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Contágio grego provoca rombo nos periféricos. Reunião de emergência em Bruxelas

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FRANÇOIS LENOIR / Reuters

Juros das Obrigações do Tesouro português a 10 anos em novo máximo do ano. Rentabilidade da dívida portuguesa é mais baixa do que a da zona euro. Presidentes das cinco instituições europeias reúnem-se de emergência. esta terça-feira, em Bruxelas

A subida das yields da dívida soberana de Portugal, Espanha, Itália e Irlanda prossegue esta terça-feira na abertura do mercado secundário. Para as Obrigações do Tesouro português (OT) no prazo de referência, a 10 anos, as yields já subiram para 3,38% pelas 8h45, um nível que não se registava desde novembro de 2014 e que está quase dois pontos percentuais acima do mínimo histórico de março passado.

A rentabilidade anual da dívida obrigacionista portuguesa – em todos os prazos –  baixou para 3,82%, um retorno que passou a ser inferior ao do conjunto da zona euro, que regista 4,23%, segundo o índice da Bloomberg para a dívida soberana. No final da semana passada, a rentabilidade anual das obrigações portuguesas estava em 4,87% e então ainda era superior, ligeiramente, ao do conjunto da dívida da zona euro, que registava 4,85%. Neste momento, o retorno anual da dívida portuguesa só é superior ao espanhol e irlandês. As rentabilidades para a dívida italiana, alemã e francesa são superiores. 

A subida das yields para os periféricos está a contrastar com a descida para o caso das obrigações alemãs – conhecidas por Bunds – que servem de referência na zona euro.  As yields das Bunds a 10 anos abriram a descer esta manhã para 0,77%, prosseguindo a trajetória descendente de segunda-feira.

Deste modo, o prémio de risco, ou risco soberano, da dívida dos periféricos está a subir, pois o diferencial entre o custo de financiar o endividamento dos periféricos e o de financiar a dívida alemã amplia-se. Os investidores exigem cada vez um maior spread em relação às economias mais vulneráveis do euro. O prémio de risco da dívida portuguesa subiu esta terça-feira para 259 pontos base, quase 100 pontos de subida nos últimos 30 dias. Regressou ao nível de outubro de 2014.

Draghi distancia-se da “alta tensão” e Bruxelas vai reunir o grupo dos cinco presidentes
A última semana foi marcada pela saída dos técnicos do Fundo Monetário Internacional (FMI) das negociações com a Grécia no Grupo de Bruxelas e no domingo a Comissão Europeia suspendeu as discussões remetendo para a reunião do Eurogrupo (órgão informal dos ministros das Finanças da zona euro) de 18 de junho, na próxima quinta-feira, a discussão do impasse.

Entretanto, o FMI pela voz autorizada do seu economista-chefe, Olivier Blanchard, num artigo publicado no domingo no blogue da organização, criticava gregos e europeus, exigindo que Atenas aceite uma reforma mais profunda do sistema de pensões (os gregos admitem limitar as reformas antecipadas mas as receitas que estimam são muito baixas, apenas 71 milhões em 2015) e que Bruxelas (Comissão) e Frankfurt (Banco Central Europeu) aceitem alterar o perfil da dívida grega que atingiu 182,1% do PIB no final do ano passado.

Face à “alta tensão” nas negociações e aos movimentos do FMI e de Jean-Claude Juncker, presidente da Comissão Europeia (CE), Mario Draghi, o presidente do BCE, distanciou-se na segunda feira do clima de rutura, ao falar perante na Comissão de Assuntos Económicos Monetários do Parlamento Europeu (PE), na “leitura” que o jornal helénico “Kathimerini” fez das suas declarações. O BCE continua a gerir com prudência a permissão da banca grega aceder à linha de emergência de liquidez junto do Banco Central grego, recusando pressões para cortar o tubo de oxigénio ao sistema financeiro daquele país. A Reuters avança com uma saída de depósitos dos bancos gregos na ordem de 400 milhões de euros na segunda-feira.

Face a esta situação de turbulência, os cinco presidentes das organizações europeias – Juncker, da CE, Draghi, do BCE, Jeroen Dijsselbloem, do Eurogrupo, Martin Schulz, do PE, e Donald Tusk, do Conselho Europeu – vão reunir-se à tarde em Bruxelas com a Grécia na agenda.

O jornal alemão "Süddeutsche Zeitung" adiantava esta terça-feira que o Eurogrupo já teria acordado num plano de emergência, se não se materializar nenhum acordo na reunião de quinta-feira ou em uma reunião extraordinária no dia seguinte ou no fim de semana. O plano passaria pela imposição de um controlo dos movimentos de capitais durante o fim-de-semana, o que foi desmentido pelo governo grego.

Onde se situa o risco de incumprimento a curto prazo
Recorde-se que, atualmente, 67% da dívida soberana grega está nas mãos de entidades europeias (BCE e bancos centrais do Euro-sistema, Fundos Europeus de resgate e empréstimos bilaterais). 

O risco de um incumprimento seletivo a curto prazo na dívida aos credores oficiais centra-se em dois tipos de amortizações.

O Tesouro grego tem de amortizar em julho e agosto obrigações detidas pelo BCE e pelo Euro-sistema num montante de 6,7 mil milhões de euros. Estas obrigações derivam de uma troca de títulos (provenientes de compras do BCE no mercado secundário ao abrigo do programa SMP de 2010 a 2012) aquando da reestruturação de 2012 por novo títulos que não sofreram nenhum hair cut. Em 2016 o montante é de 2,3 mil milhões de euros. Um dos riscos de incumprimento seletivo respeita a esta dívida a curto prazo.

Ao FMI, Atenas terá de enviar um cheque de 1,5 mil milhões de euros a 30 de junho e tem mais oito pagamentos para realizar de setembro a dezembro num total de 3,65 mil milhões de euros. Em 2016, os pagamentos somam 3,3 mil milhões de euros. Outro risco de incumprimento seletivo diz respeito a estes montantes a enviar para Washington nos próximos 18 meses. Segundo as regras do FMI, uma acusação formal de incumprimento só é colocada 60 dias depois dele ocorrer.

Em suma, sem contar juros, no próximo ano e meio, o Tesouro grego tem de arranjar financiamento para amortizar aos dois credores oficiais (FMI e BCE) cerca de 12 mil milhões de euros em 2015 e mais 5,6 mil milhões em 2016.

O governo grego avançou recentemente com uma engenharia financeira para cumprir estas amortizações, e os juros, através de uma recompra da totalidade da dívida ao BCE (cerca de 27 mil milhões de euros), recorrendo a um empréstimo adicional do Mecanismo Europeu de Estabilidade, e a um replaneamento do pagamento dos empréstimos do FMI (totalizando mais de 20 mil milhões de euros), com uma amortização antecipada de 50% da dívida até março de 2016 (quando termina a intervenção na Grécia daquele organismo, no âmbito do resgate) muito superior aos cerca de 5 mil milhões que terá de pagar.