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De imigrante a patrão

Chegaram com as malas cheias de sonhos, porém, a vida nem sempre lhes sorriu. Batalharam, trabalharam a troco de quase nada, mas conseguiram abrir negócios próprios.

Helena C. Peralta

Ala Bendershi, 44 anos, actual proprietária do restaurante russo Stanislav, em Cascais, nunca pensou que um dia passasse fome. Licenciada em Economia, pela Universidade de Quieve, e casada com um engenheiro electrotécnico, tinha uma vida estável na Moldávia. Dona de um restaurante nos arredores da capital, Chisinau, construído pelo casal, não se podia queixar da vida que tinha.



A emigração só lhe ocorreu quando sentiu que a corrupção e as máfias locais lhe estavam a prejudicar o negócio. "Trabalhávamos bem, mas era difícil sustentar as redes à nossa volta. Pagávamos para receber os fornecimentos completos e até para ter o restaurante aberto", relembra. Venderam o estabelecimento decidiram fazer as malas e embarcar rumo ao país de Camões, em 1999. Tinham um único contacto, que morava algures em Braga.

Sem saber português



Ao chegarem a Portugal, as coisas não podiam ter corrido pior: o elo de ligação falhou. Sem articular uma única palavra de português e com pouco dinheiro no bolso, a família sentiu-se perdida. Com a ajuda do filho de 10 anos, Stanislav, que falava inglês, conseguiram arranjar uma pensão onde dormir. "Ao fim de duas semanas já não tínhamos dinheiro. Sem emprego à vista, era impossível continuar a pagar a pensão", relembra Alla Bendershi.

Esta moldava encontrou-se na mesma situação difícil de muitos dos imigrantes que têm chegado a Portugal nos últimos anos. São na sua maioria brasileiros, cabo--verdianos, ucranianos, angolanos e guineenses. Vêm quase todos procurar melhores condições de vida, e trazem no sangue a vontade de arriscar. Talvez por isso, "e tal como a tendência observada noutros países de acolhimento, os imigrantes em Portugal tornam-se mais propensos à iniciativa empresarial do que a população local", revela Catarina Reis Oliveira, coordenadora do Gabinete de Estudos e Relações Internacionais do Alto Comissariado para a Imigração e Diálogo Intercultural (Acidi) no relatório "Imigração e mercado de trabalho". Segundo o mesmo estudo, foi a partir das últimas três décadas que o fluxo migratório se tornou mais visível e os empresários imigrantes aumentaram.

Dados concretos sobre o número destes empreendedores não existem. O Serviço de Estrangeiros e Fronteiras recolheu, durante algum tempo, a condição profissional de quem recorre a pedidos de residência, mas deixou de o fazer. Sabe-se, no entanto, segundo os dados disponíveis no Instituto Nacional de Estatística, dos últimos censos, que entre 1981 e 2001, a percentagem de trabalhadores estrangeiros por conta própria face ao total da população activa estrangeira (10,2%) era superior à percentagem equivalente da população activa portuguesa (9,8%).

Fazer pela vida



Os imigrantes da Europa do Leste eram, em 2001, os menos empreendedores, mas o fluxo de entradas era muito menor nessa altura. Quando Ala Bendershi chegou a Portugal a população da ex-União Soviética ainda tinha descoberto o país, e era raro ouvir-se russo nas ruas. Talvez por isso tenha considerado um milagre ter encontrado uma conterrânea sua, no comboio, que reconhecendo a língua, lhes ofereceu ajuda.

Com algum apoio, as coisas melhoraram. A família esteve num apartamento emprestado algumas semanas. Para sobreviver vendeu todo o ouro que trazia. Entretanto Ala, ainda sem documentos, apenas conseguiu um emprego precário: lavava pratos num restaurante, das 11 horas da manhã à meia-noite, onde ganhava 60 contos mensais. O marido arranjou trabalho nas obras e, assim, alugaram o seu primeiro apartamento, em Tires. Teve a sorte de conseguir que um padre levasse o filho para a escola dos Salesianos, em Cascais. Ala conta, com os olhos chorosos, que andava tão triste que o seu marido lhe comprou um frasco de perfume francês com o primeiro ordenado que recebeu, na tentativa de a animar.

