Siga-nos

Perfil

Economia

Dívida

Contágio grego nas bolsas e nos juros da dívida

Juros da dívida a 10 anos sobem nos periféricos, crash bolsista em Atenas, índice de pânico financeiro sobe na Europa e bolsa de Xangai treme. Risco político na Grécia e medo de restrições ao crédito na China.

O risco político grego dominou esta terça-feira os mercados financeiros na Europa. As yields da dívida grega no prazo de referência, a 10 anos, dispararam 84 pontos base no mercado secundário, regressando a um nível acima de 8%. Foi o segundo disparo deste ano, depois da escalada de 98 pontos base em 16 de outubro (então, as yields subiram de 7,94% para 8,92%), o dia do pico do segundo surto de pânico financeiro internacional de 2014.

O prémio de risco da dívida grega em relação à alemã subiu 47 pontos base, para quase 750 pontos base. O custo dos credit default swaps, que seguram contra o risco de incumprimento da dívida soberana, subiram acima de 823 pontos base, o que coloca a probabilidade de bancarrota acima de 45%.

As yields das Obrigações do Tesouro português naquela maturidade subiram 11 pontos base, a segunda maior subida na zona euro, fechando em 2,84%, e o prémio de risco da dívida portuguesa subiu 15 pontos base, fechando em 216 pontos base. Seguiram-se aumentos inferiores, de seis pontos base para as yields das obrigações italianas, cinco pontos base para o caso espanhol e dois pontos base para o caso irlandês, no prazo de referência. Em contraste, as yields das obrigações alemãs desceram para um novo mínimo histórico, fechando em 0,69%.

A bolsa de Atenas sofreu esta terça-feira um crash de quase 13% e o índice MSCI para a Europa recuou 1,27%. O crash bolsista helénico foi o maior desde a derrocada em dezembro de 1987 na bolsa de Atenas. O índice de pânico financeiro, o VIX relacionado com o índice bolsista Eurostoxx 50, subiu 29% para mais de 21 euros. Está longe do pico de pânico financeiro em meados de outubro (quando chegou a 36 euros) e ainda não atingiu os níveis registados no outro surto de medo no princípio de fevereiro (quando subiu para 24 euros). Desde o início do ano, as duas bolsas que registam as maiores quedas dos índices são a de Lisboa (o PSI 20 recuou 22,6% em virtude das ondas de choque da crise do GES/BES e PT) e Atenas (o ASE recuou 22,4%).

 

Risco político grego disparou

A agitação na Europa foi provocada pelo anúncio inesperado de eleições presidenciais antecipadas na Grécia para 17 de dezembro, que referimos na segunda-feira. A probabilidade alta do Parlamento helénico não conseguir uma maioria qualificada para eleger o candidato da coligação governamental, Stavros Dimas, nas três rondas de votações que poderá realizar em dezembro leva os investidores financeiros a temer eleições legislativas antecipadas em janeiro culminando numa derrota do atual governo ensanduichado, por um lado, entre a pressão da troika (que não concluiu ainda o sexto exame que tem em curso) e de Bruxelas (que estendeu por dois meses o final do programa de resgate por parte dos fundos europeus) e , por outro, pela oposição parlamentar que rejeita a austeridade.

O outro ponto de agitação nos mercados financeiros centrou-se na Ásia, com o índice chinês CSI 300 da bolsa de Xangai a cair 4,49% e com o índice compósito daquela bolsa registando a maior queda dos últimos cinco anos, superior a 5%. O motivo do choque negativo foi o anúncio pelas autoridades chinesas de regulação de que as obrigações com notação de duplo A ou menos num montante de 76 mil milhões de dólares deixarão de poder ser consideradas como colateral para a compra de ações.

Globalmente, as bolsas mundiais recuaram esta terça-feira 0,36%.

 

Evento marcante da semana na próxima quinta-feira

O acontecimento que poderá marcar significativamente a semana nos mercados financeiros vai ocorrer na próxima quinta-feira com o segundo leilão da linha de refinanciamento de longo prazo direcionada (conhecida pelo acrónimo TLTRO em inglês) organizado pelo Banco Central Europeu (BCE).

Na primeira operação em 24 de setembro, o recurso pelos bancos da zona euro à nova linha TLTRO foi fraco, totalizando apenas 82,6 mil milhões de euros. O BCE previa atingir 400 mil milhões de euros com as duas operações em 2014.

No caso do leilão da próxima quinta-feira não se revelar significativo, aumentará a pressão para que o BCE avance em 2015 com um programa de estímulos monetários mais agressivo do que o que tem em curso decidido a 4 de setembro e que se centra na aquisição de ativos financeiros privados. Até 5 de dezembro, o programa de compra de covered bonds iniciado em outubro atingiu 20,9 mil milhões de euros e o programa de compra de ABS, que arrancou em novembro, soma 601 milhões de euros.

Entretanto, mais um membro do BCE veio referir publicamente a probabilidade de tomada de mais medidas no primeiro trimestre de 2015.

"No que respeita ao voto no conselho de governadores [do Banco Central Europeu], vou repetir o que já foi dito, ou seja, que uma maioria esmagadora dos governadores apoiou um QE [acrónimo em inglês para quantitative easing, programa de compra de dívida soberana]", referiu esta terça-feira Jozef Makúch, governador do Banco central da Eslováquia, membro do conselho de governadores do banco central da zona euro. O "apoio esmagador" à eventualidade de tomar essa decisão foi manifestado na última reunião do BCE deste ano realizada a 4 de dezembro.