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Pai, sobe a semanada

Pai, sobe a semanada

Crianças que poupam e gerem, desde cedo, recheiam mealheiros e tornam-se mais responsáveis. Cabe aos pais dar o exemplo

Ana Pimentel

Controlar os caprichos dos mais novos nem sempre é tarefa fácil para os pais. O valor que cada família estipula por semana ou mês pode ajudar a criança a ter uma relação saudável com o dinheiro, mas há que ter alguns cuidados. Os pais devem evitar dar todos os bens que os filhos pedem, segundo Catarina Rivero, psicóloga e terapeuta familiar. "É natural, numa sociedade em que o tempo familiar é cada vez mais curto, que os pais tendam a procurar de algum modo compensar a sua ausência. Contudo, essa ‘compensação' só faz sentido se for através de carinho, afecto, atenção e diálogo", explica.

Não existe uma idade ideal para se iniciar a mesada, de acordo com Sara Bahia, professora da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Lisboa. "Os pais podem começar a estabelecer este valor quando as crianças começam a ser menos centradas no seu ponto de vista, entendem o conceito de troca, compreendem que há diferentes valores, são cuidadosas na forma como guardam as suas posses e sabem esperar."

Aos 7 anos, uma criança já começa a ter capacidade para ter noção dos gastos, ganhos e de como estes podem ser influenciados pelas suas opções. Contudo, Catarina Rivero adianta que "é a partir dos 10, 11 anos que as crianças começam, regra geral, a ter uma maior independência e a pedir dinheiro com maior regularidade".

Os mais novos devem começar pela semanada, deixando a mesada para os adolescentes. O valor destas deve ter em conta as possibilidades da família e pode ser negociado com a própria criança. Desta forma, ela fica a perceber que as quantias se destinam apenas a alguns gastos, como guloseimas ou a compra de revistas. "Dependendo da idade, os valores podem variar entre 2 e 4 euros por semana, um pouco menos de 0,50 euros por dia", esclarece Sara Bahia. "Considerar na mesada a mensalidade de uma actividade que a criança goste e frequente ou o dinheiro gasto no telemóvel pode ajudá-la a ter consciência do seu valor e custo, desenvolvendo um sentido de responsabilidade", salienta Catarina.

Associar a mesada aos resultados escolares ou ao cumprimento das tarefas domésticas é má política. "A mesada não deve ser considerada como um prémio, mas como parte da sua educação. Dar dinheiro à criança porque lavou a loiça ou fez a cama perverte a noção de responsabilidade pelas tarefas que todos temos no seio familiar", justifica Catarina. Sara Bahia adianta também que a mesada deve ser associada a um voto de confiança, através do qual os pais explicam que o seu comportamento já é suficientemente responsável.

Tal pai, tal filho

O papel dos pais é preponderante para que os filhos percebam o que se compra por necessidade ou meramente por desejo. "É fundamental que os pais dêem o exemplo. A participação das crianças nas conversas sobre as despesas familiares é uma forma de conceber o dinheiro como um recurso esgotável", esclarece Catarina.

Todos devem respeitar as regras da mesada: os pais não falham e as crianças dão satisfações acerca do que gastam.

Se quiserem comprar algo mais caro, podem negociar um "crédito", como duas ou três semanadas de uma só vez.

Quando a criança não consegue gerir a mesada até ao fim, os pais devem evitar adiantamentos. "Por muito que fiquem ansiosos, lembrem-se que os bens essenciais estão garantidos. Conversar com a criança sobre a gestão do dinheiro, perceber como o gastou, no que poderia ter poupado e procurar soluções para os meses seguintes, permite que um erro se transforme numa oportunidade de crescimento", explica a terapeuta Catarina. "Os pais devem ter o cuidado de ir perguntando pela semanada, uma ou duas vezes por semana. Quando a criança não consegue geri-la, podem verificar a gestão na semana seguinte", acrescenta Sara Bahia.

"Incentivar a criança a criar uma poupança (o mealheiro), onde pode recorrer em caso de 'maior necessidade', pode ainda incentivar a mantê-la, criando um hábito que se espera para a vida adulta", explica Catarina Rivero.