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Caso BES. O que disse o contabilista

Esta terça-feira, durante a comissão de inquérito ao BES, Ricardo Salgado acusou o contabilista Machado da Cruz de ter feito ocultação de dívida. O banqueiro afirmou também que nunca deu instruções para ocultar resultados. Ora, e numa reunião com os advogados do Grupo Espirito Santo, Machado da Cruz diz que Ricardo Salgado sabia e que inclusive "despachava" directamente com ele. Uma versão que corrige depois à KPMG, auditores históricos do BES, onde assume sozinho toda a responsabilidade. O Expresso divulgou a 13 de junho a primeira versão dos acontecimentos pela voz de Machado da Cruz, texto que agora republica.

João Vieira Pereira com Anabela Campos, Isabel Vicente e Pedro Santos Guerreiro

"SALGADO SABIA"

Francisco Machado da Cruz assume a responsabilidade mas diz que vários membros do Conselho Superior do GES sabiam desde 2008 o que se passava. Eles desmentem.

 

As contas da ESI eram manipuladas desde 2008 Ricardo Salgado sabia". A declaração é de Francisco Machado da Cruz, o contabilista ou "commissaire aux comptes" que Ricardo Salgado, presidente do BES e líder do Grupo Espírito Santo (GES), aponta como o responsável pelo desvio de €1,3 mil milhões no passivo da Espírito Santo International (ESI), holding que controla os negócios financeiros e não financeiros da família.

Machado da Cruz relata, em documentos internos do GES, e que foram entregues ao Banco de Portugal (BdP), que Ricardo Salgado sabia desde 2008 que as contas não refletiam a verdade financeira da ESI. E vai mais longe. Nos documentos a que o Expresso teve acesso divulga pormenores de reuniões onde foi decidida a reavaliação de ativos de modo a taparem o aumento do passivo. Diz que se reunia diretamente com Salgado e que era com ele, e com o seu superior direto, José Castella (controller financeiro do Grupo Espírito Santo), que aprovava as contas antes de serem mostradas aos outros administradores. Mas assume a responsabilidade total do que se passou afirmando que a sua equipa não sabia de nada. Porém, dias depois de fazer estas declarações, Machado da Cruz e José Castella dizem ao comité de auditoria do Espírito Santo Financial Group (ESFG), a que o Expresso também teve acesso, que a administração da ESI não acompanhava a informação financeira. Nesta reunião o contabilista assume "a única e total responsabilidade pelos erros" mas sem explicar os motivos porque o fazia desde 2008.

Em recente entrevista ao "Negócios", Ricardo Salgado atribui todas as culpas a Machado da Cruz. Assegurou que tinham sido apanhados desprevenidos, que ninguém da administração do GES tinha conhecimento, que ninguém lhe tinha dito que era preciso consolidar as contas. Afirmações que agora reitera depois de questionado pelo Expresso sobre o seu envolvimento na ocultação de passivo na ESI. 

 

A justificação do contabilista Machado da Cruz, no documento que terá sido entregue ao regulador, afirma que tinha consciência do que se estava a passar, mas que teria de ser assim, pois durante a crise financeira de 2008 era preciso salvar o BES. Esclarece que Ricardo Salgado queria salvar o banco, e que concordava com ele. Até 2007, o BES distribuía dividendos à ESI, mas depois, com a crise, a empresa começou a ter prejuízos todos os anos. Machado da Cruz diz que só havia duas maneiras de "apagar" as perdas: ou se aumentavam os ativos ou não se refletia o passivo. E acaba por confessar que em 2008 tirou €180 milhões do passivo da ESI que eram prejuízo. Fê-lo, garante, por lealdade ao grupo. Já que se em 2008 houvesse um prejuízo na ESI então provavelmente o Estado teria intervindo no BES. Nega, contudo, que alguma vez tivesse sido feito algum desvio de dinheiro.

Foi no reporte das contas que se manipulou o passivo de forma a não influenciar os resultados. E nos mesmos documentos, é perentório em afirmar que, já em 2008, Ricardo Salgado "sabia que faltava dinheiro no passivo" (não sabia era quanto).

Todos os anos as contas eram revistas por Ricardo Salgado e José Castella durante a sua preparação. O sim à versão final, antes de serem apresentadas aos administradores da ESI, era dado, segundo Machado da Cruz, "somente por Ricardo Salgado e José Castella" e Manuel Fernando Moniz Galvão Espírito Santo Silva e José Manuel Pinheiro Espírito Santo Silva sabiam que uma parte do passivo não estava refletido nas contas da ESI, mas não conheciam o seu valor concreto. Confrontados, tanto Manuel Fernando como José Manuel negam ter tido qualquer conhecimento da situação nem de ter tomado qualquer decisão sobre as contas da ESI. Machado da Cruz diz ainda que tinha contactos diretos com Ricardo Salgado e com o Conselho Superior sem que José Castella soubesse. 

 

A intervenção do Banco de Portugal Na ESI faltava registar €1,3 mil milhões em passivo e para resolver a situação tinha sido feita, em 31 de dezembro de 2012, a correspondência contabilisticamente a dois ativos. Ou seja, foram usados ativos, que não pertenciam à ESI, para maquilhar as contas.

Em setembro de 2013, no quadro do exercício ETRICC - avaliação da situação financeira dos principais clientes da banca nacional -, o BdP pediu ao BES que mostrasse todos os passivos do GES. Uma auditoria da KPMG, feita no âmbito da consulta do BdP, revela que não há documentos que provem a propriedade desses ativos imobiliários situados em Angola: a Real State Investments e a Investment Properties. Para contornar a situação da propriedade, foi decidido registá-los como sendo imputáveis não à ESI mas à ES Resources (ESR), uma filial da ESI.