Porém, a sorte começou a sorrir-lhe. Começou a fazer limpezas em casa de uma senhora rica, onde já recebia 600 euros por mês, e a dar aulas de Russo à noite, dando-lhe um rendimento de 1000 euros mensais. Puderam então mudar-se para um apartamento maior, no Estoril. "O meu marido dizia que tínhamos de viver perto dos ricos, pois sempre nos havia de calhar algumas migalhas", graceja Ala Bendershi.

Mas não estava feliz, pois alimentava o sonho de abrir um restaurante russo. Oportunidade que surgiu dois anos depois, ao descobrir um espaço com uma renda acessível, no Monte Estoril. Investiu as suas parcas economias - 5 mil euros -, fez obras e deu ao restaurante o nome do filho, Stanislav. Há um ano e meio instalou-se no centro de Cascais. Depois de vários anos a cozinhar - sopa borsch, strognoff e almôndegas são algumas das suas especialidades -, contratou recentemente um cozinheiro profissional na Moldávia. Hoje Ala Bendershi já não se arrepende de ter deixado o seu país, e sente-se uma mulher realizada. Apesar de ter aberto o espaço que ambicionava, decorado por si, com fotos de florestas da Moldávia, alimenta outro sonho: abrir um segundo restaurante em Lisboa.

Brasileiros em maioria



Os brasileiros são actualmente o grupo étnico que mais se instala em Portugal, destronando os cabo-verdianos do topo da lista. Segundo um estudo recente da Acidi, "Imigração brasileira em Portugal", esta comunidade cresceu cerca de nove vezes entre 1996 e 2003, sendo constituída, cada vez mais, por pessoas com menores qualificações. Em 1991 a maior parte dos brasileiros trabalhava em profissões liberais, hoje trabalha em áreas menos qualificadas.

Com habilitações e sem emprego



Ricardo Amaral Pessôa aterrou em Lisboa em 1991. Nascido em Minas Gerais há 52 anos, este brasileiro criado em Brasília diz ser o mais aventureiro de sete irmãos, já que foi o único que saiu do país. Com frequência universitária, já ocupava cargos de responsabilidade quando decidiu partir. Foi director de uma fábrica de sistemas de tratamento de águas e saunas, gerente do International Othon Palace Hotel, e responsável de segurança do Hospital da Beneficência Portuguesa, em Recife. Foi aqui que começou a ter contacto com empresários portugueses, que o desafiaram a vir para Portugal. Tinha então 34 anos e dois filhos pequenos, Sarah, com 9, e Ricardo, com 12, de quem lhe custou separar

Com um bom currículo na bagagem, confessa que nunca esperou encontrar tamanhas dificuldades. Tinha conhecimentos e amigos portugueses, mas daqueles que há 18 anos lhe prometeram trabalho, não recebeu um só convite. Entregou propostas em empresas de segurança e hotelaria, mas, sem documentos, era impossível ser chamado. Para sobreviver, aceitou de tudo: trabalhou nas obras da Universidade Lusíada, como electricista, e vendeu time-sharing de porta em porta. "Em 1993, deixei as obras, fui trabalhar para uma empresa em Lisboa e ingressei no curso de Direito, na Lusíada. Toda a gente achava estranho que o electricista aparecesse de fato e gravata", comenta.

Nesta altura teve de chamar o seu filho mais velho, porque as dificuldades da mulher, de quem se veio a divorciar mais tarde, eram inúmeras. Como não tinha onde deixar a criança, levava-a consigo, tanto para as obras, de dia, como para as vendas, à noite. Foram tempos difíceis, mas nunca se arrependeu.

A vida começou a sorrir-lhe quando finalmente arranjou emprego como director comercial de uma empresa de segurança. Depois de alguns anos nessa companhia, optou por se lançar por conta própria. Foi assim que surgiu a RAP (iniciais de Ricardo Amaral Pessôa), uma empresa de segurança privada, com sede em Fernão Ferro. "Foi com muita dificuldade que iniciei este projecto. A companhia onde estava ficou a dever-me 125 mil euros, por isso não tinha dinheiro para iniciar o negócio. Pedi 7500 euros emprestados a um amigo", conta.

