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A ficção criada pelo governo grego termina em pesadelo

O economista grego Yanis Varoufakis, atualmente professor convidado na Universidade do Texas, diz que "a estratégia de propaganda" de Atenas, Berlim e Frankfurt sobre uma "retoma grega" sucumbiu. Diz que a Grécia precisa de um governo que negocie efetivamente no  Conselho Europeu e no Eurogrupo, e "não que implore".

A Grécia regressou esta semana à ribalta dos mercados financeiros. Pelas piores razões, tal como em 2010 e no final de 2011.

Muitos analistas financeiros voltaram a falar esta semana de "contágio grego" na zona euro, mas o economista grego Yanis Varoufakis, em entrevista ao Expresso, acha que este desenlace era inevitável. Porque a estratégia de propaganda da "retoma grega" haveria de rebentar mais tarde ou mais cedo e porque a crise voltaria a subir à superfície dos mercados financeiros europeus, depois de ter andado a fazer estragos na economia real de toda a zona euro durante quase três anos, explica o professor de Economia Política da Universidade de Atenas, atualmente professor visitante na Lyndon B. Johnson School of Public Affairs, da Universidade do Texas em Austin, nos Estados Unidos.

Varoufakis acha que a Grécia precisa de um governo que negocie efetivamente no Conselho Europeu e no Eurogrupo, e "não que implore". E essa possibilidade só a antevê com novo governo depois de eleições legislativas antecipadas, onde as sondagens indicam que o partido de oposição Syriza deverá ganhar. Varoufakis com outros dois académicos, o norte-americano James K. Galbraith e o britânico Stuart Holland (que ensina na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra), tem defendido o que designa de "proposta modesta" de resolução das crises da dívida soberana na zona euro. O economista grego escreve diariamente num blogue que tem por mote "Pensamentos para um mundo pós-2008".

 

A ficção da "saída limpa"

O turbilhão recente foi gerado pela ficção alimentada pelo governo de Atenas em copiar uma saída "limpa" do programa de resgate em 2015, uma estratégia avançada por razões de combate político interno. Na sexta-feira, o primeiro-ministro Antonis Samaras acabou por admitir, em Milão, que uma opção diferente, por um programa cautelar, está em cima da mesa nas negociações com a troika. Samaras vai, assim, ao encontro da opinião de Christine Lagarde, a diretora-geral do Fundo Monetário Internacional (FMI), que se pronunciou recentemente pela adesão da Grécia a uma linha de crédito de precaução.

O efeito das manobras políticas do governo conservador-socialista em Atenas, conjugado com a desconfiança sobre o futuro macroeconómico da zona euro, foi desastroso.

No mercado bolsista europeu, o índice de volatilidade relacionado com o Eurostoxx 50 atingiu um pico de 35,72 euros no dia 16 de outubro, um máximo nos últimos dois anos. O índice da volatilidade é alcunhado como o "índice do medo", um indicador de pânico financeiro. No mercado da dívida soberana da zona euro assistiu-se a uma subida generalizada das yields da dívida obrigacionista dos periféricos que só foi estancada na sexta-feira.

Em termos domésticos, o índice da bolsa de Atenas já caiu 20% desde o início do ano. Só esta semana quebrou 7,4%. As yields das obrigações gregas a 10 anos reestruturadas em 2012 dispararam para próximo de 9%, distante do mínimo, desde o resgate, de 5,48% registado em setembro. A rentabilidade nas últimas 52 semanas de toda a dívida obrigacionista grega caiu de mais de 60% em agosto para um mínimo de 8,96% no dia 16. Desde o início de outubro, a rentabilidade mensal está em terreno negativo, em quase -10%. A probabilidade de entrada em incumprimento da dívida grega regressou ao patamar dos 40%, com o custo dos credit default swaps que seguram a dívida a cinco anos a ultrapassar os 725 pontos base. A dívida grega de longo prazo continua a ser considerada altamente especulativa - muitíssimo mais especulativa do que a portuguesa - por parte das três principais agências mundiais de rating.

No plano político, uma sondagem da GPO para a Mega TV, divulgada no dia 14, caiu como uma bomba em Atenas. O partido de oposição Syriza ganhava por uma margem de 6,5 pontos percentuais em intenções de voto, no caso de eleições legislativas antecipadas no final do primeiro trimestre de 2015, em relação ao Nova Democracia, o partido que lidera a atual coligação.

