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Contágio grego não deve ser desvalorizado

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O impacto do impasse nas negociações entre o governo helénico e os credores oficiais europeus e do FMI continua a fazer sentir-se na dívida da Grécia. Mas não só.

Jorge Nascimento Rodrigues

As yields das obrigações gregas a 10 anos subiram no mercado secundário da dívida 49 pontos base entre o final de abril e o final de maio, a maior subida entre os periféricos do euro (logo seguida da registada para Portugal). Passaram de 10,68% para 11,17%.

Mas este nível continua abaixo do registado no final de março (11,6%), apesar de muitos responsáveis políticos europeus e analistas  financeiros apontarem para um risco elevado de incumprimento parcial da dívida oficial em junho, em virtude de cerca de 1,6 mil milhões de euros em cheques terem de ser passados ao Fundo Monetário Internacional (FMI), incluindo um primeiro a 5 de junho.

Os analistas gregos ouvidos pelo Expresso consideram que o cheque de 5 de junho, de um pouco mais de 300 milhões de euros,  deverá seguir para Washington.

Risco de bancarrota dispara

A subida é mais significativa no custo dos seguros contra o risco de incumprimento da dívida soberana a 5 anos – designados tecnicamente por credit default swaps, cds no acrónimo em inglês – que atingiram durante maio níveis muito próximos dos registados para a Venezuela, o líder mundial do “clube” da bancarrota.

A aproximação do final da extensão do plano de resgate (que termina a 30 de junho para os empréstimos europeus) e as previsões de dificuldade crescente de pagamento da dívida aos credores oficiais em junho, julho e agosto, no caso de não haver uma injeção financeira externa, estão a alimentar o pessimismo.

O facto de a economia grega ter entrada em recessão, com o PIB a cair pelo segundo trimestre consecutivo (-0,4% no 4º trimestre de 2014 e -0,2% no 1º trimestre de 2015), não ajuda.

A situação bancária agrava ainda mais o pessimismo. Os depósitos nos bancos gregos caíram 42% desde dezembro de 2009, uma “fuga” de quase 100 mil milhões de euros (equivalente a mais de 50% do PIB atual). Desde o final de 2014, apenas em quatro meses, a redução já foi de 21 mil milhões de euros, com o mês de abril a registar uma saída de 4,6 mil milhões de euros e diversas fontes do sector bancário a revelarem aos media saídas de 200 a 300 milhões de euros por dia em maio. O montante dos depósitos no final de abril de 2015 regressou ao nível de setembro de 2004, como sublinha o site grego independente Macropolis!

O emagrecimento de depósitos bancários é motivado pelo temor a medidas de controlo de capitais mais tarde ou mais cedo e pela recente exigência do governo helénico para que uma larga maioria de entidades públicas retirem os depósitos dos bancos gregos e os concentrem em contas no banco central. A banca grega está a viver do recurso à linha de liquidez de emergência (conhecida pela sigla inglesa ELA) junto do banco central grego autorizada pelo BCE (cujo teto subiu para 80,2 mil milhões de euros em maio).

O preço dos cds subiu consecutivamente de 1647 pontos base no final de fevereiro, para 2456 no final de março, 2525 no final de abril e 3123 no final de maio. A 29 de maio chegou a cerca de 3800 pontos, o que apontava para uma probabilidade de default de mais de 80%, segundo a CMA.

A rentabilidade anual (nas ultimas 52 semanas) da dívida obrigacionista grega degradou-se ainda mais, estando em terreno negativo, com o índice da Bloomberg a apontar para um agravamento de -19,56% no final de abril para -24,53% no final de maio.

Mais um aviso do BCE

O impacto no resto da zona euro tem-se feito sentir, particularmente nos casos de Portugal, Itália e Espanha. No caso destes dois últimos membros do euro, fatores políticos internos estão também a pesar (resultados das recentes eleições municipais e regionais em Espanha, negativos para o bipartidarismo assente nas duas formações políticas que têm alternadamente governado Espanha desde a adesão ao euro) ou podem vir a afetar (aguardam-se os resultados das eleições locais e em sete regiões em Itália que se realizam este domingo).

Ultimamente registou-se uma tendência para a desvalorização do impacto na zona euro, particularmente nos restantes periféricos, quer de um potencial incumprimento parcial da dívida grega este verão (seja em relação à amortização dos empréstimos do FMI seja em relação às obrigações gregas detidas pelo Banco Central Europeu, adquiridas no mercado secundário aquando do anterior programa SMP de 2010 a 2012) quer, no limite, de uma saída do euro (o que é designado por Grexit) abrupta (“acidente”) ou planeada (com uma série de etapas, que podem envolver desde o controlo de capitais até à introdução em circulação interna de moeda paralela ao euro).

A posição de "desdramatização" do impacto da crise grega foi criticada explicitamente pelo Banco Central Europeu no seu Relatório sobre Estabilidade Financeira publicado esta semana: “Na ausência de um acordo rápido [entre o governo grego e os credores oficiais] nas necessidades de implementação estrutural, o risco de um ajustamento do prémio de risco exigido em relação a economias com dívidas soberanas vulneráveis na zona euro poderá materializar-se”.

“Em 2008, muitos pensaram que os investidores tinham imenso tempo para se prepararem para uma falência do Lehman Brothers, mas a interconexão foi desvalorizada, e o choque financeiro global acabou por ser severo. A Grécia não é obviamente o Lehman, mas o significado económico, político e geoestratégico pode muito bem ser maior do que o peso relativo da economia grega sugere”, afirma-nos o analista financeiro norte-americano Marc Chandler, analista da Brown Brothers Harriman, e autor do blogue “Marc to Market”.