Siga-nos

Perfil

Economia

Economia

Austeridade pode provocar dobro dos estragos em tempos de crise

Estudo publicado pelo Banco de Portugal revela que multiplicadores orçamentais sofrem aumento drástico em períodos recessivos.

João Silvestre

Os multiplicadores da austeridade podem, em alguns casos, ser bastante superiores aos valores com que o governo e a troika tem estado a trabalhar mesmo depois da correção no ano passado na sequência do alerta do Fundo Monetário Internacional (FMI).

O aviso é do working paper "Fiscal multipliers in a small euro area  economy: how big can they get in crisis times?" publicado hoje pelo Banco de Portugal, da autoria de Gabriela Castro, Ricardo M. Felix, Paulo Julio e José R. Maria. O estudo revela que, em períodos recessivos, o impacto da austeridade tem aumentos significativos, em alguns casos quase para o dobro. 

"Os resultados sugerem que os multiplicadores orçamentais podem quase duplicar em períodos de crise nas consolidações do lado da despesa e aumentar entre 30% e 60% nas consolidações do lado da receita", lê-se no artigo.

O estudo foi realizado com base no modelo PESSOA, um modelo teórico (DSGE na denominação técnica) do banco central que foi calibrado para a economia portuguesa num contexto de união monetária, o que permite ter, pelo menos, uma aproximação aos efeitos das políticas na economia real.

Multiplicador pode chegar a 2

Os autores estimam  que, em tempo de crise, o multiplicador do consumo público (onde estão aquisições de serviços, entre muitas outras coisas) se situe em 2. Ou seja, por cada euro de corte nestas despesas, o PIB perde dois euros logo no primeiro ano. O efeito mantém-se no segundo ano (1,1 euros) e quase desaparece no terceiro ano (0,3 euros). Nos períodos de normalidade, o multiplicador é de 1,2 no primeiro ano e de 0,4 nos dois seguintes.

O consumo coletivo é o que mais afeta o PIB porque, como dizem os autores, "alimenta diretamente a procura agregada, tendo assim um efeito direto sobre o produto, enquanto as transferências e os impostos operam principalmente através do rendimento e da riqueza".

Este impacto é superior inclusivamente ao calculado pelo FMI, numa análise incluída no World Economic Outlook de outono de 2012 que fez correr muita tinta. Nessa altura, as contas do economista-chefe da instituição, Olivier Blanchard, e de David Leigh apontavam para um multiplicador superior em períodos de crise que se situaria entre 0,9 e 1,7.

Um resultado que vinha questionar o desenho dos programas de austeridade na Europa que assentavam num multiplicador de 0,5 e que, por isso, estariam a subestimar os efeitos da austeridade. Na sequência destes resultados, o multiplicador usado em Portugal passou de 0,5 para 0,8 na quinta avaliação do memorando que decorreu em setembro de 2012 (os técnicos da troika já tinham conhecimento do estudo antes da publicação).  

Agora os economistas do Banco de Portugal vêm mostrar que, afinal, mesmo o novo intervalo do FMI pode estar a subestimar os estragos provocados pela austeridade numa pequena economia da zona euro como Portugal quando a consolidação orçamental é feita através do consumo público.

No caso das transferências, como pensões ou prestações sociais, os multiplicadores do primeiro ano são de 0,7 em tempos normais e 1,2 nas crises. Do lado da receita, nomeadamente nos impostos sobre o trabalho ou nos impostos sobre o consumo, os multiplicadores são de 0,5 e 0,7 e de 0,5 e 0,8, respetivamente.