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A segunda década mais negra de Wall Street

A década que findou foi a segunda de maior destruição de capitalização bolsista na América, segundo o índice Standard & Poor's desde 1871. Mas ficou-se, em termos relativos, por metade do efeito devastador da década da Grande Depressão dos anos 1930. As grandes correcções bolsistas (que foram apenas três, desde 1871) são fenómenos históricos excepcionais.

Jorge Nascimento Rodrigues (www.expresso.pt)

A década que agora findou saldou-se por uma quebra bolsista de 22%, segundo o índice Standard & Poor's (S&P) entre Janeiro de 2000 e Dezembro de 2009, tendo em conta a base de dados mantida pelo professor Robert Shiller da Universidade de Yale. Shiller tem um repositório histórico do comportamento deste índice desde 1871 (o S&P foi criado em 1860).

No entanto, no período de mais de 130 anos que acompanhou o comportamento bolsista de Wall Street e as vagas de desenvolvimento do capital financeiro moderno, os efeitos do crash bolsista, a partir de Outubro de 2007, e da Grande Recessão económica recente, são muito inferiores à destruição de capitalização ocorrida na década subsequente ao crash de Outubro de 1929. A década de 1930 saldou-se por uma quebra de 43%, quase o dobro.

A terceira pior década de Wall Street situou-se entre 1910 e 1919, um período que sofreu a 1ª Guerra Mundial e o impacto geopolítico da Revolução bolchevique russa. O desgaste decenal da riqueza bolsista foi de 11,5%.

Grandes correcções são excepcionais

Estes períodos decenais de profunda correcção bolsista são, no entanto, excepcionais. Desde 1871, apenas três décadas se saldaram negativamente.

Mesmo na década de 1900, apesar do grande crash bolsista de 1907 e da Grande Recessão mundial de 1908 (uma das crises globais, segundo Carmen Reinhart e Kenneth Rogoff em 'This Times is Different', Princeton University Press, 2009), o saldo foi largamente positivo - Wall Street cresceu em ganhos 69%, o quinto melhor resultado de sempre na história do índice S&P. Também, no período em que ocorreu a 2ª Guerra Mundial, apesar do seu carácter devastador, e de termos assistido à maior quebra mundial do Produto Interno Bruto (PIB), no pós Revolução Industrial, em 1945 e 1946, a Wall Street comportou-se no positivo (+34,5%).

A própria profundidade da correcção bolsista - recorde-se, 43% na década iniciada em 1930, 22% na começada em 2000 e 11,5% na iniciada em 1910 - foi ténue em relação as ganhos acumulados nas décadas imediatamente anteriores. Entre Janeiro de 1920 a Dezembro de 1929 havíamos assistido a um crescimento de 142% (quarto maior), entre Janeiro de 1990 e Dezembro de 1999 a um disparo de 320% (o maior de sempre na história deste índice) e entre Janeiro de 1900 e Dezembro de 1909 a um ganho já referido de 69% (quinto maior).

As melhores décadas

As melhores décadas em bolsa em Wall Street foram a de 1990/1999 (crescimento de 320%), a de 1950/1959 (253%) e a de 1980/1989 (214%).

Em termos históricos, o período de 1980 a 1999 revelou-se o de maior euforia bolsista americana, com um disparo do peso na riqueza por parte do novo capital financeiro e das rendas financeiras. Recorde-se que, em termos de economia "real", estas duas décadas marcaram a "prisão" do crescimento real do PIB americano num patamar de 3,1%, umas décimas abaixo do ocorrido na década de 1970 e mais de um ponto percentual abaixo das médias das décadas de 1950 e 1960, segundo dados de John Bellamy Foster e Fred Magdoff ('The Great Financial Crisis', Monthly Review Press, 2009).

A correcção ocorrida na primeira década do século XXI surge 90 anos após a correcção de 1910-1919. Se, por mera especulação, a correcção definitiva dos excessos da vaga financeira actual (segundo alguns historiadores económicos iniciada na década de 1970) seguir o mesmo padrão daquela iniciada em 1860/1870, daqui a vinte anos teríamos um crash de maiores proporções e eventualmente uma Grande Depressão mais violenta que a actual Grande Recessão.