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Mercados da dívida (ainda) acreditam em acordo com a Grécia

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Os juros da dívida dos periféricos e das economias do centro da zona euro mantêm trajetória de descida. Analistas acreditam em algum tipo de compromisso no último minuto. Cimeira extraordinária do euro na segunda-feira

Apesar de uma subida de tom na linguagem usada pelos credores oficiais, com o caso mais gritante nas declarações no Eurogrupo da diretora-geral do Fundo Monetário Internacional (FMI), e pelo primeiro-ministro grego no Parlamento em Atenas, os analistas dos mercados financeiros e os investidores na dívida soberana da zona euro parecem continuar a acreditar num acordo entre a Grécia e os três credores oficiais “no último minuto”.

A expetativa do investidores centra-se, agora, na cimeira extraordinária dos chefes de Estado e de Governo da zona euro convocada para segunda-feira ao final da tarde.A decisão subiu do nível dos ministros das Finanças do euro para "o mais alto nível político", como justificou o presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, ao convocar esta cimeira especial.

Esta sexta-feira reúne-se o Ecofin, o órgão dos ministros das Finanças de toda a União Europeia (UE), e a 25 e 26 de junho, no final da próxima semana, é a vez da cimeira europeia (com todos os chefes de Estado e de Governo dos membros da UE).

Se não houver fumo branco, banca na berlinda
Em uma intervenção no Eurogrupo de quinta-feira, que tornou pública no seu blogue pessoal, o ministro das Finanças helénico Yanis Varoufakis apresentou a plataforma de compromisso que Atenas acha aceitável. Avançou com a criação de um mecanismo de controlo automático de derrapagens orçamentais que coloquem em perigo as metas do saldo primário orçamental onde já há convergência entre as duas partes, admitiu  um memorando de condições com reformas profundas no sistema de pensões, mas recusou o corte de 1,8 mil milhões de euros exigido pelos credores oficiais, e propôs uma conta especial para os pagamentos ao FMI. Repetiu a proposta de uma operação de recompra da dívida ao Banco Central Europeu através de um empréstimo adicional do Mecanismo Europeu de Estabilidade. Atenas pretende uma extensão do programa de resgate até março de 2016, quando termina a intervenção do FMI e, após a liquidação da dívida ao BCE, a inclusão da Grécia no programa de compras de dívida pública no mercado secundário por parte do banco central da moeda única.

No caso de não haver fumo branco na segunda-feira, o primeiro impacto de vulto afetará os bancos helénicos, com o risco de uma fuga massiva, e final, de depósitos, se medidas de controlo de capitais não forem decretadas pelo Banco Central da Grécia de imediato. Segundo fontes citadas na imprensa financeira internacional, já saíram 2 mil milhões de euros esta semana, com um recorde de mil milhões na quarta-feira.

Segundo o "Le Monde", o BCE terá convocado uma reunião de emergência esta sexta-feira à tarde para discutir a situação da banca grega.

O segundo impacto de um fracasso na cimeira extraordinária fará sentir-se no mercado secundário da dívida em termos de amplitude do contágio grego.

Contágio grego contido
A tensão verbal e o impasse na reunião do Eurogrupo (órgão informal dos ministros das Finanças do euro) na quinta-feira não alteraram a trajetória de descida das yields das obrigações dos periféricos desde a abertura da sessão de quinta-feira no mercado secundário da dívida. O mesmo sentido está a registar-se na abertura desta sexta-feira. Depois de um máximo do ano em 3,39% durante a sessão de 16 de junho, as yields das Obrigações do Tesouro a 10 anos abriram esta sexta-feira a descer estando a aproximar-se do limiar dos 3%. Por outro lado, as yields das obrigações alemãs, naquela maturidade de referência, situam-se abaixo de 0,8%, o patamar em que abriram na segunda-feira.

O mesmo movimento de descida regista-se nas yields das obrigações gregas a 10 anos. Depois de máximos da semana acima de 13% desde terça-feira, as yields desceram para menos de 13% no fecho de quinta-feira e estão a flutuar na abertura desta sexta-feira entre 12,5% e 12,6%. O máximo do ano registou-se a 21 de abril com as yields a subirem para 13,6%.

Risco de bancarrota perto do venezuelano
Em virtude do temor de um incumprimento seletivo de dívida junto do FMI já no final deste mês – no caso do cheque de 1,54 mil milhões de euros não seguir para Washington – e das perspetivas de falta de financiamento durante este verão quente para as amortizações ao FMI (mais um cheque de 450 milhões de euros em julho) e ao BCE (6,7 mil milhões de euros em julho e agosto), o custo de segurar a dívida grega a 5 anos contra um evento de crédito (default) disparou para mais de 4300 pontos base a 17 de junho.

Deste modo, aproximou-se perigosamente do preço dos credit default swaps (designação técnica para aqueles instrumentos financeiros, acrónimo cds) para a dívida da Venezuela que registava naquele dia 4519 pontos base. Na quinta-feira o custo dos cds para a dívida grega desceram para 3921,14 pontos base.

A Venezuela é atualmente o líder do restrito clube da bancarrota, onde se incluem a Grécia e a Ucrânia (que está a exigir até final de julho um hair cut de 40% da dívida de 70 mil milhões de dólares a credores privados). A Argentina está fora desse clube desde julho do ano passado, em virtude de ter entrado em default seletivo após os incumprimentos a credores motivados pelas decisões de um tribunal de Nova Iorque a favor das reclamações dos fundos abutre.

Sintoma do contágio grego e da tendência de fundo para alteração do comportamento dos investidores em relação à dívida obrigacionista da zona euro, grandes emissores de dívida soberana já pagam taxas médias de remuneração mais elevadas. O Tesouro espanhol foi na quinta-feira ao mercado e colocou dívida a 3, a 5 e a 10 anos pagando taxas mais elevadas do que em emissões anteriores. O mesmo sucedeu com a Agência do Tesouro Francesa que colocou dívida a 3, a 4 e a 5 anos. No prazo a 4 anos, a taxa passou de terreno negativo na emissão anterior (-0,07%) para taxa positiva (0,21%) na emissão de quinta-feira.