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Crise grega contagia sobretudo dívida portuguesa

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Juros da dívida grega continuam escalada no mercado secundário. Prémio de risco grego regressa a níveis de dezembro de 2012. Juros das Obrigações do Tesouro português sobem para 2,13%.

As yields das Obrigações do Tesouro português (OT) a 10 anos fecharam em 2,13% no mercado secundário da dívida soberana. Subiram 12 pontos base em relação ao fecho de segunda-feira e 10 pontos base em relação ao fecho de sexta-feira passada. A subida desta segunda-feira foi próxima do aumento verificado nas yields das obrigações gregas na mesma maturidade que fecharam em 13,59%, registando 14 pontos base acima do fecho de segunda-feira e 26 pontos base acima do fecho de sexta-feira passada.

O contágio do disparo das yields gregas, que subiram esta terça-feira para 30,05% a 2 anos, 20,21% a 5 anos e 13,59% a 10 anos, é visível no caso das OT a 5 e 10 anos, ainda que limitado e mantendo as yields em níveis historicamente baixos. Recorde-se que, a 10 anos, as yields das OT desceram para um mínimo histórico de 1,51% em 14 de março.

No caso das obrigações espanholas e italianas a 10 anos, depois de um efeito de subida na quinta e sexta-feira passadas, as yields desceram nas duas primeiras sessões desta semana. Fecharam em 1,47% nos dois casos, uma descida de 2 pontos base nas obrigações espanholas e 3 pontos base nas obrigações italianas em relação ao fecho da semana passada.

 

Irlanda em outro "campeonato"

As yields da dívida irlandesa naquela maturidade subiram 3 pontos base desde sexta-feira, mas encontram-se já num "campeonato" diferente, tendo fechado em 0,73%. Nos prazos a 2 e 3 anos, registam yields negativas e a 5 anos fecharam em 0,21% face a 1,07% para as OT, 0,64% para as obrigações espanholas e 0,666% para as obrigações italianas.

O prémio de risco da dívida portuguesa regressou esta terça-feira a um patamar acima de 200 pontos base, tendo fechado em 202 pontos base (o equivalente a um diferencial de 2,02 pontos percentuais em relação à dívida alemã a 10 anos), um nível não registado desde meados de fevereiro deste ano.

A dívida espanhola fechou esta terça-feira com um prémio de risco de 137 pontos base, similar ao registado para a dívida italiana. No caso da dívida irlandesa, o prémio de risco situa-se em 62 pontos base, menos de metade do espanhol e do italiano, e menos de 1/3 do português.

Entretanto, o Banco Central Europeu (BCE) divulgou o resultado do programa de compra de dívida pública da zona euro no mercado secundário que já ascendeu, até 17 de abril, a 73,29 mil milhões de euros, cerca de 11,6 mil milhões mais do que a 10 de março. Esta terça-feira, pela primeira vez, a taxa Euribor a 3 meses registou um valor negativo, o que significa que, no mercado interbancário da zona euro, o bancos pagam uns aos outros para pedir emprestado naquele prazo. O efeito da política de compras do BCE no custo de financiamento das economias do centro da zona euro continua a deixar uma marca na ampliação do "clube" das yields negativas registadas na dívida obrigacionista: na Alemanha no prazo até 8 anos, na Áustria, Holanda e Finlândia até 6 anos, na Bélgica até 5 anos, em França até 4 anos e na Irlanda até 3 anos.

Mario Draghi, o presidente do BCE, referiu em Washington DC, no fim-de-semana passado, que, para contrabalançar os efeitos de um contágio grego, os membros da zona euro dispõem do programa OMT (anunciado no verão de 2012, mas nunca requerido por nenhum país) e do recente programa de compra de dívida pública iniciado a 9 de março.

 

Disparo do risco de bancarrota grega

No caso da dívida grega, o prémio de risco subiu para 1349 pontos base, um aumento de 502 pontos base desde 26 de janeiro (segunda-feira subsequente à vitória do Syriza nas eleições legislativas antecipadas).

O custo de segurar a dívida grega a 5 anos  contra um incumprimento - também conhecido tecnicamente como preço dos credit default swaps (cds, no acrónimo) - subiu esta terça-feira para 3914,53 pontos base, segundo a S&P Capital IQ. Na sexta-feira passada registava 3554,15.

O nível atingido coloca a Grécia muito perto da probabilidade de bancarrota estimada para a Venezuela e a Ucrânia, que lideram o "clube" mundial. A Argentina já está fora, por ser considerado que está em default seletivo desde agosto de 2014.

A bolsa de Atenas fechou esta terça-feira no vermelho, com o índice geral a cair 3,33%. Desde o início de abril, a desvalorização bolsista atingiu 5,33% e desde 1 de janeiro a queda do índice é de 14,8%.

