Siga-nos

Perfil

Economia

Dívida

Juros da dívida perto de 3%. Culpa da volatilidade e do contágio grego

  • 333

Juros das Obrigações do Tesouro a 10 anos fecham semana em 2,95%. Às condições de mercado favoráveis ao “nervosismo” dos juros junta-se, agora, o impacto da recusa de Atenas à proposta inspirada pelo Grupo de Berlim.

Jorge Nascimento Rodrigues

Pela primeira vez desde há sete meses, as yields das Obrigações do Tesouro português (OT) no prazo de referência, a 10 anos, fecharam perto de 3% no mercado secundário. O máximo durante a sessão de sexta-feira registou 2,99% e as yields fecharam a semana em 2,95%, um novo máximo do ano em valores de fecho. Quase o dobro do mínimo histórico verificado em março. Muito analistas sublinham que o período excecional de mínimos históricos na zona euro poderá ter terminado.

O prémio de risco da dívida portuguesa subiu para 210 pontos base, o equivalente a um diferencial de 2,1 pontos percentuais em relação ao custo de financiamento da dívida alemã na maturidade de referência. Foi o prémio de risco que mais subiu nos últimos 30 dias na zona euro. Agravou-se em 22 pontos base face a subidas de 17 pontos para Irlanda, 11 para Espanha e 10 para Itália, e uma descida de 16 pontos para a Grécia.

Rentabilidade da dívida em queda livre

A rentabilidade anual da dívida obrigacionista (em todos os prazos) voltou a cair esta semana em toda a zona euro, de acordo com o índice da Bloomberg (Global Benchmark Sovereign Bond Index). O retorno nas últimas 52 semanas para as obrigações portuguesas desceu de 8,99% no final de maio para 6,75% no final desta semana. Recorde-se que em dezembro de 2014 registava 22,07% e em abril deste ano situava-se em 12,08%.

Globalmente, para a dívida obrigacionista de toda a zona euro, a rentabilidade anual desceu de 8,09% para 5,66% naquele período. A rentabilidade negativa das obrigações helénicas agravou-se. O retorno anual negativo está em -24,9% face a a -24,53% no final de maio.

A última sessão desta semana no mercado secundário foi marcada pela digestão de dois eventos relacionados com a negociação da Grécia com os credores oficiais. 

Grécia no ponto crítico

Os mercados financeiros reagiram negativamente à decisão de Atenas em agrupar num só pagamento no final do mês os quatros cheques de amortização do empréstimo do Fundo Monetário Internacional (FMI), incluindo o que deveria ter sido pago esta sexta-feira, e  à declaração do governo grego considerando “irrealistas” e “absurdas” diversas exigências apresentadas, esta semana, em Bruxelas pelo presidente da Comissão Europeia Jean-Claude Juncker ao primeiro ministro grego Alexis Tsipras. Perante o Parlamento grego, cuja sessão continua a esta hora, Tsipras considerou que se atingiu “o ponto crítico”.

À volatilidade do mercado da dívida que tem alimentado juros “um pouco nervosos”, nas palavras do presidente do Banco Central Europeu (BCE) em conferência de imprensa esta semana, juntou-se desde quinta-feira o contágio grego em virtude de novo impasse nas negociações, apesar do recuo dos credores oficiais em matéria de excedente primário orçamental para o triénio 2015-2017 (o que separa governo e credores é agora um diferencial acumulado de 1,4 pontos percentuais do PIB) e de uma posição mais moderada no campo das reformas laborais.

As yields das obrigações gregas a 10 anos subiram durante a semana 26 pontos base, fechando em 11,4% e o contágio grego ajudou a alimentar subidas muito significativas nas yields das obrigações irlandesas (mais 47 pontos base), espanholas e italianas (mais 40 pontos base em cada caso) e portuguesas (mais 38 pontos base) entre 29 de maio e 5 de junho.

Apesar da subida, as yields das obrigações gregas a 10 anos continuam abaixo do máximo do ano em 13,59% em 21 de abril, quando os mercados financeiros perceberam que não haveria até final desse mês uma aprovação pelo Eurogrupo de nenhuma lista de reformas apresentada pelo ministro Varoufakis, como estava estabelecido.

Bunds alemãs com juros perto de 1%

O movimento de subida das yields foi particularmente seguido no caso das obrigações alemãs a 10 anos, conhecidas como Bunds. Elas chegaram perto de 1% na quinta-feira, fruto do impacto das palavras de Draghi avisando os investidores para se habituarem à volatilidade, pois o BCE não irá abrandar o seu programa de compras de dívida pública no mercado secundário iniciado em março. Mesmo que as yields estejam "um pouco nervosas", fruto da fraca liquidez do mercado, com analistas a acusarem o BCE de estar a "secá-lo".

Em relação ao final de maio, o câmbio do euro face ao dólar valorizou-se em 1,3% e o preço do barril de petróleo de Brent desceu 3,75%, mas mantém-se acima de 63 dólares.

A reunião da OPEP (o cartel de 12 exportadores de petróleo) realizada esta sexta-feira em Viena decidiu manter o teto de produção em 30 milhões de barris diários, não alterando a sua estratégia de pressão sobre a produção de petróleo norte-americana a partir do xisto. O cartel prevê que a procura do ouro negro suba no 2ºsemestre de 2015 e em 2016 e considera que terminou a queda abrupta do preço do barril de um pico em meados de junho de 2014 até 18 de janeiro de 2015. No caso da variedade Brent, a descida do preço naquele período foi de mais de 115 dólares para perto de 47 dólares.