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Hanergy. Um gigante chinês da energia solar à beira do colapso?

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O que levou a Hanergy Thin Film Power, a maior cotada do mundo na área de energia solar, a  perder metade do seu valor em apenas 24 minutos? A Goldin, sua parceira, seguiu o mesmo caminho e colapsou em Bolsa. A história recente da Hanergy, que em 2013 tentou investir em Portugal, está rodeada de negócios controversos.

Era uma estrela na Bolsa de Hong Kong. Tudo mudou. Em 24 minutos perdeu cerca de metade do seu valor, que no total ascendia a 40 mil milhões de dólares. Aconteceu no passado dia 20 de maio. A negociação das ações foi suspensa.

Ainda não se sabe ao certo o que levou a esta queda que ocorreu após o início da assembleia geral da empresa. O fundador e presidente do grupo, Li Hejun, não compareceu, tendo antes estado presente num outro evento. E tudo indica que o presidente e fundador do grupo aumentou a aposta contra a própria Hanergy dias antes do colapso das ações, referem as agências internacionais citando documentos que a empresa enviou ao regulador.   

O grupo está agora a ser investigado pelo regulador da Bolsa, por suspeitas de  manipulação do mercado, diz a agência de notícias Reuters.

A Hanergy não foi a única. Arrastou consigo duas cotadas do grupo Goldin, que foi quem assessorou a empresa de energia em várias operações. A Goldin Financial afundou 60% em Bolsa de uma assentada. No total, as três empresas perderam 42 mil milhões de dólares, segundo a Reuters.

O regulador da Bolsa de Hong Kong avisou em Março os investidores acerca da Goldin. E tem lançado alertas sobre o investimento em 'estrelas' do mercado cujas valorizações não condizem com a evolução real dos seus negócios.  

Desde o início de 2014, a Hanergy ainda soma ganhos de 270%, já descontando a queda recente.  Este ano ainda regista uma subida de 40%. A Goldin Financial regista uma subida de 125,6% só este ano. Desde o início de 2014 acumula ganhos de 446%, já tendo em conta a recente descida.

São casos de empresas que beneficiaram da inundação de capital proveniente da China na sequência da criação da ligação entre as bolsas de Hong Kong e Xangai.  

Um parceiro privilegiado da Ikea   
A Hanergy Thin Film é uma empresa especializada no fabrico de módulos solares com a tecnologia de "filme fino", isto é, uma película de células fotovoltaicas que pode ser aplicada em várias superfícies, incluindo o vidro, para aproveitar o sol e produzir eletricidade. Mas se o sol permitiu à companhia chinesa uma ascensão meteórica, o sobreaquecimento do negócio da energia solar ameaça agora derreter rapidamente um gigante que chegou a valer 300 mil milhões de dólares de Hong Kong, o equivalente a 35 mil milhões de euros ou 40 mil milhões de dólares.

No seu relatório e contas de 2014, publicado no mês passado, a Hanergy Thin Film dava conta do potencial de negócio que os seus produtos têm em mercados como o europeu, onde a procura por energias renováveis continua em alta. Um dos mais importantes clientes da empresa chinesa é a sueca Ikea, que no ano passado comercializou 2000 equipamentos da Hanergy para produzir energia em casa.

As soluções da fabricante chinesa estão a ser comercializadas nas lojas Ikea de Inglaterra, Holanda e Suíça, com planos para serem vendidas noutros mercados europeus, como Alemanha, Espanha, Itália e França.    

Embora Portugal não conste dos mais recentes planos da Hanergy para expansão da sua operação de venda de equipamentos a clientes residenciais, o nosso país já esteve no radar da companhia chinesa: em 2013 o grupo comunicou ao mercado estar a preparar a aquisição de duas centrais fotovoltaicas de 2,2 megawatts (MW) cada uma, em Portugal. Mas o negócio não chegou a concretizar-se.    

A Hanergy tem vindo a tentar ganhar notoriedade global: além do acordo de distribuição com a Ikea, a empresa tem uma parceria com a Aston Martin pela qual equipa os carros de corrida desta marca com as suas células para aproveitamento de energia solar, e mantém um acordo de cooperação com a norte-americana Tesla.

Em outubro do ano passado a Hanergy Thin Film abriu uma subsidiária nos Estados Unidos da América, com sede em Silicon Valley, focada no desenvolvimento de aplicações práticas para o "filme fino" de energia solar, em automóveis, produtos eletrónicos, roupa, mochilas, entre outros produtos.    

A Hanergy Thin Film alcançou em 2014 vendas equivalentes a 1,1 mil milhões de euros, quase triplicando a faturação do ano anterior. Mas o calcanhar de Aquiles está na elevada exposição ao seu maior acionista: 62% das vendas da Hanergy Thin Film têm como comprador o próprio grupo Hanergy.

O que é a Goldin Financial Holdings?   
Igualmente cotada na bolsa de Hong Kong, a Goldin Financial Holdings é um conglomerado que não só opera na área financeira como também tem negócios na área dos vinhos e do imobiliário. Em 2011 entrou no mercado vinícola norte-americano, adquirindo terrenos em Napa Valley. E em 2013 apostou em França, comprando terrenos na região de Bordéus.

Na área financeira a principal operação da Goldin é o "factoring", com o qual ajuda as empresas a melhorar a sua tesouraria e a reduzir o risco de crédito associado às exportações. Foi justamente pelos seus serviços financeiros que a Goldin foi contratada pela Hanergy Thin Film. Segundo a agência Reuters, esta última contratou a Goldin Financial Holdings em fevereiro deste ano para a apoiar num negócio de venda de painéis solares à casa-mãe, o grupo Hanergy.