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Crise grega contagia dívida portuguesa. Juros em 2%

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O disparo nos juros da dívida grega arrastou uma subida dos juros das obrigações portuguesas, espanholas e italianas. "Clube" dos juros negativos na zona euro ampliou-se.

O custo de financiamento da dívida portuguesa a 10 anos regressou, esta semana, a 2% no mercado secundário, o que já não se verificava desde o final de fevereiro. Os analistas falam de um contágio da crise grega incidindo sobre três dos periféricos - Portugal, Itália e Espanha - ainda que os níveis das yields das obrigações nestes três países continuem historicamente muito baixos e sem qualquer comparação com o disparo no caso grego.

A crise grega agravou-se esta semana, com a multiplicação de referências à probabilidade de um incumprimento seletivo da dívida soberana em maio quando o Tesouro helénico terá de pagar 963 milhões de euros ao Fundo Monetário Internacional  (FMI) em amortizações e juros e refinanciar 2,8 mil milhões de euros em Bilhetes do Tesouro (dívida de curto prazo).

Atenas vai enfrentar essa situação com os cofres depauperados e as limitações colocadas pelo Banco Central Europeu (BCE) à participação da banca grega - incluindo as sucursais no estrangeiro - nas emissões de dívida.

Recorde-se, ainda, que o FMI, nos seus documentos da primavera apresentados esta semana no âmbito da sua reunião em Washington DC, mencionou o "risco grego" explicitamente. Ainda esta sexta-feira, o ministro das Finanças britânico, George Osborne, avisou, à margem da reunião do G20, que a crise grega poderá fazer regressar a economia europeia "ao tipo de situação perigosa de há três ou quatro anos". O tema da Grécia não foi discutido formalmente no encontro do G20 em Washington DC, mas pairou nas precocupções dos lideres.

A Reuters adiantou esta sexta-feira que o grupo de análise de "cenários adversos" do BCE terá apreciado a possibilidade de Atenas avançar para o pagamento dos funcionários públicos em promissórias, como moeda paralela ao euro, no caso da crise de caixa se agravar.

 

Disparo nos juros da dívida grega

A incerteza política sobre o desfecho da crise helénica gerou um disparo nas yields das obrigações gregas no mercado secundário e uma primeira vaga de contágio na dívida portuguesa, espanhola e italiana. A sincronia foi particularmente visível nas sessões de quinta e sexta-feira.

As yields das obrigações gregas a 10 anos subiram no mercado secundário cerca de 1,7 pontos percentuais desde 10 de abril, fechando esta sexta-feira em 12,85%, segundo dados da Investing.com para as 20h. A 2 anos fecharam em 27,14% e a 5 anos em 18,66%.

O custo de segurar a dívida grega a 5 anos contra uma bancarrota subiu de 2636,41 pontos base a 10 de abril para 3554,15 pontos base a 17 de abril, o que coloca a Grécia no "clube" das economias com mais elevada probabilidade de entrar em default, juntamente com a Venezuela e a Ucrânia. Em termos de comparação, o preço para esse seguro, no caso português, é de 193 pontos base.

 

Juros das Obrigações do Tesouro a 10 anos em 2%

O disparo de 169 pontos base das yields das obrigações gregas no prazo a 10 anos durante a semana arrastou uma subida de 39 pontos base para as yields das Obrigações do Tesouro português (OT), de 27 pontos base para as yields das obrigações italianas e de 25 pontos base para as yields das obrigações espanholas.

No caso das OT naquela maturidade, as yields fecharam esta sexta-feira em 2%, um nível que já não se verificava desde fevereiro. Recorde-se que, a 14 de janeiro, as yields das OT no prazo a 10 anos atingiram um mínimo histórico de 1,51%.

No prazo a 5 anos, as yields das OT subiram de 0,746% para 0,998% no mesmo período. No prazo a 2 anos, a amplitude das variações diárias das yields é muito significativa. Fecharam hoje em 0,097%, depois de terem subido durante a sessão até 0,393%. Há uma semana haviam fechado em 0,015%.

 

Clube dos juros negativos vale €1,85 biliões

Outro dos traços dos últimos meses é a ampliação gradual das obrigações de economia da zona euro com juros negativos na dívida obrigacionista, fruto do anúncio e depois da implementação desde 9 de março do programa de compra de dívida soberana da zona euro (e de entidades supranacionais europeias) entre os 2 e os 30 anos pelo BCE.

O leque de obrigações que registaram yields negativas nos valores de fecho ampliou-se esta semana. No caso da Alemanha, as yields negativas abrangem a dívida até aos 8 anos; no caso da Áustria até aos 7 anos; no caso da Finlândia e da Holanda até aos 6 anos; e nos casos da Bélgica e da França até aos 5 anos. A Irlanda regista yields negativas nas obrigações a 2 e 3 anos, destacando-se, claramente, do padrão dos periféricos. Segundo o analista norte-americano Marc Chandler, cerca de 1,85 biliões de euros de dívida obrigacionista da zona euro regista yields negativas. Só no caso da Alemanha, mais de 740 mil milhões de euros em obrigações registam yields negativas.

Esta semana, o preço do barril de Brent subiu 10% em dólares e 5,6% em euros. Subiu entre 10 e 17 de abril de 57,95 dólares para 63,83 dólares (no contravalor em euros, de 55,81 euros para 58,99 euros, segundo o site finanzen.ch). O preço mais baixo este ano do barril de Brent verificou-se a 13 de janeiro, registando 49,17 dólares. O FMI aponta para um preço médio anual de 58,14 dólares em 2015. No ano anterior foi de 96,25 dólares.

No mesmo período, o euro valorizou-se 2% em relação ao dólar.

 

Reuniões do Grupo de Bruxelas retomadas sábado

No final da próxima semana realizar-se-á em Riga a reunião informal do Eurogrupo (órgão dos ministros das Finanças dos membros da zona euro) que se debruçará sobre a questão grega. As probabilidades de um acordo na capital de Letónia são baixas.

No entanto, o designado grupo de Bruxelas, formado pelo governo de Atenas e por representantes do BCE, FMI, Comissão Europeia e Mecanismo Europeu de Estabilidade, reúne este sábado em Paris, na delegação da Grécia na OCDE, para prosseguir as discussões técnicas sobre a lista de medidas de reformas apresentada pelo ministro das Finanças Yanis Varoufakis.

Apesar das dificuldades, o Tesouro grego refinanciou esta semana 2400 milhões de euros em Bilhetes do Tesouro e terá pago juros a detentores de obrigações num montante superior a 206 milhões de euros.