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Auditoria forense fala de gestão ruinosa também no BES Angola

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Auditoria forense às operações angolanas do Banco Espírito Santo listam mais de trinta irregularidades. O dinheiro circulava de Lisboa para Luanda sem controlo; em Luanda os créditos eram concedidos de modo discricionário. E há dinheiro a circular para empresas detidas pelos próprios administradores.

Pedro Santos Guerreiro e Filipe Santos Costa

"Na ausência de um racional económico que legitimamente justifique o aumento da exposição do BES ao BESA, este poderá ainda ser configurável como um potencial acto de gestão ruinosa pelo que, caso sejam apurados adicionais relativamente ao mesmo, tal poderá ser configurável como a prática e actos dolosos de gestão ruinosa, em detrimento dos depositantes, investidores e demais credores, por parte dos membros do Conselho de Administração com o pelouro do BESA". 

Este é apenas um dos parágrafos de um documento em que descontrolo é a palavra-chave: o BES financiava o BESA sem controlo; o BESA concedia crédito sem controlo; os alertas lançados não eram levados a discussão nos órgãos de gestão - milhares de milhões de euros giraram sem normas, sem papéis, sem rasto, sem dar conhecimento e sem interesse em ter conhecimento. Este é um resumo possível da segunda parte da auditoria forense ao BES, totalmente dedicada a Angola, que o Expresso revela em primeira mão. 

O colapso do BES Angola, recorde-se, foi uma das causas do colapso do BES, depois de se ter sabido que, só em linhas de curto prazo, o BES em Lisboa tinha financiado o BESA em Luanda em mais de três mil milhões. 

Os créditos eram concedidos pelo BES Angola a novos clientes em total informalidade, sendo a decisão tomada pelo presidente da comissão executiva, Álvaro Sobrinho, e o administrador do pelouro de cada instituição financiada, sem recurso a normativos internos. 

Esta é apenas um dos incumprimentos detetados. Os créditos entre o BES e o BESA passavam sem que fosse feito qualquer análise de risco ou sem normativo interno para as operações intra-grupo; houve créditos concedidos pelo BES ao BESA aprovados apenas por um administrador, sem aprovação prévia da Comissão Executiva ou sequer do Comité de Crédito, como era necessário em muitos casos; verifica-se a inexistência de contratos de crédito em descoberto entre o BES e o BESA.

Num dos financiamentos do BES ao BESA, de 1,5 mil milhões, para compra de obrigações do tesouso angolano, não há qualquer análise de risco nem sequer registo de aprovação.  

Mas há mais: houve casos em que a gestão de tesouraria foi cruzada entre os dois bancos sem autorização formal dos órgãos competentes; os departamentos internos do BES não verificavam a exposição entre os dois bancos; não era feita análise de risco ao BESA; os relatórios de controlo interno não era analisados; os alertas feioto pelo auditor externo junto da ESFG nunca foram analisados no Conselho de Administração nem na Comissão Executiva.

São ao todo mais de 30 irregularidades detetadas na auditoria forense da Deloitte sobre Angola. Este trabalho foi solicitado pelo Banco de Portugal.