Machado da Cruz diz, nos documentos a que o Expresso teve acesso, que foi uma forma de resolver o problema. E que tudo foi decidido numa reunião que ocorreu a 5 de novembro de 2013 onde estavam presentes Ricardo Salgado, José Castella, Carlos Calvário, diretor responsável pelo risco da Espírito Santo Financial Group (ESFG), e João Martins Pereira, administrador da ESFG. A decisão foi a de contabilizar a situação real do passivo. Para isso os ativos em Angola foram mais uma vez reavaliados em €300 milhões de forma a totalizarem €1,6 mil milhões, valor a que já chegava então o passivo. A KPMG acabou por não aceitar estes ativos, porque não havia documentos que provassem a propriedade.

Em janeiro de 2014, o BdP foi informado do resultado preliminar da auditoria. Fez várias perguntas, nomeadamente sobre o sistema de contabilidade que tolerou um erro daquela dimensão (avaliado em €1,3 mil milhões), pediu o detalhe completo da dívida para ver o que estava em falta e queria saber como justificavam o valor dos ativos. Nessa sequência, Machado da Cruz propôs a sua demissão a Ricardo Salgado, mas este pediu que ele abandonasse o grupo só depois de concluída a auditoria. E ter-lhe-á prometido que receberia uma compensação financeira. 

 

Sobre o papel comercial Machado da Cruz disse que quem colocou à venda o papel comercial da ESI no BES, em 2013, não sabia da situação financeira, ponto em que coincide com o que disse Ricardo Salgado em entrevista ao "Negócios". Sobre o assunto diz ainda que não queriam enganar ninguém, embora soubessem que o que estava a ser feito não era correto. "Estávamos à espera de melhores dias." Só que entre 2008 e 2013 cada ano foi pior do que o anterior. Tão mau que começou com a ocultação de um prejuízo de €180 milhões e acabou por chegar aos €1,3 mil milhões de passivo não registado na ESI e perdas totais de €2,2 mil milhões.

  • Ele (Francisco Machado da Cruz) perdeu o pé no meio desta situação. E nós fomos surpreendidos com o exercício do ETRICC
  • Quando se dá o exercício do ETRICC viemos a perceber que havia uma parte da dívida que não estava contabilizada
  • Nunca ninguém nos disse que tínhamos de consolidar as contas

  • Nos documentos entregues ao BdP
  • Depois da crise de 2008 era preciso salvar o BES, que é a joia da coroa. Ricardo Salgado queria salvar o BES, e eu concordava
  • Somente Ricardo Salgado e José Castella reviam as contas anuais durante a sua preparação e davam o OK à versão final antes de serem apresentadas aos administradores da ESI
  • A contabilidade é correta mas o reporte não corresponde à contabilidade
  • Em 2008 sabiam que faltava dinheiro no passivo Ricardo Salgado e José Castella. (...) Manuel Fernando Espírito Santo e José Manuel Espírito Santo sabiam que uma parte do passivo não estava refletido nas contas mas não conheciam o seu valor concreto
  • Todos os anos se punha o problema de consolidar as contas. Decidiu-se não o fazer para não se ter que nomear um revisor da empresa"
  • A decisão de não consolidar foi tomada pelas mesmas pessoas que sabiam que o passivo da ESI não estava refletido nas contas
  • No comité de auditoria da ESFG

  • Os administradores (Ricardo Salgado e Manuel Fernando Espírito Santo) não estavam em posição de monitorizar a atividade da ESI, incluindo a informação financeira
  • Assume a "total e única responsabilidade" pelos erros
  • Estava consciente do que fazia desde 2008", mas não explica os motivos porque os fazia

Não consolidar as contas da ESI, não mostrando assim a situação real, foi uma decisão deliberada. Machado da Cruz adianta que todos os anos se colocava o problema de consolidar as contas, mas que se decidiu não o fazer para não ter de se nomear um revisor oficial. Seria uma entidade externa que facilmente perceberia a insuficiência financeira da ESI. O SG Group, empresa com quem a ESI trabalhou no Luxemburgo, especializada em contabilidade e questões fiscais, perguntou várias vezes porque não consolidavam as contas. E avisou que legalmente tinham de o fazer. Responsáveis da ESI, da qual Ricardo Salgado foi presidente até 2014, sabiam que havia a obrigação legal de consolidar. O contabilista diz que a decisão de não consolidar foi tomada pelas mesmas pessoas que sabiam que o passivo da ESI não estava refletido nas contas.

Francisco Machado da Cruz começou a trabalhar como contabilista no Grupo Espírito Santo em 1993, mas só em junho 2003 é que passa a ser o contabilista da ESI, das suas filiais e da Espírito Santo Control, as holdings da família. Neste cargo era o responsável pela preparação e aprovação das contas. Podia assinar a gestão diária, fazer transferências bancárias, mas não tinha poder para autorizar transações financeiras, nem ocupava qualquer cargo como administrador nas sociedades do grupo. Dirige ainda uma equipa na Espírito Santo Services, uma empresa luxemburguesa que apenas tem serviços em Lausanne, na Suíça. Enquanto funcionário do grupo, reportava todas as suas atividades diretamente ao controller do GES em Lisboa, José Castella, que por sua vez prestava contas diretamente ao Conselho Superior da família Espírito Santo. Machado da Cruz tinha, contudo, contactos diretos com Ricardo Salgado e com o Conselho Superior sem que José Castella soubesse. É Machado da Cruz que prepara as contas para serem enviadas para Lisboa mas não sabe se os documentos são enviados a todos os administradores. A administração da ESI só se reunia uma vez por ano e por telefone e as contas eram assinadas pela maioria.