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Nervosismo total na dívida. Juros descem a pique e voltam a subir

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A manhã de quinta-feira foi marcada pela expetativa em torno de um acordo intercalar entre a Grécia e os credores oficiais até à reunião do Eurogrupo. À tarde o FMI retirou a equipa das negociações em Bruxelas. Mesmo assim os juros fecharam abaixo dos níveis de quarta-feira

Jorge Nascimento Rodrigues

Assistiu-se esta quinta-feira a uma sessão com as yields das obrigações da zona euro mergulhadas num total nervosismo no mercado secundário da dívida soberana.

Olhando para a trajetória das yields das obrigações alemãs e portuguesas, no prazo a 10 anos, o carrossel é evidente.

As yields das Obrigações do Tesouro português (OT) a 10 anos subiram até 3,1%, depois desceram a pique durante a sessão da manhã até 2,82% e voltaram a subir, mais acentuadamente a partir das 16h, fechando em 2,94%. Apesar desta recuperação à tarde, acabaram por encerrar com uma descida de seis pontos base em relação ao fecho de quarta-feira em 3%.

No caso das obrigações alemãs naquela maturidade (conhecidas pela designação de Bunds), as yields subiram até 1,035% (acima do limiar psicológico de 1%), desceram até 0,875% durante a manhã e voltaram a subir à tarde fechando em 0,89%, 10 pontos base abaixo do valor de encerramento na quarta-feira.

Do acordo esperado ao balde de água fria do FMI
Durante a manhã de quinta-feira, as yields caíram a pique alimentadas pela expetativa de um acordo intercalar entre a Grécia e os credores oficiais que pudesse ser discutido na próxima reunião do Eurogrupo (órgão informal dos ministros das Finanças da zona euro) a 18 de junho.

Embalada neste clima vindo de Bruxelas, após uma reunião trilateral na noite anterior entre o primeiro-ministro Alexis Tsipras, a chanceler alemã Angela Merkel e o presidente francês François Hollande, e registando nova reunião entre Tsipras e o presidente da Comissão Europeia Jean-Claude Juncker ao começo da tarde, a Bolsa de Atenas fecha a ganhar 8,16%, ainda antes do impacto do “terramoto” político da tarde vindo de Washington DC. Foi a terceira maior subida do ano, depois de dois disparos diários em fevereiro de 11,3% e 9,8%.

À tarde (manhã nos Estados Unidos), o porta-voz do Fundo Monetário Internacional (FMI), Gerry Rice, anuncia que o Fundo retira a sua equipa das negociações técnicas em Bruxelas, deitando um balde água fria, alegando que o acordo está “distante”. Rice adiantou que permanecem divergências em matérias sensíveis para o FMI, como a reforma do sistema de pensões grego considerado “insustentável”, e que não está clara a garantia da sustentabilidade da dívida grega. O efeito foi imediato, as yields regressaram às subidas. Rice garantiu, no entanto,que a sua diretora-geral Christine Lagarde estará presente na reunião do Eurogrupo da próxima semana no Luxemburgo.

Em Madrid, já depois da posição tomada pelo FMI, o vice-presidente da Comissão Europeia Valdis Dombrovskis afirma que “as negociações continuam a nível técnico” e que “um acordo é possível, requerendo vontade política”.

As yields no prazo a 10 anos que mais desceram esta quinta-feira no mercado secundário em relação ao fecho de quarta-feira foram as relativas às obrigações gregas (menos 31 pontos base) e irlandesas (menos 16 pontos base). As yields das obrigações gregas naquela maturidade fecharam em 11,33%.

Sinais negativos
Na quarta-feira, a agência de notação Standard & Poor's cortou o rating da dívida grega de longo prazo, empurrando-o para o terreno de dívida extremamente especulativa, e o Banco Central Europeu viu-se obrigado a aumentar em 2,3 mil milhões de euros o teto da linha de emergência de liquidez (ELA, na designação em inglês) a que podem recorrer os bancos helénicos junto do Banco Central do país. O analista norte-americano Marc Chandler chama a atenção que esse aumento - o maior desde 18 de fevereiro - pode ser interpretado como um sinal claro do aumento do stresse no sector financeiro daquele país.

Num leilão de dívida obrigacionista, realizado em Madrid, o Tesouro espanhol colocou obrigações a 3 e 5 anos pagando taxas de remuneração média mais elevadas do que em emissões anteriores similares; quase 2 vezes superiores no prazo a 5 anos (1,243% vs. 0,641%) e mais de 2 vezes superiores no prazo a 3 anos (0,49% vs. 0,246%) .

A atenção dos analistas vira-se, agora, para a sessão de sexta-feira, para a avaliação de qual será efetivamente o impacto da decisão do FMI anunciada esta quinta-feira à tarde.