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Crises globais são ainda fenómenos raros

Há 80 anos, 28 e 29 de Outubro ficaram conhecidas como segunda e terça-feira "negras" na Wall Street. A derrocada bolsista em 1929 atingia o clímax. Os historiadores económicos estudam hoje que recessões e depressões têm real impacto à escala mundial. Concluem que são, ainda, excepções.

Jorge Nascimento Rodrigues (www.expresso.pt)

As crises do capitalismo moderno com impacto efectivamente mundial contam-se, ainda, pelos dedos de uma mão. Na fase pós-Revolução Industrial, os economistas Carmen Reinhart e Kenneth S. Rogoff só encontraram, ainda, três crises globais. Nessa galeria a partir de 1860, os dois autores incluem a célebre Grande Depressão de 1929 a 1933 (que esta semana comemora os 80 anos do seu início a partir de Wall Street) e a que já é designada como Grande Recessão de 2007 a 2009.

Os dois investigadores distinguem as crises com projecção e impacto global (1908, 1929/1933 e 2007/2009) de outras plurinacionais, abrangendo vários países-chave (como o núcleo duro dos países desenvolvidos, como em 1873/79, 1893, 1982) ou mesmo regiões do mundo (como a famosa 'crise asiática' de 1997-1998). Alguns pânicos financeiros nem sequer se transformaram em depressões globais, como o crash de 1987 em Wall Street ou o do Nasdaq em 2000, e outras depressões mundiais ligadas às guerras mundiais afectaram a produção mas não o comércio internacional, como a de 1945/46 (os dois anos em que o PIB mundial mais decresceu, na ordem dos 8,1 e 11,1%, mas sem efeito negativo nas trocas). Ao invés, houve crises no comércio internacional, como em 1938 (quebra de 12%) e 1975 (quebra de 7%), que não se traduziram em recessões mundiais. A situação é, por isso, complexa.

Carácter "sistémico" do choque

Os dois autores definiram quatro critérios técnicos para identificar tais crises globais que podem ser estudados na sua recente obra, "This Time is Different" (editado pela Princeton University Press, 2009). Em termos mais simples, podemos verificar que as crises globais têm, em simultâneo, um impacto negativo significativo no PIB mundial e no comércio internacional. O carácter "sistémico" do choque nos principais centros financeiros, a dinâmica de contágio, a sincronização do processo evolutivo da crise em vários países com peso significativo na economia mundial e a projecção geográfica são sintomas visíveis do globalismo de uma crise.

O pânico financeiro de 1907 (um acontecimento histórico mundial pouco conhecido, tratado em "The Panic of 1907: Lessons learned from the Market's Perfect Storm", de Robert Bruner e Sean Carr, editado pela Willey, 2007) acabou por gerar em 1908 uma quebra de produção mundial de 3,6% e do comércio internacional na ordem dos 6%. O pânico de 1929 acabou por originar três anos de crescimento negativo mundial (5,7% em 1930, 6,4% em 1931 e 6,6% em 1932) e o mesmo período com as maiores quebras de sempre das trocas comerciais planetárias (20% em 1930, 29% em 1931 e 32% em 1932). O balanço da Grande Recessão de 2007 a 2009 está ainda por fazer: estima-se que o PIB mundial possa cair este ano entre 1 e 2% (depende das estimativas) e o comércio internacional decaiu na primeira metade de 2009 mais de 30% trimestralmente, segundo a Organização Mundial do Comércio.

Em virtude da irregularidade destas crises globais, que não se encaixam quer nas crises dos ciclos de negócio mais comuns como nas ondas longas (designadas de Kondratieff), a sua dinâmica continua a ser estudada e envolta em polémica.

Adaptado de artigo publicado na edição impressa de 24/10/09