Siga-nos

Perfil

Economia

Dívida

Dívida pública. Ciclo de juros em mínimos históricos terminou?

  • 333

Contágio grego intermitente, à espera de rutura ou acordo interino, reinflação na zona euro e "revolta" dos investidores contra os juros negativos. Abril fechou com subidas mil nos juros da dívida. Com exceção da Grécia, onde desceram nos últimos dias.  

Jorge Nascimento Rodrigues

Abril terminou com subidas mil nos juros da dívida obrigacionista dos membros da zona euro no mercado secundário, com exceção da Grécia.

Assistimos, também, a um recuo da extensão de prazos da dívida pública de sete economias do euro (Alemanha, Áustria, Bélgica, Finlândia, França, Holanda e Irlanda) registando yields negativas no mercado secundário. Ou seja, situações em que os investidores pagam aos emissores soberanos para deterem em carteira os títulos do Tesouro. O recuo mais comentado verificou-se entre 15 e 23 de abril nas obrigações alemãs que chegaram a registar yields negativas até ao prazo de 8 anos inclusive. No final do mês, as yields negativas dessas obrigações só se registavam até ao prazo de 4 anos inclusive.

Os analistas financeiros falam de uma "revolta dos investidores" contra as yields negativas e os mínimos históricos excecionais verificados, inclusive em emissores como Portugal que continuam com notações de dívida especulativa (vulgo "lixo financeiro").

A própria rentabilidade anual (nas últimas 52 semanas) média da dívida obrigacionista de toda a zona euro desceu de 13,58% no final de março para 10,96% no final de abril, segundo dados do Bloomberg Benchmark Sovereign Bond Index. No caso das obrigações portuguesas, a queda foi de 16,22% (então, liderando este índice) para 12,08% no mesmo período. A liderança está, agora, nas mãos da Itália, apesar de ter sofrido, também, uma queda de rentabilidade de 15,88% para 12,48% no período referido.

Alteração do contexto

Como pano de fundo a alteração do contexto na zona euro: um "contágio grego" intermitente (ora dispara, como ocorreu em quase todo o mês de abril até ao anuncio do "refrescamento" da direção política e técnica grega no terreno das negociações no Grupo de Bruxelas e no Grupo de Trabalho do Euro, ora entra em hibernação); a trajetória de re-inflação, com a inflação negativa na zona euro a desaparecer em abril (preços estagnaram, deixando de descer), segundo a estimativa rápida do Eurostat; e o andamento do programa de compras de dívida pública no mercado secundário pelo Banco Central Europeu (BCE), que somava 85 mil milhões de euros de 9 a 24 de abril.

O impacto desinflacionário da descida do preço do barril de petróleo na variação de preços no consumidor na zona euro parou. O preço do barril de Brent subiu 22% em dólares entre o final de março e o final de abril; foram quase 12 dólares por barril. A OPEP tem uma reunião do cartel em junho para reavaliar a decisão de não diminuir o teto de produção tomada em novembro do ano passado. No contravalor em euros, a subida foi de 16%. A rota de desvalorização da moeda única europeia em direção à paridade com o dólar mudou. O euro valorizou em relação ao dólar ao longo do mês em 4,4%, estando agora acima de 1,1 dólares por euro.

As yields das Obrigações do Tesouro português a 10 anos chegaram a subir para 2,23% durante a sessão de quinta-feira fechando a semana e o mês em 2,10%, um disparo de 41 pontos base em relação ao final de março e de mais de meio ponto percentual acima do mínimo histórico de 1,51% em 14 de março.

Surpreendente para os analistas a subida das yields das obrigações alemãs, conhecidas como Bunds, que, na maturidade a 10 anos, duplicaram entre final de março e final de abril, saltando de 0,18% para 0,36%, depois de terem atingido um mínimo histórico de 0,049% a 17 de abril.

Os leilões de dívida obrigacionista realizados no dia 29 pela Itália e Alemanha sinalizaram subidas das taxas médias de remuneração em relação a operações anteriores similares. No caso da emissão sindicada de dívida portuguesa a 10 e 30 anos realizada naquele mesmo dia, as taxas desceram, mas a comparação diz respeito ao lançamento dessas duas linhas de obrigações em janeiro. 

Descida dos juros da dívida grega pode ser passageira

Em flagrante contraste, as yields da dívida obrigacionista grega desceram. Em termos mensais, na maturidade de referência a 10 anos, as yields caíram 92 pontos base, de 11,6% no final de março para 10,68% no final de abril, depois de um pico de 13,6% a 21 de abril.

No entanto, o recuo do risco de bancarrota para níveis de março ainda não se verificou. O custo de segurar a dívida grega a 5 anos contra um incumprimento subiu de 2465,6 pontos base no final de março para 2524,63 pontos base no final de abril, ainda que tenhamos assistido desde 22 de abril a uma descida de um pico de 3914,53 pontos base registado a 21 de abril. Este nível de custo dos credit default swaps (nome dos instrumentos financeiros que seguram a dívida, cds no acrónimo) colocou a Grécia num nível de probabilidade de bancarrota muito próximo dos da Venezuela e da Ucrânia, que continuam, no final de abril, com o preço dos cds acima de 3300 pontos base e com a probabilidade de default acima de 80%.

