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Azul bem posicionada para ficar com a TAP

Os contactos com a Azul para a compra da TAP foram fomentados pelo próprio presidente da transportadora aérea nacional, Fernando Pinto

Se o Governo tomasse a decisão hoje, a escolha recairia sobre a companhia aérea brasileira.

Filipe Santos Costa, João Vieira Pereira e Margarida Fiúza

A brasileira Azul Airlines é a concorrente à privatização da TAP que o Governo encara com melhores olhos. O processo está longe de estar terminado - pelo contrário, ainda agora está a descolar - mas, perante as peças que já estão em jogo, fontes governamentais asseguram ao Expresso que "se a decisão fosse tomada hoje" a empresa de David Neeleman seria a escolhida para ficar com 61% do capital da transportadora aérea portuguesa.

De acordo com fontes conhecedoras do processo, a companhia brasileira apresenta várias vantagens sobre as restantes interessadas - nuns casos, por marcar pontos positivos, noutros, por beneficiar de pontos bastante negativos da concorrência. O facto de se tratar de uma empresa lusófona é vista como uma mais-valia, com a vantagem adicional do capital não ser exclusivamente brasileiro (uma parte é norte-americano). Ou seja, equilibra a influência brasileira e a sensibilidade às questões do universo da lusofonia com a abordagem empresarial americana. A empresa tem recursos e capacidade de gestão é reconhecida - é hoje a terceira maior companhia do país (atrás da TAM e da GOL), transportando 20 milhões de passageiros por ano.

Também fontes próximas da administração da TAP consideram que a Azul é a única empresa bem vista para comprar a companhia aérea.

Os contactos com a Azul para a compra da TAP foram, aliás, fomentados pelo próprio presidente da transportadora aérea nacional, Fernando Pinto. A Azul não tem manutenção própria no Brasil e manifestou interesse em comprar a operação que a TAP tem no Brasil neste sector, a TAP Manutenção & Engenharia - de que já é a maior cliente. Terá sido nestes contactos que Fernando Pinto colocou em cima da mesa a possibilidade de a companhia brasileira se candidatar à compra do grupo TAP. O cenário foi bem acolhido na Azul. Com uma questão por resolver: por não ser uma companhia europeia, a empresa brasileira está limitada à compra de 49% do capital da portuguesa. Mas essa não parece ser razão de preocupação do lado do Executivo. Ao que o Expresso apurou, a Azul está agora à procura de um parceiro comunitário para concorrerem em conjunto à compra da TAP.

O facto de a Azul não ter bagagem negativa no relacionamento com Portugal, também influencia a preferência de Lisboa. "Com a Azul nunca tivemos nenhuma má experiência no passado", diz um responsável do Governo ouvido pelo Expresso - ao contrário do que se passou com as restantes interessadas, poderia acrescentar a mesma fonte.

 

O passado pesa

A imagem do consórcio que Miguel Pais do Amaral constituiu para comprar a TAP foi recentemente beliscada por notícias publicadas pelo jornal "i", que recordavam o passado do seu sócio Frank Lorenzo. O ex-presidente da Continental Airlines foi impedido de regressar à aviação em 1994 porque as suas companhias tiveram "das mais graves" falhas de manutenção e operação "da história da aviação" americana.

Já a proposta que venha a ser apresentada pela espanhola Air Europa - que há pouco mais de um ano ultrapassou pela primeira vez a sua rival Iberia, tendo transportado mais de 100 mil passageiros num mês - poderá levantar receios sobre a possibilidade de o hub de Lisboa ser deslocalizado para Madrid. Já no anterior processo de privatização, quando a Iberia (grupo IAG) manifestou vontade em comprar a TAP, houve preocupação com esse risco. Qualquer proposta da Air Europa deverá ser ainda mais escrutinada por causa do seu histórico em Portugal. O seu acionista, o grupo Globalia, chegou a partilhar com a TAP o capital da operadora de handling Groundforce, mas a relação não terminou bem.

Também o passado de Germán Efromovich pode pesar negativamente na análise à proposta que venha agora a fazer pela TAP. O empresário já teve oportunidade para comprar a companhia - no anterior processo, em 2012 - mas não apresentou as necessárias garantias bancárias e a operação fracassou. O Governo não quer correr o risco de que o negócio volte a correr mal.

Por enquanto, a privatização da TAP, aprovada em Conselho de Ministros a 13 de novembro, aguarda luz verde do Presidente da República. O diploma ainda está em análise e o prazo para a sua promulgação será cumprido, apurou o Expresso. Luís Marques Guedes, ministro da Presidência, confirmou a receção do diploma a 20 de novembro, tendo Cavaco Silva 40 dias para para tomar uma decisão, sendo depois o documento publicado em "Diário da República".

Várias vozes têm contestado a privatização da companhia aérea, invocando a possibilidade de o diploma poder não vir a ser promulgado. Ainda esta semana, o Expresso noticiou o lançamento de um manifesto ("Não TAP os olhos") contra a venda da companhia aérea portuguesa. O cineasta António Pedro Vasconcelos é o mentor e a lista de subscritores já ultrapassa os 100, onde se incluem nomes como Adriano Moreira, Sérgio Godinho, José Eduardo Agualusa, Manuel Alegre, Mário Soares, Miguel Sousa Tavares, Pedro Abrunhosa e Tony Carreira.