Siga-nos

Perfil

Economia

Dinheiro

Assegure já uma reforma descansada

Saiba como construir uma plano poupança reforma à sua medida sem hipotecar o presente. 

Joaquim Madrinha

Pensar na reforma vinte ou trinta anos antes não é um exercício agradável. As responsabilidades financeiras e os planos de curto prazo adiam sempre a questão para mais tarde. É certo que o Estado nunca vai deixar de pagar reformas, mas quando se sabe que a taxa de substituição - valor da pensão relativo ao último vencimento - será entre 60% e 70%, para quem se reformar após 2030, e entre 50% e 60% para quem se reformar após 2040, a questão torna-se uma emergência. É imperativo poupar. Eis alguns conselhos para construir o seu complemento de reforma

Defina um plano

A primeira questão que surge no planeamento da reforma é: quanto se deve poupar sem hipotecar o presente? Segundo a teoria do ciclo de vida defendida pelo prémio Nobel da economia Franco Modigliani, o peso das despesas de consumo e de investimento no rendimento mensal diminui à medida que a carreira profissional evolui. Ou seja, deve-se aproveitar o aumento do salário para poupar. Assim, para quem está no início da carreira profissional-por volta dos 25 anos -, a poupança mensal deve ascender a 5% do vencimento até aos 35 anos; 8%, entre os 36 e os 45 anos; e 10% entre os 46 e os 65 anos. Desta forma conseguirá acumular o suficiente para viver até aos 85 anos, uma idade já superior à esperança média de vida, com uma renda mensal equivalente ao último salário recebido e ainda deixar qualquer coisa aos herdeiros. Isto assumindo que o salário cresce a uma taxa média de 2% por ano, que a poupança acumulada capitaliza a uma taxa média anual de 5% e que, após a reforma, continuará a investir num produto conservador que renda anualmente 2%. Difícil? Não. Basta seguir algumas regras.

Comece já!

Começar cedo a poupar permite investir em activos de risco para conseguir obter uma taxa de capitalização maior.

Começar cedo a poupar permite investir em activos de risco para conseguir obter uma taxa de capitalização maior.

Quanto mais cedo começar, mais o dinheiro trabalha para si. O fenómeno é explicado pelo que Albert Einstein chamou "a maior descoberta matemática de todos os tempos", mas não é necessário ser um génio para perceber o efeito do fenómeno da capitalização nos investimentos. Imagine o seguinte exemplo: Ana e Carlos, de 25 e 45 anos, têm o objectivo de chegar à idade legal da reforma (65 anos) com uma poupança de 250 mil euros. Se começarem já, enquanto a Ana poupa 101,1 euros por mês para um produto financeiro com uma rendibilidade potencial de 8%, o António terá de poupar mensalmente 492,6 euros. Ter mais anos para beneficiar do fenómeno da capitalização permite diluir o esforço de poupança e maximizar o resultado, pois, apesar de ter poupado durante mais tempo, a Ana investiu apenas 48,5 mil euros enquanto o Carlos teve de poupar 118,2 mil euros, mais do dobro. Houve, no entanto, algo que ambos fizeram bem: investiram periodicamente, independentemente do humor dos mercados. Esta automatização das aplicações suaviza o desempenho da rendibilidade do 'bolo' total. É por isso importante escolher produtos que permitam entregas periódicas de baixo valor.

Arrisque, se puder

começar cedo permite também investir em acções e, assim, tentar obter uma taxa de capitalização maior. Isto porque as acções, apesar de terem risco, são os activos mais rentáveis no longo prazo. Prova disso são as rentabilidades de alguns fundos de acções, como é o caso do fundo BPI Europa, um fundo de acções europeias que regista um retorno anualizado de 7% desde que foi lançado em 1991. É devido a este facto que os famosos planos poupança reforma (PPR) não são aconselhados pela Deco a pessoas com idade inferior a 40 anos. Estes produtos têm benefícios fiscais muito apelativos, mas só podem investir até 55% da carteira em acções. Logo, nestes casos, deve-se constituir uma carteira de produtos com um risco e uma rendibilidade potencial superior e, depois, à medida que se aproxima a idade da reforma, reduzir a exposição aos activos mais voláteis.

Quanto aos produtos, enquanto não atinge a idade adequada para ter um PPR, opte por fundos de investimento. A maioria não cobra comissões de subscrição e resgate, que são nefastas para o resultado final do investimento, e permitem uma gestão flexível por parte do aforrador.

Texto publicado no caderno Economia da edição do Expresso de 10 de Abril de 2010.