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Banca. Depósitos com taxa zero são "uma situação nova e que estará aí para os próximos meses"

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Tendo em conta que não depositar o dinheiro também tem riscos, o que resta fazer é procurar alternativas, que podem passar por abrir uma conta noutro banco, conseguindo uma taxa melhor, ou optar por Certificados do Tesouro Poupança Mais, sugere António Ribeiro, da Proteste

Tiago Miranda

Se os bancos começam a não remunerar os depósitos a prazo dos clientes, o que é que acontece? "Os clientes vão procurar alternativas. Primeiro dentro do banco, depois fora dele", aponta Filipe Garcia, presidente da Informação de Mercados Financeiros. 

Encontrar um outro momento em que as taxas de juro dos depósitos a prazo fossem iguais a zero, ou seja, que os bancos não remunerassem o depósito de dinheiro dos clientes, é difícil. "Penso que nunca aconteceu. Nunca estivemos assim. É uma situação nova e estará aí para os próximos meses", diz Filipe Garcia, economista e presidente da Informação de Mercados Financeiros (IMF).

A partir do momento em que os bancos conseguem financiar-se junto do Banco Central Europeu com taxas muito baixas, reduz-se o interesse em captar os depósitos dos clientes. Uma notícia avançada esta segunda-feira pelo "Jornal de Notícias" aponta que o Banif, BPI e Novo Banco já têm depósitos a 0% e que outros bancos também desceram as remunerações a pagar aos clientes, mesmo que ainda estejam acima de uma taxa igual a zero.

Em causa está o facto de os bancos nacionais estarem a acompanhar as taxas de juro do mercado, sendo que a Euribor está a níveis muito baixos, explica António Ribeiro, economista da Proteste Investe. "Desde 2011 que se verifica sempre uma descida", afirma. "A taxa de juro acompanha esta taxa e os depósitos acabam por acompanhar também."

Que fazer perante o zero?

Depositar dinheiro a prazo com uma taxa de 0% levanta uma questão: para quê fazê-lo? "Esta opção só está lá para escolher outra opção. Perante o zero, os clientes vão procurar alternativas. Primeiro dentro do banco, depois fora dele", aponta Filipe Garcia.

António Ribeiro, da Proteste, lembra ainda que através das comissões cobradas pelos bancos os clientes acabam "por pagar mais do que aquilo que recebem se o dinheiro estiver aplicado". E, acrescenta, há uma consequência: "a perda de poder de compra das pessoas".

A questão das comissões pagas pelos clientes assume um relevo diferente quando o depósito não é remunerado pelo banco. "Evidentemente é péssimo para os particulares que depositam, mais grave para o caso dos particulares que não só não recebem taxas de juro, como também têm de pagar por emprestar dinheiro aos bancos - quando estes cobram comissões de gestão, estão a querer que as pessoas ponham lá dinheiro e paguem ao banco", afirmou à Lusa António Júlio de Almeida, membro da direção da Associação Portuguesa de Consumidores e Utilizadores de Produtos e Serviços Financeiros (SEFIN).

À semelhança de Portugal, o mesmo acontece noutros países europeus, com a diferença de que o Banco de Portugal não permite taxas negativas nos depósitos, ao contrário do que acontece por exemplo na Alemanha. Filipe Garcia defende que "do ponto de vista comercial pode não ser vantajoso" aplicar uma taxa que não seja boa para os clientes. "Os clientes saem e quando o banco precisa deles, eles já lá não estão."

Um risco e uma oportunidade

Esta descida dos juros representa "um risco e uma oportunidade", segundo António Ribeiro. Ou seja, um risco para o consumidor e uma oportunidade para os bancos. "Os bancos podem captar menos fundos, mas criam outros produtos, que apresentam como sendo melhores e com mais rendimento. São planos que parecem depósitos, mas não são." E se a oportunidade do banco é a de captar clientes para outros produtos, é também aí que está o risco dos consumidores, pois o rendimento dessas soluções pode ser maior, mas os clientes podem não ter a mesma liquidez e segurança. "Mais tarde as pessoas reclamam porque achavam que eram depósitos e não eram."

Tendo em conta que não depositar o dinheiro também tem riscos, o que resta fazer é procurar alternativas, que podem passar por abrir uma conta noutro banco, conseguindo uma taxa melhor, ou optar por Certificados do Tesouro Poupança Mais, sugere António Ribeiro. 

Filipe Garcia lembra não existirem "grandes dúvidas" de como o BCE "tem como objetivo que os agentes económicos não se sintam incentivados a poupar muito". Em causa estão as famílias, as empresas e os bancos. "Há de haver uma taxa em que as pessoas já não estão interessadas em poupar, ou seja, há menos estímulo para guardar dinheiro."

Sobre o que está para vir, o presidente da IMF lembra que a Euribor poderá ainda ficar mais baixa e que, por isso, "nada indica que a situação se vá alterar nos próximos tempos."