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Banco Central da Rússia decide aumento colossal da taxa diretora de juros

Durante a madrugada, o banco central em Moscovo aumentou de 10,5% para 17% a taxa diretora de juros. Num só dia aumentou mais do que nas cinco mexidas anteriores desde fevereiro.

O Banco Central da Rússia surpreendeu os mercados ao decidir na madrugada desta terça-feira (1 hora da manhã em Moscovo) aumentar a taxa diretora de 10,5% para 17% (6,5 pontos percentuais), apenas cinco dias depois de ter realizado uma subida de 9,5% para 10,5%.

É o aumento mais espetacular desde a crise russa de 1998. A 19 de maio de 1998, o Banco Central da Rússia aumentou a taxa de juros de 30% para 50% (subida 20 pontos percentuais) e, apenas oito dias depois, voltou a subi-la de 50% para 150% (aumento de 100 pontos percentuais). Entre 18 e 27 de maio, a taxa quintuplicou. E, mesmo assim, não evitou a bancarrota na dívida interna a 17 de agosto daquele ano.

Com a decisão desta terça-feira, trata-se do sexto aumento desde fevereiro quando a taxa diretora estava em 5,5%, um nível que se mantinha desde final de 2012. Esta madrugada, o banco central aumentou a taxa em 650 pontos base, mais do que os 500 pontos base de aumento sucessivo entre fevereiro e 11 de dezembro. A 5 de novembro já havia subido a taxa de 8% para 9,5%.

O primeiro sinal de uma situação dramática na segunda-feira foi a decisão do banco central em declarar sem efeito um leilão de dívida no prazo a 3 anos perante o facto de não ter recebido ofertas por parte de investidores.

 

Uso da bazuca

O analista norte-americano Mike Shedlock considera que o banco russo finalmente usou uma "genuína bazuca". Este editor do blogue Global Economic Analysis alerta que está em gestação uma "crise cambial global".

Segundo o comunicado oficial do banco central, o objetivo da decisão tomada de madrugada é "limitar os riscos de desvalorização e de inflação". A meta de inflação do banco central é de cerca de 5% (com uma banda de variação de mais ou menos 1,5 pontos percentuais) e no final de dezembro a taxa de subida dos preços poderá chegar a 10%. O primeiro-ministro russo Dmitry Medvedev considerou, recentemente, que uma desvalorização significativa do rublo era prejudicial "em termos estratégicos".

Em virtude do encarecimento brutal do dinheiro em 6,5 pontos percentuais, o rublo valorizou, de madrugada, 9% face ao euro. Na segunda-feira, o euro chegou a cambiar num máximo histórico de 82,81 rublos por euro. Esta madrugada, o euro desceu no mercado cambial para 75,49 rublos. Pelas 7h30 (de Lisboa), o euro trocava-se por 76,43 rublos.

Depois de um crash na Bolsa de Moscovo na segunda-feira, com o índice geral RTSI a cair 10,12%, a situação melhorou ligeiramente na abertura desta terça-feira com o índice a subir 4,5%. Pelas 7h30 (de Lisboa), o índice está a valorizar-se 1,7%.

 

Maré vermelha nas Bolsas mundiais

A segunda-feira ficou marcada por uma maré vermelha nas bolsas mundiais. O índice mundial MSCI recuou 1,25%, com o índice europeu a cair 2,64%, a maior queda em termos regionais.

O sentimento de pânico financeiro aumentou na segunda-feira na Europa. O índice VIX relacionado com o índice bolsista Eurostoxx 50 subiu para 29,53 euros no fecho de 15 de dezembro, um nível que está acima do registado no surto de pânico de fevereiro, mas, ainda, abaixo do verificado no surto de medo de meados de outubro. Em termo semanais, o índice de pânico subiu 63% no fecho de 12 de dezembro. A trajetória de subida prossegue esta semana.

O preço do barril de crude de Brent fechou em 60,7 dólares, abaixo do valor de fecho de sexta-feira passada. O preço do petróleo está a níveis de maio de 2009. Apesar da vitória nas eleições antecipadas de domingo, com uma maioria esmagadora, da coligação governamental chefiada por Shinzo Abe, no Japão, a bolsa de Tóquio fechou no vermelho na segunda-feira com perdas de 1,57% para o índice Nikkei 225, e agravou as perdas esta terça-feira, fechando com uma queda de 2,01% para esse índice.

 

Situação russa muito frágil

O contexto macroeconómico russo é muito frágil. A economia russa deverá terminar o ano com um crescimento económico de 0,2%, uma descida significativa em relação à taxa de 1,3% verificada no ano passado. O Banco Central da Rússia admite nas suas previsões para 2015 e 2016 que o Produto Interno Bruto (PIB) poderá estagnar com uma inflação nos dois dígitos, o que configura uma situação de estagflação. Se o preço do barril de petróleo se situar abaixo de 60 dólares, a contração da economia em 2015 poderá situar-se entre 4,5% e 4,7%, referiu, na segunda-feira, a governadora do banco central, Elvira Nabiullina.

A queda colossal do preço do barril de petróleo desde junho está a afetar seriamente a economia russa e as contas públicas do Kremlin que necessitam de um barril a 100 dólares ou mais. Nos mercados cambiais, o rublo está em derrocada. Desvalorizou 66% face à moeda única europeia desde o início do ano até ao fecho de segunda-feira. As reservas cambiais e de ouro emagreceram 18%, desde o final de 2013 até final de novembro de 2014, quase 91 mil milhões de dólares. No período referido, as reservas em divisas desceram 95,9 mil milhões de dólares, enquanto as reservas em ouro valorizaram 5,2 mil milhões de dólares. O excedente na balança externa desceu de 26,8 mil milhões de dólares no 1º trimestre do ano em curso para 11,4 mil milhões no 3º trimestre.

A governadora do banco central, Elvira Nabiullina, previa que a fuga de capitais viesse a atingir 128 mil milhões de dólares no final deste ano e que o ritmo seja similar no próximo ano. As previsões do Banco Central da Rússia, divulgadas na segunda-feira, apontam para uma fuga de 134 mil milhões de dólares em 2014, seguindo-se uma trajetória descendente, mas com valores ainda muito significativos: 120 mil milhões de dólares em 2015; 75 mil milhões em 2016; e 55 mil milhões em 2017.