A RAP vende e monta sistemas de detecção de intrusão, incêndio e circuito fechado de televisão. Conseguiu conquistar alguns clientes do antigo local de trabalho e nos primeiros meses já tinha centenas de placas espalhadas pela Margem Sul. Hoje tem mais de 2 mil clientes, entre particulares e empresas, algumas com contratos de manutenção.

Acredita que o negócio tem pernas para andar, mas, sente que a falta de mão-de-obra qualificada é um dos principais entraves ao crescimento. "Tenho quatro empregados e gostava de poder contratar mais dez, para a área técnica e comercial. Mas não arranjo ninguém com o mínimo conhecimento de electrónica", afirma Ricardo Amaral Pessôa.

De patroa a criada



Ana Maria Figueiredo, 46 anos, nasceu em Moçambique, na ilha de Ibo, no seio de uma família abastada. Tinha empregadas e nunca precisou fazer nada em casa. Quando chegou a Portugal e foi obrigada a fazer limpezas e passar a ferro, disfarçava a sua inexperiência nesse tipo de trabalhos. "Fui preparada para saber ter e deixar de ter", conta com orgulho. E, de facto, a família perdeu quase tudo, mas mesmo assim a decisão de abandonar a terra natal não foi fácil.

Ana Maria Figueiredo tinha um emprego estável - era funcionária bancária -, porém achava que o país não tinha condições para dar uma boa educação à filha de 5 anos, Sheila. A irmã já estava em terras lusas há sete anos, e só a morte do pai a empurrou para cá, em 1983. Vendeu o pouco que tinha - alguns terrenos que herdou - e veio tentar a sorte. Fez limpezas durante alguns meses, até que conseguiu um emprego, como administrativa, numa construtora na Parede. A empresa pertencia a Vítor Catarino, com quem criou enorme empatia.

Ana Maria era uma funcionária empenhada e eficiente, e como tal foi evoluindo profissionalmente. Em 1989, com algum capital que tinha acumulado, apresentou ao patrão um projecto para a criação uma sociedade de exportações para o continente africano, que foi aprovado com agrado. Ficou com 51% do capital da companhia que comercializava produtos alimentares básicos, como óleo, arroz, açúcar, farinha e vinho. Vendia também sabão e palha-d'aço. "Este produto fez um enorme sucesso, espalhou-se rapidamente por São Tomé, Gabão, Angola. Corremos a África toda", diz Ana Maria.

Mas quis o destino que a fortuna lhe fugisse novamente. Em 1994, após o genocídio de Ruanda, que trouxe de novo a guerra a África, perderam tudo. "Os contentores desapareceram, os armazéns foram assaltados, o negócio acabou", conta Vítor Catarino, sócio com quem Ana Maria veio, mais tarde, a casar e de quem tem um filho de 11 anos, Cristiano. Além da sociedade de exportações, a empresária continuava a trabalhar arduamente como gerente na construtora, da qual também já era sócia, e que se passara a chamar VCS. Especializou-se em estruturas de cimento armado para portos e refinarias e internacionalizou-se para Itália, França e Espanha. No ano 2000 já Ana Maria geria todo o negócio, que entretanto se mudara para o Fogueteiro, Setúbal.

O marido passou-lhe toda a gestão para se dedicar à prospecção de ouro e diamantes em África. Ana Maria, empreendedora nata, não conseguiu ficar por aqui e abriu uma clínica de medicina tradicional chinesa e uma clínica dentária, no edifício da sede da VCS, e um restaurante em Cascais.

Chineses mais empreendedores



Mesmo não havendo dados estatísticos que o confirmem, a opinião do Alto Comissariado para a Imigração e Minorias Étnicas (Acime) é que os imigrantes asiáticos são os que mais investem em negócios próprios. A diferença destes imigrantes para os outros grupos étnicos é a sua capacidade financeira. Não são investidores ricos, mas trazem algum capital próprio para recomeçar a vida, e, sobretudo, muitos estudos na bagagem. Estes empresários estabelecem-se geralmente em áreas de negócio co-étnico, ou seja, ligadas à sua origem, como a restauração ou a importação de produtos locais.

