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Obrigações do Tesouro. Juros em 3% pela primeira vez desde há 7 meses

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Os juros das Obrigações do Tesouro português no prazo a 10 anos fecharam esta segunda-feira no mercado secundário em 3% pela primeira vez desde novembro de 2014. Governador do banco central austríaco fala de “normalização” do mercado da dívida e contágio grego prossegue.

Jorge Nascimento Rodrigues

As yields das Obrigações do Tesouro (OT) português no prazo a 10 anos fecharam pela primeira vez desde novembro de 2014 em 3% no mercado secundário da dívida soberana em mais uma sessão de trajetória ascendente. Subiram 5 pontos base em relação ao fecho da semana passada. É o dobro do mínimo histórico registado em março.

A rentabilidade anual da dívida obrigacionista portuguesa (em todos os prazos) continua a cair. Segundo o índice da Bloomberg, o retorno das obrigações nas últimas 52 semanas desceu para 5,82%, depois de ter fechado a semana anterior em 6,75%. No final de fevereiro registava 18,94%.

O movimento de subida abrangeu toda a zona euro, com destaque para os periféricos. Na maturidade de referência, a 10 anos, as yields das obrigações gregas subiram 6 pontos base, a maior subida na zona euro, fechando em 11,49%. As maiores subidas, naquele prazo, registaram-se para as yields das obrigações gregas, portuguesas e irlandesas.

As yields das obrigações alemãs, naquela maturidade, subiram para 0,88%, mas estão ainda abaixo do máximo do ano perto de 1% registado na semana passada, a 4 de junho, no dia seguinte à reunião do Banco Central Europeu (BCE) e à conferência de imprensa do seu presidente. Mario Draghi falou então de juros da dívida “um pouco nervosos” e de “volatilidade” a que os investidores se tinham de habituar.

Normalização do mercado, mínimos históricos não eram justificáveis

O movimento de subida das yields das obrigações soberanas iniciado em abril é derivado de uma alteração do comportamento dos investidores face à dívida soberana da zona euro em virtude dos efeitos na inflação (com o regresso do crescimento dos preços à zona euro em maio, o que já não acontecia há seis meses, e precisamente com a mesma taxa de 0,3%)  e no próprio mercado obrigacionista (redução da liquidez entre outras “razões técnicas”) gerados pela implementação do programa de compras de dívida pública no mercado secundário pelo BCE.

Ewald Nowotny, o governador do Banco Central da Áustria, regozijou-se esta segunda-feira com essa “normalização” do nível das yields fruto de “uma história de sucesso” de recuo no risco de deflação fruto da ação do BCE. “Os pontos baixos [das yields] atingidos no começo do ano não eram certamente justificáveis pela economia real”, frisou o banqueiro central. Os pontos baixos, recorde-se, foram os mínimos históricos a que desceram as yields da dívida obrigacionista de periféricos (com exceção da Grécia) e do centro. No caso das OT, no prazo a 10 anos, as yields chegaram a descer para 1,5% em março.

Expetativa para a trilateral Tsipras, Merkel, Hollande

O contágio grego continua, também, a influenciar aquela subida conjugando-se com a “normalização” referida por Nowotny. O jornal grego “Kathimerini” afirma que o governo grego continua a reformular a proposta de 47 páginas enviada no início de junho para Bruxelas, elaborando contra-propostas ao memorando de 10 pontos entregue pelo presidente da Comissão Europeia ao primeiro-ministro grego a 3 de junho.

Uma delegação helénica de alto nível partiu para Bruxelas com poderes para tomar deliberações chefiada por Nikos Pappas, ministro de Estado, e Euclid Tsakalotos, ministro adjunto das Relações Económicas Internacionais e encarregado da gestão política das negociações. O ministro das Finanças Yanis Varoufakis reuniu-se esta segunda-feira com o seu homólogo alemão em Berlim declarando que teve “uma longa e construtiva conversa com o Dr.Schäuble”.

A expetativa centra-se, agora, na já anunciada reunião trilateral entre o primeiro-ministro grego Alexis Tsipras e a chanceler alemã Angela Merkel e o presidente francês François Hollande em Bruxelas na quarta-feira ao final da tarde à margem da cimeira União Europeia América Latina.

O final da extensão do atual programa de resgate por parte dos credores europeus (através do Fundo Europeu de Estabilidade Financeira) termina no final deste mês, ocasião em que o Tesouro grego terá de enviar para o Fundo Monetário Internacional (FMI) um cheque de 1,5 a 1,6 mil milhões de euros (que resulta do agrupamento dos quatro pagamentos que deveriam ser feitos ao FMI em junho).

Recorde-se que o programa de resgate pela parte europeia foi estendido em fevereiro por quatro meses de modo a terminar-se o 5ºexame ao andamento da sua execução que não se concluiu em agosto do ano passado e que viria a provocar a crise política que levou à queda do anterior governo. A intervenção do FMI ao abrigo do empréstimo concedido à Grécia só termina em março de 2016.

Hoje surgiram rumores de que os credores oficiais procurariam estender o resgate europeu até final do ano ou mesmo até final de março de 2016 (conjugando com o  calendário da intervenção do FMI), continuando, no entanto, a exigir cedências dos gregos em áreas que estes consideram “linhas vermelhas” e onde as divergências de políticas concretas são mais amplas. Hollande disse no final da cimeira do G7 na Baviera que um acordo com os gregos tem de ser alcançado antes do final de junho para “travar a especulação sobre o futuro da Grécia no euro”.