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Cinco manifestações de interesse pelo Novo Banco: é muito, pouco ou quase nada...

Tiago Miranda

Os interessados em ficar com o Novo Banco têm até ao último dia do ano para darem a cara. Depois disso, e para quem estiver interessado, só se se associar a um dos que já deram o primeiro passo

Quem não manifestar interesse pelo Novo Banco até às 17h00 desta quarta-feira não poderá liderar a compra do Novo Banco. Isso quer dizer que para entrar na corrida só mesmo se fizer parte de um consórcio com um destes interessados. São para já cinco as manifestações de interesse. São poucas? Face aos  anúncios na imprensa nacional e estrangeira e cartas convite enviadas pelo Banco de Portugal a potenciais interessados, não parecem muitos, mas pode haver surpresas até esta quarta-feira.

Depois dos bancos BPI e  Santander Totta e dos fundos de investimentos (o norte-americano Apollo e o chinês da Fosun), o Banco Popular junta-se aos quatro candidatos que querem olhar para o dossier do banco que saiu do BES. A hora da verdade chegou com o balanço do Novo Banco, mas o verdadeiro teste será apenas no próximo ano, quando as manifestações de interesse se transformarem em propostas ou não.

Para algumas fontes do sistema financeiro, cinco interessados "é pouco", tendo em conta que podem não corresponder a propostas. É possível que até esta quarta-feira possam surgir outras manifestações de interesse, mas não é certo. "Seria desejável haver mais interessados, pois há sempre quem fique pelo caminho", afirma ao Expresso uma fonte do sistema bancário. E recorda: "Muitos poderão não avançar com propostas e não seria a primeira vez que este tipo de operação ficaria às moscas. Já aconteceu na privatização do BPN uma coisa semelhante". 

Ainda assim, os candidatos perfilam-se e as expectativas face a estes são grandes. Ninguém fala de preço. Ainda é cedo, dizem. Mas o ideal seria que a venda igualasse o que foi injetado pelo Fundo de Resolução que dividiu o BES em dois. A capitalização do Novo Banco ascendeu a 4,9 mil milhões de euros - um valor próximo deste já seria bom. Já surgiu um montante para a compra do Novo Banco na casa dos 3,5 mil milhões, que hipoteticamente a Fosun (donos da Fidelidade) poderia dar, mas a avaliação terá sido "prematura" e fonte próxima deste processo não a assume verdadeiramente.

 

1. O que ganham os que já manifestaram interesse?

O Banco Popular, presente em Portugal desde 2002, pode aumentar a sua dimensão, o Santander Totta reforça a sua posição entre os primeiros  bancos do sistema, o BPI resolve um problema e dá um pulo no ranking dos maiores bancos e quanto aos fundos estrangeiros seria a oportunidade de ter um banco europeu, com uma carteira de clientes, em termos empresariais, interessante.    

2. Fundos e bancos  querem ver melhor os números

Apesar de alguns dos candidatos já terem feito algumas compras em Portugal recentemente, como por exemplo o fundo norte-americano Apollo (que comprou a Tranquilidade, cuja venda foi agora suspensa por causa de um processo) ou os investidores chineses da Fosun (que compraram a Fidelidade e através desta a Espírito Santo Saúde, hoje rebatizada Luz Saúde), também os espanhóis Santander Totta e o Banco Popular manifestaram interesse, mas nem um nem outro se comprometem em apresentar uma proposta.

Para já, só garantem espreitar o dossier e olhar melhor para os números. O mesmo não se pode dizer do BPI. O banco presidido por Fernando Ulrich esteve desde a primeira hora de olhos postos no Novo Banco.  Fernando Ulrich foi sempre dizendo que esta é uma oportunidade interessante e que o BPI tem condições para reunir capital. E, agora, mais ainda. Porquê? Com as novas regras de exposição dos bancos europeus a países terceiros exigidas pelo Banco Central Europeu (BCE), onde se inclui Angola, o BPI precisa de aumentar os seus ativos para que o Banco de Fomento de Angola (onde detém 50,1%) pese menos no seu rácio.

É que a ponderação da dívida angolana vai passar a pesar 100% para efeitos de rácio de capital, quando pesava entre 0% a 20%. Uma penalização para quem, como o BPI, detém uma participação maioritária num banco em Angola. Por isso, o BPI tem várias alternativas: comprar o Novo Banco (para aumentar ativos e diluir peso desta medida do BCE), aumentar o capital para ajustar a contabilização em Angola, reduzir a posição no BFA, ou reduzir a exposição de dívida pública em Angola. Para isso, o BCE vai dar tempo, mas se conseguir comprar o Novo Banco, tudo poderá ser mais fácil. Resta saber no final do dia qual o preço a pagar pelo banco liderado por Eduardo Stock da Cunha.

3. Calendário da venda 

Será o BPN Paribas que vai assessorar o Banco de Portugal na operação de venda. Depois desta fase de manifestações de interesse, em fevereiro os potenciais interessados deverão enviar as propostas de compra não-vinculativas (non-binding offer) e entre março e abril irá decorrer a análise preliminar das contas do Novo Banco (due dillegence), fase a que se segue a apresentação das ofertas vinculativas (entre maio e junho).

Se tudo correr bem e nenhum prazo derrapar e as ofertas chegarem a bom porto, o negócio poderá estar fechado em julho. Fora da corrida ficam os acionistas do Novo Banco que nos dois anos anteriores à resolução do BES tiveram posições qualificadas (iguais ou superiores a 2%). Este é um dos pré-requisitos para a aceitação das propostas de compra, que deixa de fora o Crédit Agricole, a Goldman Sachs, o brasileiro Bradesco e o fundo Blackrock, entre outros.