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Crise política em Atenas faz disparar juros da dívida grega

Getty

Os juros da dívida grega a médio e longo prazo registam valores entre 9 e 10%. O risco de bancarrota subiu para 58%. Contágio aos periféricos é desigual. Juros da dívida portuguesa à beira de 3%.

A crise política grega gerada pela convocação no início desta semana de eleições presidenciais antecipadas para a próxima quarta-feira (17 de dezembro) continua a provocar um rombo na Bolsa de Atenas e um disparo no custo da dívida soberana no mercado secundário.

O efeito de contágio no mercado da dívida não atinge a Irlanda e é desigual nos restantes periféricos do euro, com uma subida mais acentuada para o caso das yields das Obrigações do Tesouro português que, no prazo a 10 anos, fecharam esta quinta-feira muito próximo de 3%, tendo chegado a registar no início da sessão 2,995%.

As yields das obrigações gregas no prazo a 3 anos subiram no mercado secundário para 10,6%, são as mais elevadas na dívida obrigacionista helénica. No prazo a cinco anos subiram para 9,7% e na maturidade de referência, a 10 anos, fecharam em 9,1%. Desde que o governo grego anunciou a antecipação das eleições presidenciais, as yields das obrigações gregas a 10 anos já dispararam 83 pontos base (o equivalente a 0,83 pontos percentuais). O custo dos credit default swaps (CDS) que seguram a dívida grega subiram para 1080,45 pontos base, um nível que implica já uma probabilidade de incumprimento da dívida na ordem dos 58%. No final do primeiro semestre, o preço dos CDS estava em menos de 500 pontos base. O retorno da dívida obrigacionista grega (englobando todos os prazos) nas últimas 52 semanas caiu a pique, de 22,66% (o mais elevado na zona euro) a 5 de dezembro para 5,9% esta quinta-feira, segundo o indicador da Bloomberg.

Desde o início da crise política grega, as yields das obrigações no prazo de referência subiram 83 pontos base para as gregas, 23 pontos base para as portuguesas, nove pontos base para as italianas e sete pontos base para as espanholas.

 

Exceção irlandesa A Irlanda parece estar blindada ao contágio, com as yields das obrigações a 10 anos a reduzirem-se em sete pontos base desde o início da crise grega, descendo para um novo mínimo histórico de 1,32% no fecho desta quinta-feira.

Nas duas economias principais do "centro", a crise grega acentuou a descida das yields dessas obrigações encaradas como refúgio, com as yields das obrigações francesas a fixarem esta quarta-feira um novo mínimo histórico de 0,95% e as yields das obrigações alemãs a manterem-se no mínimo histórico de 0,68%.

Na Bolsa de Atenas continuou a derrocada com uma queda de 7,35% na sessão de hoje. Durante a semana a capitalização bolsista já caiu quase 20% e desde o início do ano a quebra do índice ASE soma 28,8%, uma queda maior do que a do índice PSI 20 da Bolsa de Lisboa.

Os investidores continuam, no entanto, esperançados que o Banco Central Europeu avance no primeiro trimestre de 2015 com um programa de estímulos monetários ainda mais agressivo, incluindo a própria compra de dívida soberana dos membros do euro, face à fraca participação dos bancos nos dois leilões da linha de refinanciamento de longo prazo TLTRO. O segundo leilão realizado esta quinta-feira teve maior participação de entidades e um volume de solicitação muito mais elevado do que em setembro, mas nas duas operações o total ficou a pouco mais de metade dos 400 mil milhões de euros que poderiam ser licitados em 2014. A expetativa de novas medidas a anunciar pelo BCE contrabalança nos periféricos o efeito da crise grega.

À crise grega juntou-se a continuação da derrocada do preço do barril de petróleo. Na variedade norte-americana WTI negociada em Nova Iorque, o preço do barril desceu abaixo dos 60 dólares, cotando-se em 59,03 dólares pelas 22h30. O preço do barril de  Brent negociado em Londres caiu esta quinta-feira para 63,24 dólares, pelas 22h30. O preço do barril já desceu 45% desde o pico em junho acima de 115 dólares. O crude está a vender-se a preços de maio de 2009.

A queda do preço do barril obrigou o Banco Central da Noruega, um país exportador de crude, a proceder, inesperadamente, a uma redução do custo do dinheiro com um corte de 25 pontos na taxa diretora de juros, que desceu de 1,5% para 1,25%.

O Banco Central da Rússia protagonizou esta quinta-feira um outro movimento no custo do dinheiro motivado pela guerra de preços no mercado internacional do crude e pelo seu impacto na economia russa que vive uma situação de quase estagflação (crescimento económico estimado em 0,6% com inflação anual em 9,4%, quase o dobro da meta oficial de 5% fixada pelo Banco Central). No caso russo, tratou-se de encarecer o custo do dinheiro, com a taxa diretora de juros do banco central a subir 100 pontos base, de 9,5%, que havia sido fixada a 5 de novembro, para 10,5%.

Desde o início do ano, o banco central russo procedeu a seis mexidas na taxa diretora, cortando 550 pontos base (equivalente a 5,5 pontos percentuais). No segundo semestre, já cortou a taxa diretora em 400 pontos base. O rublo está em derrocada, com uma desvalorização desde o início do ano superior a 50% face ao euro. A moeda única europeia atingiu esta quinta-feira no mercado cambial um máximo de 69,97 rublos. O primeiro-ministro Dmitry Medvedev avisou, esta semana, que uma desvalorização significativa do rublo é prejudicial "em sentido estratégico".

O banco central russo estima que a fuga de capitais atinja este ano 128 mil milhões de dólares e prevê que este ritmo abrandará muito pouco em 2015. Para o próximo ano, a governadora do banco central Elvira Nabiullina, citada esta quinta-feira pela agência de notícias RIA, projeta um nível de fuga de 120 mil milhões de dólares, o que representará mais do dobro do excedente externo de 56 mil milhões de dólares previsto para o próximo ano.