Jiang Chen e Liang Yong são dois bons exemplos. Chen, 45 anos, chegou a Portugal há 15, cheio de ambições. Era funcionário do Banco da China, em Pequim, quando se deu o massacre da Praça de Tien An Men e achou que estava na hora de deixar o país. Com um MBA feito em Pequim, desejava aventurar-se no mundo empresarial. Passou pela Austrália, Hungria e Holanda, mas optou por se instalar em Portugal, em 1993, por achar o ambiente propício ao investimento. Apenas conhecia um ex-vizinho que o ajudou a instalar-se em Braga. A mulher, também chinesa, e o filho pequeno - então com 3 anos ??"chegaram mais tarde. O segundo filho, de 8 anos, já nasceu em Portugal.

Foi no Centro Comercial Cruz de Pedra, em Braga, que abriu a sua primeira loja de decoração. Reparou então que nenhum chinês se dedicara à importação e exportação de produtos orientais, e agarrou essa oportunidade, abrindo uma empresa grossista. Tinha pouco capital, mas boas condições de pagamento - entre 90 e 120 dias - o que representou um empurrão. Começou a importar entre 20 e 30 contentores por ano e abriu um cash & carry em Vila do Conde para escoar este material. Actualmente compra 120 contentores, através da empresa China Século XXI, e abastece dois centros grossistas, um no Porto Alto, com 80 lojas, e no Centro Comercial do Martim Moniz, com 45 lojas. Estas são exploradas por terceiros, mediante o pagamento de rendas.

Criou ainda uma outra sociedade, com Pedro Carvalho, director comercial, a Best Oriente, que trata directamente com os grandes clientes empresariais. Tem cerca de 5 mil clientes - Auchan, Cepsa, Cofina, são alguns deles - a quem vende bandeiras, pins e uma panóplia de outros artigos promocionais. Por exemplo, o Benfica encomenda-lhe os cachecóis e os bonés. É através desta área de negócio que importa também chá verde, oriundo das montanhas altas da China.

Para a área de retalho, fundou a Best In Class, que explora o cash & carry de vestuário infantil, Mundo das Crianças, e as lojas Maria, em Oeiras e em Cascais. Comercializa as marcas Doremi e Newness, que também estão à venda nas lojas El Corte Inglés, em Espanha. "Desenhamos as colecções, produzimos na China, em fábricas seleccionadas por nós, e revendemos", diz Jiang Chen.

Chinatown à portuguesa



Este empresário, apreciador de literatura, sonha instalar no Martim Moniz uma chinatown. Para servir de porta de entrada desse projecto comprou o Pavilhão da China, da Expo'98, mas a Câmara de Lisboa não aprovou, e colocou-o no Porto Alto. Já Liang Yong, 35 anos, não pensava tornar-se empresário. Chegou há oito anos, a convite da Instituto Superior Técnico, para a área de investigação em engenharia mecânica, onde esteve durante dois. Tinha feito um MBA em Pequim e a oportunidade de o pôr em prática surgiu por acaso, com a abertura de uma agência de viagens, a Asino.

"Não vim para Portugal à procura de fortuna, foi pelo desafio. Dois anos depois pensei que era boa ideia ficar cá e aplicar os meus conhecimentos em algo prático", diz. Fez estudos de mercado e apercebeu-

-se de que as outras agências de viagens não viam a Ásia como um mercado a explorar. Como conhece bem o país, achou que investir numa agência especializada no território chinês seria uma boa ideia. Recorreu à banca e sentiu algumas dificuldades porque não tinha garantias. O facto de não falar português também trouxe barreiras, mas com persistência, e algum dinheiro próprio que tinha de reserva, todas foram ultrapassadas.

Casado, e com um filho, trouxe a sua família para Portugal - mãe, pai e irmã -, país onde diz ter sido bem recebido. A primeira loja surgiu na Mouraria, em Lisboa, em 2004, e a segunda no Casino de Lisboa, no Parque das Nações, em 2007. A Asino Viagens oferece destinos tradicionais, mas procura associar a sua imagem ao Oriente. "Há cada vez mais empresas portuguesas com negócios na China, que precisam de informações correctas sobre o país, para não terem más experiências", diz Liang Yong. Criou quatro postos de trabalho e não pensa ficar por aqui. A abertura de uma terceira agência no Porto e uma filial na China estão na forja.

Tal como os portugueses na sua diáspora, estes imigrantes lutaram por uma vida melhor. Portugal não é um país de sonho para enriquecer, mas há histórias inspiradoras de quem tem perseverança.