 

Uma estratégia do governo alemão e do BCE que falhou

P: O que é que correu mal na Grécia nos últimos meses para desembocar nesta semana negra?

R: Em abril, eu alertei para o que se estava a passar. Quando o Tesouro grego regressou aos mercados de capitais pela primeira vez em quatro anos com uma muito concorrida emissão de dívida a cinco anos pagando uma taxa média de remuneração muito baixa de 4,9%, eu escrevi que estava a acontecer uma divergência de curto prazo entre o valor dos papeis financeiros gregos - tanto obrigações como ações - e a economia real grega. Essa divergência estava a ser gerada por Berlim, Frankfurt e Atenas pura e simplesmente para fins de propaganda, para alimentar a ficção da "retoma grega", o que, em inglês, então se parodiou como "Greek-covery".

P: Uma ficção?

R: Sim. Berlim, Frankfurt e Atenas estavam a tentar fazer passar a ideia de uma "retoma grega" inflacionando duas "bolhas" em simultâneo. Uma no mercado da dívida soberana, criando a ideia junto dos investidores que Berlim [o governo alemão] e Frankfurt [o Banco Central Europeu] suportavam estas obrigações. E outra no mercado das ações dos bancos gregos. O Banco Central da Grécia criou a ideia de que os reguladores, incluindo o Banco Central Europeu (BCE), continuariam a fechar os olhos aos buracos na contabilização dos ativos dos bancos. O que aconteceu, agora, é que estas duas bolhas estoiraram.

P: Como é que isso aconteceu?

R: A primeira "bolha" a rebentar foi no mercado bolsista. O gatilho foi o anúncio pelo BCE de que não consideraria como Tier 1 determinadas garantias dadas pelo governo de Atenas aos bancos e que somavam 9 mil milhões de euros. As ações dos bancos colapsaram, arrastando com elas o restante. Logo, depois, o governo passou a ideia de que estava a preparar uma emissão de bilhetes de Tesouro para injetar nos bancos uma quantia similar. Os mercados financeiros encararam-no como um movimento desesperado de um Estado insolvente tentando aumentar a sua dívida em mais 9 mil milhões de euros, no fundo, para salvar bancos defuntos.

P: E o que se passou com a ideia de "copiar" as "saídas limpas" da Irlanda e de Portugal?

R: Essa ficção de que a Grécia estava à beira de sair do programa de resgate foi enterrada por Christine Lagarde numa declaração em Washington DC [em que desaconselhou uma saída à irlandesa e se mostrou favorável a um programa cautelar] e, em particular, pela sua decisão de não reunir mais do que 20 minutos com uma delegação grega, incluindo o ministro das Finanças e o governador do banco central.

P: Qual foi o impacto desses desenvolvimentos?

R: Ajudaram a derrubar a estratégia do governo para recuperar a liderança nas sondagens de opinião, especialmente tendo em conta os mais recentes resultados de intenções de voto que indicam que o partido esquerdista Syriza está a ampliar a sua vantagem em relação à Nova Democracia [o partido de Samaras que lidera a coligação conservadora-socialista].

P: O que é que pesa mais nos ziguezagues do "sentimento" dos investidores financeiros em relação à Grécia, o aumento do que designam por risco político interno, ou a perceção negativa sobre a situação global da zona euro?

R: O "mergulho" grego tem, naturalmente, de ser analisado no contexto de uma situação desoladora, global, na Europa, e, também, tendo em conta uma situação superinflacionada nas bolsas do outro lado do Atlântico, engendrada pelo quantitative easing [da Reserva Federal norte-americana]. No entanto, apesar das bolsas por todo o mundo terem tido uma má semana e do pessimismo se ter espalhado, o caso grego é especial.

P: Porquê?

R: As obrigações gregas foram inflacionadas de propósito por Berlim e Frankfurt numa tentativa de declarar "vitória" sobre a crise grega. A ideia era argumentar que "se até a insolvente Grécia está melhor, a crise da zona euro deve ter acabado".

 

Sobre o risco político

P: E quanto ao risco político?

R:  Bom, creio que se está a referir à probabilidade crescente de um governo liderado pelo Syriza.

P: É o que os investidores e analistas financeiros dizem temer...

R: Primeiro que tudo, deixe-me dizer que há algo de errado quando a subida nas sondagens de um partido legítimo e europeísta é descrita como "risco político crescente".

P: E não é?