Deste modo, as yields das obrigações gregas estão a descer nos últimos dias e as dos periféricos e do centro estão a subir, o que não se verificava antes. O contágio grego foi nítido em abril até quase ao final do mês com as correlações médias entre a Grécia e Espanha, Itália e Portugal a dispararem, como o Expresso referiu na edição do 25 de abril.

Os mercados financeiros estão a apostar num acordo entre o governo grego e os credores oficiais até 11 de maio, quando reunirá o Eurogrupo (órgão dos ministros das Finanças da zona euro). Um otimismo que permanece nos últimos dias, apesar da confirmação perante o Parlamento holandês pelo presidente do Eurogrupo, o ministro das Finanças Jeroen Dijsselbloem, que há, de facto, um "Plano B" e que a zona euro está preparada para "todas as eventualidades". E mesmo depois do jornal italiano "La Stampa" ter revelado, esta semana, um alegado plano da Alemanha e do BCE para permitir um default da Grécia sem saída do euro, mas com um custo político, a queda do governo liderado pelo Syriza e a sua substituição por um governo de tecnocratas.

Quando se fala de incumprimento do Tesouro grego, os analistas inclinam-se para a opinião expressa esta semana pela agência de notação Moody's que referia um default em relação à dívida "que está no mercado", ou seja em relação à divida obrigacionista, e não ao Fundo Monetário Internacional (dívida derivada dos empréstimos feitos no âmbito do resgate). O risco de default nas obrigações pode colocar-se em julho e agosto quando vencem capital e juros num total de 7,5 mil milhões de euros, com o BCE a deter títulos gregos em carteira. Ora, julho e agosto são meses já fora do atual período de extensão do plano de resgate decidido em fevereiro. A Moody's especificou este seu receio nas justificações para o corte do rating da dívida grega de longo prazo de Caa1 para Caa2, ou seja de risco substancial para extremamente especulativa.

Em maio, o Tesouro grego tem de passar dois cheques ao FMI num total de 963 milhões de euros, o primeiro dos quais já a 6 de maio, e tem de refinanciar 2,8 mil milhões de euros em bilhetes do Tesouro a 8 e 15 de maio. Um coordenador do Grupo de Trabalho do Euro já admitiu que o Tesouro grego conseguirá recursos internos para cumprir com o FMI.

A Reuters publicou esta sexta-feira um despacho referindo que, mesmo "não sendo boa ideia", se houver um incumprimento seletivo em relação aos pagamentos de tranches ao FMI ou às obrigações detidas pelo BCE isso não implicará automaticamente um corte do rating para default pelas principais agências de notação que ouviu.

Não movemos uma polegada

A estratégia do governo helénico é a de conseguir o que é designado por um "acordo interino" nos próximos dias, como tem sublinhado o jornal grego "Protothema", um compromisso que admite algumas concessões em pontos de divergência até há algum tempo atrás (nas privatizações sobretudo, um recuo com largo impacto nos media internacionais), mas sem abandono do essencial das "linhas vermelhas" anti-austeridade. Até esse acordo a curto prazo, "não movemos uma polegada" em matéria de compromissos mais substanciais, clarificou o ministro das Finanças Yanis Varoufakis, secundado pelas declarações do primeiro-ministro Alexis Tsipras na primeira entrevista televisiva que concedeu e na reunião do conselho de ministros que se realizaou esta semana. Concessões mais substanciais só depois. O ministro do Trabalho, Panos Skourletis, foi particularmente enfático neste 1º de Maio: "As nossas linhas vermelhas são profundamente vermelhas e inamovíveis".

No entanto, a posição inflexível da última reunião do Eurogrupo foi de rejeição de um tal tipo de acordo intermédio e o clima entre os pares azedou-se em relação a Varoufakis. Por seu lado, o porta-voz do FMI, Gerry Rice, disse esta semana que "não podemos concluir a [5ª] revisão [do andamento do plano de resgate] só com umas quantas medidas" acordadas. Pelo que a reação negativa dos mercados financeiros e o contágio grego podem regressar.

As negociações entre as equipas gregas e os credores oficiais continuam este fim de semana. A 6 de maio há que passar o cheque de 200 milhões de euros em juros devidos ao FMI e no mesmo dia o BCE reunirá para abordar temas fora da política monetária. O objetivo imediato do governo de Tsipras com a assinatura de um "acordo interino" é levar o BCE a autorizar o aumento do teto de emissão de Bilhetes do Tesouro grego  e a permitir uma maior participação da banca helénica nessas emissões de dívida de curto prazo. Os próximos dias dirão se o objetivo é atingido ou se o impasse continua.