 

Falhar pagamentos permanecendo no euro

Têm-se multiplicado as declarações no sentido de que a Grécia poderá incorrer em algum evento de crédito, por acidente nas negociações em curso entre o governo e os credores oficiais ou por opção, nos próximos meses, sem que tenha de sair automaticamente da zona euro (o que tem sido designado por Grexit).

As declarações na segunda-feira do vice-presidente do BCE, Vitor Constâncio, no Comité de Assuntos Económicos e Monetários do Parlamento Europeu, vão nesse sentido: "A legislação não permite que um país que entre em incumprimento (...) seja expelido do euro". O próprio recurso a controlo de capitais, como aconteceu em Chipre no âmbito do resgate, "não implica saída do euro", disse o português na sequência da apresentação do Relatório Anual de 2014 do BCE. Para alguns analistas, numa situação temporária, poderá haver inclusive a emissão pelo governo grego, sobretudo para pagamentos domésticos, de promissórias com curso paralelo ao euro.

Ainda que se multipliquem declarações dos credores oficiais de que a Grécia se manterá no euro, de que não há mecanismo automático para a "expelir", a admissão que um incumprimento de dívida externa poderá ocorrer nos próximos meses, ou que Atenas poderá atrasar durante três meses os pagamentos ao Fundo Monetário Internacional (FMI), sem que a organização chefiada por Christine Lagarde o anuncie publicamente (como sublinha esta terça-feira David Powell na Bloomberg), está a alimentar o disparo do custo dos cds e das yields no mercado secundário. Acresce que as regras do BCE não permitem o reescalonamento ou um hair cut da dívida soberana de países membros do euro que o banco central tenha em carteira (como é o caso da dívida obrigacionista comprada no mercado secundário ao abrigo do programa SMP que vigorou entre 2010 e 2012). No caso da Grécia, vencem amortizações e juros de obrigações em julho e agosto que estão em carteira no BCE.

Tomando em linha de conta a linha vermelha de 30 de junho que marca o final da extensão do programa de resgate europeu, o Tesouro grego tem 11,07 mil milhões de euros em pagamentos de tranches e juros ao FMI (cerca de 3 mil milhões de euros), em refinanciamentos de Bilhetes do Tesouro (8 mil milhões de euros) em circunstâncias em que os bancos locais e as sucursais no estrangeiro estão cada vez mais apertadas pelo BCE para não ocorrerem às emissões de dívida de curto prazo da Agência do Tesouro helénico, e marginalmente em juros de obrigações.

David Powell, na Bloomberg, pressupondo um acordo pragmático de última hora, contabiliza a libertação de 1,8 mil milhões de euros da última tranche do Fundo Europeu de Estabilidade Financeira, de 1,9 mil milhões de euros dos juros de 2014 da carteira de obrigações gregas detidas pelo sistema de bancos centrais da zona euro, e das tranches seguintes do FMI previstas até final de fevereiro de 2015 num total de 10,7 mil milhões de euros. Ao todo, em pipeline, à espera, um montante de 12,5 mil milhões de euros, pendente de acordo.

 

Centralização de recursos em conta especial no Banco da Grécia

Como almofada de emergência, o ministério das Finanças decidiu segunda-feira à noite, através de um decreto promulgado pelo Presidente da República, sem ter ido ao Parlamento, obrigar à transferência dos ativos de capital existente em 1500 entidades públicas para uma conta especial do Banco Central da Grécia, permitindo a sua gestão unificada, seguindo decisões similares tomadas na Holanda, Portugal e Reino Unido. Ficaram isentos, por ora, dessas transferências os fundos da segurança social e o sector empresarial do Estado, bem como os recursos necessários para gastos nas duas próximas semanas. O ministro-adjunto das Finanças Dimitris Mardas referriu numa tumultuosa reunião da União de Autarquias, realizada esta terça-feira, que os depósitos no banco central teriam uma taxa de remuneração de 2,5%.

Os cálculos sobre o montante desta transferência diferem. A Bloomberg referiu 2 mil milhões de euros. A maioria dos jornais gregos apontou para 3,5 mil milhões de euros. O site grego enikonomia aponta para uma subida das reservas à disposição da Tesouraria Geral de 1,8 mil milhões para 12,6 mil milhões. Em caso de emergência extrema, o ministério das Finanças poderá decidir estender a medida ao sector empresarial do Estado, refere o site enikos.

O calendário desta semana está cheio. Amanhã reúne em teleconferência o Grupo de Trabalho do Euro para analisar o andamento das negociações entre a Grécia os credores oficiais. Na quinta-feira, o primeiro-ministro grego Alexis Tsipras reunirá com a chanceler alemã Angela Merkel à margem da cimeira europeia extraordinária e na sexta-feira decorrerá o Eurogrupo (órgão dos ministros das Finanças da zona euro) em Riga.