R: Na realidade, o que a subida do Syriza representa é um risco crescente para um acordo de resgate insustentável e para umas "bolhas" que a liderança europeia está a alimentar de modo a permanecer em negação. Além do mais, a sua pergunta pressupõe uma causalidade que está errada.

P: Em que sentido?

R: Não foi a subida do Syriza que gerou o pânico entre os investidores e que levou ao colapso da estratégia da "retoma grega". Foi ao contrário: foi o estoiro dessa bolha que fez naufragar a estratégia do governo, fez entrar em pânico os investidores e, como resultado final, deu um impulso ao Syriza.

P: Podemos falar de "contágio grego" nos mercados financeiros da zona euro, como no final de 2011?

R: Sim e não. Na realidade, a crise do euro nunca se foi embora. O que aconteceu é que as intervenções hábeis de Mario Draghi [o presidente do BCE] no verão de 2012 suprimiram a crise nos mercados obrigacionistas. Mas, ao mesmo tempo, empurraram-na ainda mais para as fundações da economia real.

P: Então, os mercados da zona euro estão a ser vítimas da própria estratégia seguida na área da moeda única?

R: Era inevitável. À medida que a crise fazia naufragar essas fundações da economia real - com tendências deflacionistas, níveis desesperadamente baixos de investimento público e privado, e rácios de dívida em relação ao PIB cada vez mais elevados na periferia -, a crise haveria de voltar à superfície nos mercados obrigacionistas e de ações. Não interessa se o gatilho é a Grécia, ou Portugal, ou a Itália. O que conta é a sua inevitabilidade.

P: A probabilidade de eleições antecipadas na Grécia é elevada?

R: Será, de facto, uma grande surpresa se este Parlamento conseguir eleger o Presidente da República em fevereiro próximo. São necessários 180 votos num total de 300 deputados. Se não for possível, terão de haver eleições legislativas antecipadas. No caso de ocorrerem, o Syriza, com toda a probabilidade, ganhará, ainda que seja difícil que consiga uma maioria.

P: E quais seriam as consequências?

R: O pior resultado será um período prolongado de negociações que desembocará em novas eleições - que foi, deixe-me recordar, o que aconteceu em maio e junho de 2012.

P: Qual será a melhor solução a seu ver?

R: O meu ponto de vista é que o resultado ótimo é que quanto mais rápido o Syriza forme governo, e quanto mais cedo esse novo governo renegocie os termos e condições do resgate, melhor para a Grécia e a Europa. Algo tem de acabar com a inércia atual.

P: A Grécia pode mesmo "sair à irlandesa" do resgate em 2015? Ou essa pretensão foi uma mera jogada do primeiro-ministro Samaras para consumo interno?

R: Foi sempre uma jogada eleitoral para Samaras se pintar como o líder heroico que, tal como Moisés, conduzirá a nação para a Terra Prometida, saindo do ... Resgatão.

 

A tripla insolvência grega

P: E quanto ao modo "técnico" de sair do resgate?

R: Na realidade, pouco conta se a Grécia conseguirá uma linha cautelar, se acabará por cair sob a tutela do OMT [o programa de Transações Monetárias Diretas do BCE]  de Draghi, ou se conseguirá mais um empréstimo do Mecanismo Europeu de Estabilidade.

P: O que conta, então?

R: O facto de a Grécia estar, agora, presa pelos agrafos de uma tripla insolvência - de um estado, do sistema bancário e do sector privado. Nos últimos três anos, estas insolvências estiveram camufladas debaixo de várias linhas de crédito que não resolveram o problema. Na realidade, ainda o tornaram pior. Até que surja uma abordagem a esta tripla insolvência, tudo o que a Europa e o FMI fizerem permanecerá sob o reino de uma cortina de fumo.

P: Mas, no final, o BCE e a nova Comissão Europeia chefiada por Jean-Claude Juncker, não acabarão por fazer "tudo o que for preciso" para segurar a Grécia no euro?

R: Eles gostarão de manter essa promessa.

P: Mas...

P: Juncker não tem o poder para fazer a diferença e o papel do BCE está severamente circunscrito. A sorte da Grécia, e da zona euro, será decidida a nível do Conselho Europeu e do Eurogrupo fruto de negociação política. Mas para que isso aconteça precisamos de um governo na Grécia que queira negociar - e não implorar. É, por isso que acredito que eleições antecipadas - e um Syriza decidido - será uma boa saída para a Grécia e para a Europa.