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Bolsa de Tóquio fecha no vermelho depois de eleições antecipadas

O governo de coligação nipónico ganhou nas eleições de domingo para a Câmara Baixa mais tempo para acabar até 2018 com o risco de deflação e fazer regressar o Japão sustentadamente ao crescimento. Mas o primeiro-ministro Abe "ganhou por defeito", diz E. Keith Henry, presidente da consultora Asia Strategy, de Tóquio.

Os dois partidos da coligação formada pelo Partido Liberal Democrático (PLD) e pelo Komeito, e liderada pelo primeiro-ministro Shinzo Abe, ganharam uma "extensão" de dois anos para governar o Japão até 2018 depois de vencerem no domingo por 68% as eleições antecipadas para a Câmara Baixa.

A primeira reação na bolsa de Tóquio não foi famosa. Os dois principais índices bolsistas fecharam no vermelho esta segunda-feira, com o conjunto da Ásia a seguir essa tendência. O índice MSCI para a Ásia fechou com um recuo de 1,07%. O Nikkei 225 caiu 1,57% e o TOPIX recuou 1,45%. O efeito no mercado secundário da dívida soberana foi muito negativo nas obrigações nipónicas de curto e muito curto prazos, cujas yields, perto de 0%, dispararam 233% a 3 meses, 33% a 12 meses, 44% a dois anos e 11% a três anos. No prazo a 10 anos subiram ligeiramente, fechando em 0,383%.

Apesar da vitória, os dois partidos "ganharam por defeito", refere-nos E. Keith Henry, presidente da consultora Asia Strategy, radicada em Tóquio desde 1996. "A supermaioria de mais de 2/3 - 325 deputados em 475 na Câmara Baixa - por parte do PLD [290 deputados] e do Komeito [35 deputados] foi conseguida por uma votação do eleitorado que foi das mais baixas na história do Japão", perto de 52%, refere aquele especialista.

Os partidos da coligação mobilizaram o seu eleitorado tradicional, "mas a esmagadora maioria dos eleitores, que se identificavam como não filiados em nenhum partido, ficaram simplesmente em casa", sublinha Keith Henry, que acrescenta: "Eles não votaram porque se consideram satisfeitos com a situação atual, e não se quiseram maçar, mas porque desistiram. Isto não augura nada de bom para Abe e para as suas tentativas de usar os estímulos orçamentais e monetários para desencadear a procura por parte da população". O principal partido da Oposição, o Partido Democrático, a segunda força política do país, ganhou mais 16 deputados, mas com 73 lugares na Câmara Baixa fica a larga distância do partido de Abe, que, no entanto, perdeu cinco deputados em relação às eleições de dezembro de 2012, quatro dos quais para o seu parceiro Komeito, que é mais radical em questões nacionalistas, de defesa e no papel do Japão na Ásia. Surgiram vários partidos novos, dos quais o Partido da Inovação que conquistou 41 lugares.

A coligação liderada pelo primeiro-ministro Shinzo Abe decidiu em 21 de novembro antecipar as eleições que só se deveriam realizar em 2016 para realizar junto do eleitorado uma espécie de referendo sobre a sua política macroeconómica, conhecida pela designação de Abenomics. A meio da legislatura, a estratégia de Abe ainda não produzira resultados visíveis, apesar da ajuda do Banco do Japão que, ainda recentemente, a 31 de outubro, numa votação à pele surpreendente (5 votos a favor contra 4) no conselho, reforçou significativamente o programa de estímulos monetários. A inflação mensal em cadeia foi negativa (-0,29%) em outubro em relação a setembro. O PIB caiu 0,5% no terceiro trimestre em relação ao segundo, ainda que muito menos do que no segundo em relação ao primeiro (a queda foi de 1,9%). O Banco do Japão volta a reunir a 19 de dezembro. " A razão [do falhanço], diz Keith Henry, é que sem que o povo japonês sinta confiança no seu futuro económico, os estímulos, orçamentais ou monetários terão pouco impacto na vontade dos líderes empresariais para investir e no sentimento dos consumidores para gastar. Shinzo Abe necessita claramente de mais tempo para convencer os japoneses".

As Abenomics baseiam-se em três eixos: estímulos orçamentais (por parte do governo), estímulos monetários (a cargo do Banco do Japão) e reformas estruturais (a implementar pelo governo). Abe mexeu no orçamento, mas os seus esforços foram estragados por uma herança do governo anterior a 2013, que obrigava ao aumento do imposto sobre o consumo de 5% para 10% em duas fases. O primeiro aumento para 8% foi realizado em abril pelo governo de Abe e afetou severamente a procura interna. Com a nova supermaioria resultante das eleições de domingo, Abe vai adiar o segundo aumento do imposto para abril de 2017. A desvalorização do iene -  4% face ao euro e 15,8% face ao dólar desde o início do ano -  não tem ajudado a melhorar a balança comercial que continua deficitária desde há 27 meses. Para o eleitorado dos pequenos e médios empresários, a desvalorização do iene tem aumentado os custos, em virtude de terem de pagar mais ienes pelos produtos importados e pela energia. O instituto de investigação Tokyo Shoko prevê um disparo das falências nas PME.

O eixo das reformas tem estado parado. Este eixo é muito impopular junto de uma parte do eleitorado do governo, porque "toca nomeadamente nos interesses estabelecidos do eleitorado que apoia o PLD", refere o consultor, que acrescenta: "Abe para mexer nessa área vai ter primeiro de mostrar resultados significativos na economia".