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Empresas menos arriscadas que os Estados

Nos Estados Unidos, já há empresas a emitir obrigações com taxas de juro inferiores às exigidas pelos investidores para comprar obrigações do Estado, devido ao elevado nível da dívida norte-americana.

Luis Caleira Marques

As taxas de juro pedidas pelo mercado aos vários países têm sido alvo dos media ao longo de 2010, principalmente devido ao que a Grécia chama de ataques de especuladores à sua dívida. Com vários Estados com problemas de défices orçamentais e com níveis de dívida pública cada vez maiores, os investidores já não estão dispostos a emprestar dinheiro a qualquer taxa, pretendo ser recompensados por arriscarem num país com dificuldades económicas. Portugal não tem sido a vítima principal desta situação mas cada vez que se fala na Grécia é colocado Portugal como o "próximo alvo".

Mas este aumento não é exclusivo dos países Europeus. Numa altura em que se fala da possibilidade de pela primeira vez os Estados Unidos da América verem as agências de rating diminuir a sua notação, as yields, o rendimento anual, das obrigações norte-americanas são superiores à taxa pedida pelo mercado para emprestar a quatro grandes empresas norte-americanas, Procter & Gamble, Johnson & Johnson, Lowe's e Berkshire Hathaway.

Para Álvaro Pereira, professor da Simon Frasier University (Vancouver, Canadá) e autor do blogue Desmitos, "o que os mercados nos parecem estar a dizer é que vêem a dívida destas empresas como sendo de certa forma menos arriscada do que a dívida do governo americano. Como a dívida pública americana tem aumentado muito nos últimos anos, e como essa mesma dívida já começa a ter dimensões muito razoáveis (em termos absolutos e em percentagem do PIB), começa a haver alguma desconfiança sobre a sustentabilidade das contas públicas".

Por cá, ainda não

Em 2010 os dois maiores bancos cotados, BES e BCP já realizaram operações de financiamento a prazos diferentes, no entanto, as taxas solicitadas pelo mercado foram sempre superiores às solicitadas ao Estado Português. O empréstimo obrigacionista a 5 anos lançado pelo BES foi financiado a 3,875% quando nesse dia era pedido ao Estado 3,024%. O empréstimo lançado com menor tempo até atingir a maturidade, o empréstimo de 2 anos do BCP, permitiu ao banco financiar-se a 2,375%, juro superior em mais de 1% aos 1,309% pedidos a Portugal.

Poderá acontecer em Portugal uma empresa financiar-se a uma taxa inferior à do País? "É natural que possamos chegar a uma situação semelhante, principalmente se a dívida pública nacional continuar a subir, como tem acontecido nos últimos anos". Como impedir então que se chegue a esse ponto? "Só há uma solução: atacar verdadeiramente a principal razão do desequilíbrio das contas públicas nacionais, que é o crescimento desmesurado das despesas públicas".

Muito se tem escrito sobre esta situação da dívida e sobre a responsabilidade dos especuladores, no entanto "se formos vítimas de uma maior acção especulativa, poderemos estar certos que tal acontecerá tanto devido a um efeito de contágio (por causa da Grécia), como graças a nós próprios (isto é, por não termos conseguido pôr as nossas contas públicas em ordem)".