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Bruxelas e Trichet travam bancarrota grega

Abrandou hoje o risco de incumprimento das obrigações da dívida externa por parte de Atenas. Depois do máximo histórico de quinta-feira próximo dos 33%, a probabilidade atribuída pelos mercados desceu para 29,88%.

Jorge Nascimento Rodrigues (www.expresso.pt)

O risco de bancarrota grega amainou no fecho desta semana. O "ciclo mortal" - de que falou George Soros esta semana em entrevista - em que a Grécia se envolveu nos últimos dias foi travado. A probabilidade de falência baixou para 29,88% no fecho hoje (9/04) do mercado dos credit default swaps (cds). Mas a Grécia continua, mesmo assim, em quinto lugar no ranking mundial da probabilidade de default. A bolsa em Atenas voltou hoje aos ganhos, com uma subida significativa (quase 5%), depois de três dias de quebras (numa queda acumulada de quase 10%).

Depois de uma quinta-feira "negra" (8/04) com o risco de falência do país a atingir o recorde histórico de 33% (um nível próximo do dos quatro campeões - Venezuela, Argentina, Paquistão e Ucrânia), dois factos vieram colocar água na fervura. Primeiro, as declarações tranquilizadoras do presidente do Banco Central Europeu, Jean-Claude Trichet. Depois, os rumores sobre uma proposta acordada hoje durante o dia para ser apresentada na próxima reunião informal do Ecofin (conselho dos ministros de Economia e Finanças dos 27 membros da União Europeia, a que assistem, também, os presidentes do Banco Central Europeu e do Banco Europeu de Investimentos) em Madrid no final da próxima semana (15 a 18 de Abril) com vista à operacionalização do mecanismo de apoio a países em risco de bancarrota.

Clima de pânico

O risco de bancarrota grega tinha disparado quando se soube que teria ocorrido uma fuga de capitais massiva de 10 mil milhões de euros nos dois primeiros meses do ano (metade do montante de 20 mil milhões que o governo grego tem de arranjar até final de Maio para financiar a dívida externa) e que a economia grega deverá continuar em recessão em 2010 (estima-se, agora, em 2,5%). Assistiu-se, assim, a um pânico entre os investidores na dívida grega.

Os bancos gregos, entretanto, preparavam-se para pedir ao governo uma ajuda de 17 mil milhões de euros, ao abrigo do plano de salvação do sistema financeiro, no sentido de atacar o problema de liquidez. A desconfiança e incerteza apoderou-se dos investidores em geral e o sentimento geral de "vender" tornou-se uma bola de neve.

Inversão da derrocada

O pânico, entretanto, estancou. Trichet falou na quinta-feira (8/04) na conferência de imprensa a seguir à reunião do Banco Central Europeu e deu algumas entrevistas, entre elas ao diário italiano Il Sole 24 Ore - a frase de alívio geral foi simples: "[A bancarrota grega] não se coloca", respondendo a uma pergunta muito directa se o default grego era uma possibilidade material. O banqueiro dos banqueiros centrais europeus explicou, também, que nunca se opusera à intervenção do FMI na zona euro, mas sim ao "seu envolvimento sozinho". E admitiu que é natural que exista dentro da zona euro "um certo grau de dispersão dos parâmetros económicos".

Por outro lado, elementos dos ministérios das Finanças e dos Banco centrais reuniram hoje em Bruxelas preparando a reunião de Madrid. As "fugas" de informação alegam que um consenso teria sido conseguido sobre as condições de empréstimo por parte de membros da zona euro em caso de resgate de alguma situação de pré-default, como pode ser a grega. Aliás, o mercado do preço dos cds relativos à dívida grega "acompanhou" a oscilação destes rumores - subiu durante a manhã até 31,93% e baixou, depois, a meio da tarde, quando os despachos das agências davam conta de um alegado consenso.

Neutralização da Fitch

Esse rumor conseguiu até neutralizar o comunicado da agência de notação Fitch que baixou o rating de crédito da Grécia de BBB+ para BBB-, mantendo também uma perspectiva negativa (o que poderá significar nova despromoção). Se uma nova despromoção ocorrer, a notação grega adquirirá um estatuto de "lixo", o que será, pela primeira vez, uma nódoa negra num país da zona euro.

A Fitch recomendava, no entanto, que a Grécia trabalhasse no sentido de um programa do FMI "explícito" para gerar confiança nos mercados financeiros. O Financial Times Deutschland reagiu muito negativamente à recomendação da Fitch alegando que a Grécia deveria aguardar até à reunião de 17 de Maio da Comissão Europeia (quando esta apresentar o seu relatório sobre o andamento do plano de austeridade grego), esperando para ver como os mercados reagem até lá... deixando a fogueira arder com os gregos no churrasco.

Jens Bastian, economista da fundação ateniense ELIAMEP, em declarações ao Expresso, sublinhou a importância de se analisar a crise grega não só do ponto de vista dos problemas internos da zona euro (o enfoque que tem sido dominante), como da expressão geopolítica regional no sudeste europeu.

Ora, a Grécia, recorda Bastian, tem desempenhado um papel geoeconómico na região como alavanca de investimentos em todos os Balcãs. O que se perderá.

Há, depois, um problema de confiança na própria UE por parte dos que estão dentro na região e dos que estão em lista de espera ou com ilusões disso. "Estes países não estão indiferentes ao que se passa à sua porta", afirma o economista.

O efeito de contágio grego observa-se já no próprio mercado da dívida relativo à Roménia (com intervenção do FMI, da UE, do Banco Mundial e do Banco para a Reconstrução e Desenvolvimento), Bulgária, Sérvia (com intervenção do FMI), Turquia (em discussão com o FMI), Hungria (com programa com o FMI). No caso de membros da UE, os preços dos cds da Bulgária e da Roménia estão acima dos 200 pontos base (pb) e os da Hungria acima dos 180pb.