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A receita do FMI: mais infraestruturas, mais inovação, mais produtividade

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Nos capítulos do "World Economic Outlook" de 2015 que já foram divulgados, os especialistas de Christine Lagarde recomendam mais investimento público em infraestruturas e incentivos à inovação e à produtividade.

O Fundo Monetário Internacional (FMI) no "World Economic Report" (WEO) da primavera de 2015 alerta para uma "nova realidade" nas economias desenvolvidas em que o crescimento do produto potencial será mais fraco do que antes da crise financeira global iniciada em 2008 e só ligeiramente superior ao verificado durante estes últimos seis anos de crise.

Os dois capítulos do WEO divulgados na terça-feira sublinham que houve, durante a crise, uma perda "permanente" no produto que vai condicionar o horizonte dos próximos cinco anos. "O Fundo de Christine Lagarde vem confirmar o que já se sabia há algum tempo, que o abrandamento do crescimento económico não é só estrutural por natureza, mas permanente", refere-nos Constantin Gurdgiev, professor no Trinity College em Dublin e autor do blogue TrueEconomics.

 

Impulsionar a procura

Uma das consequências é que a sustentabilidade orçamental vai ser mais difícil de manter, com uma base fiscal a crescer mais lentamente. Ao mesmo tempo, a "nova realidade" exige políticas públicas viradas para "impulsionar a procura" no entender das equipas do FMI que elaboraram os capítulos 3 e 4 do WEO, como, logo, resumiu a revista "Global Banking". O estudo do Fundo baseia-se na análise de 10 economias desenvolvidas do G20 (Alemanha, Austrália, Canadá, Coreia do Sul, Espanha, Estados Unidos, França, Itália, Japão e Reino Unido), por vezes no conjunto de 28 economias desenvolvidas, e, em alguns temas, em que o choque negativo foi mais profundo, incorpora os países periféricos da zona euro (Espanha, Grécia, Irlanda, Itália e Portugal).

A "nova realidade" - os chineses usariam a expressão "nova normalidade", que têm aplicado para caracterizar o abrandamento económico da segunda maior economia do mundo desde 2012 - nas economias desenvolvidas aponta para um ligeiro aumento da taxa anual do crescimento do produto potencial de 1,3% durantes os anos da crise financeira global de 2008 a 2014 para 1,6% entre 2015 e 2020. A taxa registada entre 2001 e 2007 na ordem de 2,25% para o conjunto das economias desenvolvidas não regressará no horizonte do próximo quinquénio. Relacionado com esta "nova realidade" está o comportamento do investimento privado, a que o FMI dedica o capítulo 4 do WEO.

Sem rodeios, os técnicos dizem que, durante os anos de crise financeira, a queda do investimento privado nos Estados Unidos, no Reino Unido, no Japão e na zona euro, e de um modo brutal nas economias periféricas do euro, está umbilicalmente ligada à contração da atividade económica em geral. A redução do produto em 1% está associada a uma queda de 2,4% do investimento.

 

Estagnação secular?

Um dos aspetos importantes que os especialistas do FMI sublinham é que o declínio estrutural do produto potencial não se verificou só durante os anos de chumbo da crise financeira global. "Ele começou antes da crise financeira e tem-se concentrado, em termos de fatores que o determinam, no envelhecimento demográfico com impacto negativo no fator trabalho, no declínio da acumulação de capital e do investimento privado, e num crescimento mais fraco do fator produtividade total à medida que as economias desenvolvidas esgotam o crescimento na fronteira tecnológica", sublinha Gurdgiev.

"Durante o boom anterior à crise financeira, grande parte do crescimento derivou não de uma melhoria intensiva - ligação da tecnologia a maior produtividade do trabalho -, mas de uma melhoria extensiva, através do crescimento da oferta do capital físico e das bolhas de ativos", acrescenta.

As perdas no crescimento da produtividade desde meados dos anos 2000 nas economias avançadas foram parcialmente "contrabalançadas" pelos ganhos em "setores eufóricos", como a finança, dizem preto no banco os especialistas do FMI no final de uma caixa do capítulo 4 sobre padrões sectoriais da evolução do fator produtividade total.

Em certa medida, o FMI aproxima-se das teses de uma "estagnação secular" nas economias desenvolvidas avançada por Robert Gordon nu m artigo científico em 2001 e mais recentemente "desenterrada" por Larry Summers em novembro de 2013 numa conferência do FMI, diz o economista russo radicado na Irlanda.

 

Melhoria da produtividade total com políticas públicas e gestão empresarial

Depois de atingir um ponto mais baixo durante os anos de crise financeira global, em meados do período entre 2008 e 2014, o crescimento do produto potencial nas economias desenvolvidas para o horizonte até 2020 vai basear-se sobretudo no crescimento do fator produtividade global.

A contribuição do crescimento do emprego potencial será inclusive inferior ao do período da crise e a contribuição do crescimento do capital será ligeiramente superior. Resta o fator produtividade total que, nas simulações do FMI, poderá apresentar uma dinâmica de crescimento próxima da que se verificava no período entre 2001 e 2007. O aumento da produtividade total dos factores ao longo do tempo é designado por progresso tecnológico.

A receita tem de concentrar-se em impulsionar esse fator que é muito falado pelos economistas mas pouco popular. Para isso, os especialistas do FMI apontam para um conjunto de políticas públicas e de orientação estratégica por parte da gestão empresarial. No fundo para "uma conjugação virtuosa", sublinha-nos o especialista em management Peter Cohan, de Boston. O tripé central das políticas assenta, nas economias desenvolvidas, no investimento público em infraestruturas onde a deterioração do existente já o exije, ou haja necessidade, e no impulso à inovação e à produtividade.

A chamada de atenção para o investimento em infraestruturas não é nova, foi avançada pelo FMI no ano passado. Os técnicos do Fundo dizem que esse investimento público se paga a si próprio "se feito corretamente" e que inclusive tem um efeito de "crowding in" no investimento privado e não o contrário. O argumento durante a crise financeira foi que tais investimentos públicos provocavam um efeito de "deslocamento" (crowding out), de redução do investimento privado. O investimento em infraestruturas pode "estimular a procura no curto prazo e aumentar o produto potencial no médio prazo", dizem os especialistas do FMI no capítulo 4 do WEO de 2015.

A inovação e a produtividade são outros dois aspetos centrais. O FMI recomenda mais aposta na Investigação & Desenvolvimento, chamando a atenção para o sistema de patentes e para os incentivos fiscais para essa área em "países onde sejam baixos", mais reformas de liberalização do mercado de produto em certos sectores onde possam ter efeitos positivos, e mais incentivos à participação das mulheres e dos trabalhadores idosos na população ativa. Aos gestores, o FMI recomenda mais emprego qualificado e mais investimento em tecnologias de informação e comunicação e no seu uso inteligente.