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Draghi manda preparar mais estímulos monetários

Thomas Lohnes/Getty Images

Numa demonstração de que detém as rédeas do Banco Central Europeu, o presidente Mario Draghi anunciou que os técnicos vão estudar mais medidas adicionais não convencionais, para estarem prontas caso necessário. Sublinhou que essa decisão foi unânime, calando as especulações de rebelião interna.  

"No caso de vir a ser necessário enfrentar riscos de um período demasiado prolongado de inflação baixa, o Conselho de Governadores está unânime no seu compromisso de usar instrumentos não convencionais adicionais no âmbito do seu mandato", repetiu a comunicação do Banco Central Europeu (BCE) na conclusão da sua reunião mensal desta quinta-feira. Mas acrescentou uma novidade, como bem sublinhou Mario Draghi, o seu presidente, na conferência de imprensa subsequente: "O Conselho de Governadores incumbiu os técnicos do BCE e comités relevantes do sistema do euro de garantirem a preparação atempada de mais medidas para serem implementadas, caso necessário".

Sem novidades em matéria de alterações de taxas diretoras, a expetativa virava-se para a conferência de imprensa em Frankfurt de Mario Draghi, em busca de "sinais". E o italiano deu duas novidades, segundo ele próprio frisou.

A primeira novidade é que o BCE quer ter na gaveta, para implementar em caso de emergência, mais estímulos monetários se o pacote em curso até 2016 não se revelar suficiente na expansão do balanço do banco em mais 1 bilião de euros. O estudo do tipo e dimensão dessas novas medidas vai "envolver uma variedade de gente", disse Draghi, sem especificar publicamente um prazo, mas sublinhando que "temos de estar preparados", pois há "contingências" que poderão obrigar a tomar tais medidas adicionais de um momento para o outro.

Sobre o tipo de medidas potenciais, Draghi não abriu o jogo, mas frisou que serão tomadas todas as que não forem "financiamento monetário" (jargão para financiamento direto aos governos da zona euro), todas as que o "mandato" do BCE permitir. O analista norte-americano Marc Chandler tem colocado a hipótese do BCE avançar para a compra de dívida obrigacionista supranacional, como a emitida pelo Mecanismo Europeu de Estabilidade, a própria União Europeia e o Banco Europeu de Investimento.

Face às especulações de rebelião interna contra o seu estilo de liderança, que vieram a público esta semana, o presidente do banco central frisou, por diversas vezes, que as decisões tomadas esta quinta-feira em Frankfurt foram unânimes e ironizou que no jantar da véspera não notou nada de anormal, apesar de ele não ter o dom da ubiquidade. "O jantar correu muito bem, mesmo melhor do que o esperado", respondeu à jornalista da Reuters, Eva Taylor, que publicara o artigo falando do mal-estar interno no BCE. Draghi não poupou esforços a mostrar publicamente que continua a ter as rédeas do BCE e que a dissidência sobre as decisões não se verificou, ainda que seja "perfeitamente normal discordar".

 

Aumentar o balanço em €1 bilião

Draghi chamou, ainda, a atenção para outra novidade, tomada, também, por unanimidade. A expetativa do conselho é que as medidas em curso desde setembro tenham um impacto de ampliação do balanço do banco de modo a este regressar à dimensão que tinha em março de 2012. Trocado por euros, mais 1 bilião de euros.

O presidente do BCE frisou que deverá ser dada atenção não só à ampliação da dimensão do balanço como também à sua composição, "um aspeto que muitas vezes é esquecido".

Ora esta ampliação deverá ser encarada com atenção pelos mercados financeiros, tal como olharam para o "choque Kuroda", ou seja, para a decisão do Banco do Japão no final de outubro ao ampliar significativamente o seu programa de estímulos monetários. Draghi frisou que há uma "divergência" a que os mercados deverão dar atenção. "Enquanto o balanço de outros bancos centrais se vai contrair, o do BCE vai ampliar-se em quaisquer circunstâncias, seja por efeito das medidas já em curso, seja por se poder vir a fazer mais", frisou piscando o olho aos investidores financeiros.

A perspetiva do Conselho do BCE é que as medidas em curso desde setembro - duas novas operações de refinanciamento de longo prazo aos bancos obrigando-os a direcionar o crédito para a economia real (conhecidas pela sigla TLTRO), compra de obrigações garantidas por hipotecas que se iniciou em outubro e compra de dívida de empresas titularizada (acrónimo ABS em inglês) que se iniciará ainda este mês - sejam suficientes e cumpram o objetivo de mais 1 bilião de euros até junho de 2016. Recorde-se que a primeira operação de TLTRO teve uma procura fraca, abaixo das previsões dos analistas, mas uma segunda decorrerá ainda em dezembro. O programa de compra de obrigações garantidas, que arrancou a 15 de outubro, já envolveu cerca de 4,8 mil milhões de euros.

Draghi criticou, também, por diversas vezes, os que acusam o BCE de se estar a transformar num "banco mau", nomeadamente ao entrar pelo campo da compra de ABS. Recordou que um estudo da agência Fitch conclui que o BCE "assume um risco mínimo" nesse campo.

 

Correspondência sobre a Irlanda tornada pública

O BCE publicou esta quinta-feira a correspondência trocada entre o BCE e a Irlanda aquando da fase crítica que conduziu ao resgate do país em 2010. Passaram a estar disponíveis quatro cartas, entre elas a enviada pelo então presidente do BCE, Jean-Claude Trichet, ao ministro das Finanças irlandês, então confidencial, em novembro de 2010, poucos dias antes do pedido de resgate realizado pelo governo irlandês. Essa carta foi divulgada esta quinta-feira de manhã pelo jornal "The Irish Times" ainda antes do BCE ter desclassificado essa correspondência.

Na interpretação do BCE, não foi a carta de Trichet que "empurrou" a Irlanda para o resgate, mas a dimensão da crise interna. Draghi referiu-se a essa troca de missivas de então como um "diálogo" e aconselhou: "Leiam as quatro cartas que vos dão a história completa". O italiano rematou que, olhando para a evolução da Irlanda, e nomeadamente para a previsão de ser a economia que mais crescerá em 2015 na zona euro, se pode concluir que "tal decisão [em 2010] provavelmente não foi assim tão estúpida".