Tesouro Público espanhol pagou numa emissão de letras a 18 meses esta semana uma taxa de remuneração de 3,0728%.

Símbolo da fragmentação na zona euro, o Tesouro alemão colocou, também esta semana, dívida a dois anos num montante de pouco mais de 4 mil milhões pagando um juro de 0,06%. Apesar de próximo de zero, o Tesouro alemão já teve de pagar um juro positivo em termos nominais. O financiamento de borla, pagando juros negativos, como na operação anterior similar de 16 de julho, já não se verificou.