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Setor do calçado exporta cada vez mais mas perde rendibilidade

Lucí­lia Monteiro

O volume de negócios aumenta, mas a rendibilidade dos capitais próprios diminui e seis em cada 10 euros do ativo das empresas são financiados por capitas alheios. Nas exportações, o sector está bem à frente da indústria transformadora e do universo das empresas nacionais. O retrato é do Banco de Portugal

Todos dizem que é um sector exemplar, a bater recordes nas exportações há oito anos consecutivos. Mas há muitos outros indicadores que podem ajudar a traçar o retrato do sector do calçado e a avaliar a saúde das suas empresas para lá das exportações de 1,95 mil milhões de euros para 1 52 países. Um exemplo? O crédito concedido pelo sector financeiro residente à indústria do calçado diminuiu 1,7% entre 2016 e 2017, diz a Central de Responsabilidades de Crédito do Banco de Portugal. E a rendibilidade dos capitais próprios diminuiu dois pontos percentuais num ano, muito pelo lado das grandes empresas e das PME.

"A rendibilidade dos capitais próprios da indústria do calçado foi de 9% em 2016, tendo diminuido 2 pontos percentuais face a 2015. Pela primeira vez no período 2012-2016, a rendibilidade do sector foi inferior à registada pelas indústrias transformadoras (10%)", refere a Análise Sectorial da Indústria do Calçado, ontem divulgada pelo Banco de Portugal (BdP).

Numa fileira que junta 2.100 empresas, metade das quais são classificadas como microempresas, a quebra da rendibilidade foi especialmente sentida pela grandes, pequenas e médias empresas, que registaram uma descida de 3 pontos percentuais, passando a apresentar taxas de 8% e 10%, respetivamente. Já no segmento das microempresas, houve uma subida de 12 pontos percentuais, para os 14%.

A margem operacional (EBITDA/rendimentos) fixou-se em 6,5%, enquanto a margem líquida foi de 2,5%. Nos dois casos, as percentagens são inferiores ao registo para o total das empresas do país (10%) e no conjunto da indústria transformadora (4%).

Outra nota deste estudo, mostra que a fatia das microempresas no sector é mais pequena do que no universo total da economia nacional (89%) e, também, na indústria transformadora (70%).

Nesta análise, o BdP, enquadra o sector na economia nacional: o calçado tem 0,5% das empresas nacionais, 1,7% das pessoas ao serviço e 0,8% do volume de negócios total das empresas. No que se refere à indústria transformadora, o sector tem 5% das empresas, 3% do volume de negócios e 7% das pessoas ao serviço.

No mapa nacional, Porto e Aveiro reunem o maior número de empresas de calçado (44% e 37% respetivamente). E o caracter exportador da fileira é confirmado: em 2016, o mercado externo originou 63% do volume de negócios gerado pela indústria do calçado (17 pontos percentuais acima da indústria transformadora ou 42 pontos percentuais acima do registo total das empresas lusas).

Metade das empresas tem autonomia financeira abaixo dos 27%

"A indústria do calçado apresentou um saldo de transações de bens e serviços com o exterior positivo, numa proporção equivalente a 46% do volume de negócios. Este valor foi superior ao saldo das indústrias transformadoras (17%) e ao saldo total das empresas (1%), algo que se verificou ao longo de todo o período 2012 – 2016".

Visto por outro ângulo, uma em cada cinco empresas da indústria do calçado pertence ao sector exportador, sublinha o BdP. E o mercado externo contribuiu mais do que o interno para o crescimento homólogo do volume de negócios do setor em estudo: 1,7 e 1,4 pontos percentuais, respetivamente.

Quanto à situação financeira, seis em cada 10 euros do ativo das empresas da indústria do calçado eram financiados por capitais alheios (sete euros no total das empresas) e, entre 2012 e 2016, a média ponderada do rácio de autonomia financeira do calçado aumentou, convergindo para os 40% registados pela indústria transformadora.

No entanto, "metade das empresas do sector apresentava autonomia financeira inferior a 27%" e "uma em cada cinco empresas apresentava, em 2016, capitais proprios negativos", diz a nota de informação estatística do BdP.

O passivo aumentou 2% em 2016, abaixo dos 7% da indústria transformadora, e a dívida remunerada representava 38% do passivo do calçado, abaixo dos 51% registados na indústria transformadora e dos 57% apresentados para o total das empresas nacionais.

Empréstimos valem 32% do passivo

Com os empréstimos bancários a corresponderem a 32% deste passivo do calçado, o BdP sublinha que o peso da dívida remunerada aumenta em função da dimensão das empresas: "representava 29%, 38% e 44% dos passivos das microempresas, das PME e das grandes empresas, respetivamente".

Outro destaque vai para os juros suportados pela indústria do calçado. Diminuiram 11% num ano, mais do que compensando a queda do EBITDA do sector, num desempenho que bate o o total das empresas (9%), mas fica aquem da indústria transformadora (18%).

A dívida comercial representava 36% do passivo das empresas e, diz este estudo, "as empresas da indústria de calçado não conseguiam obter financiamento líquido por dívida comercial , dando que o diferencial entre os saldos de fornecedores e de clientes era negativo, num montante equivalente a 5% do volume de negócios gerado pelo setor.

Já em 2017, o rácio do crédito vencido na indústria do calçado situava-se nos 13,8%, tal como em 2016, acima dos valores relativos à indústria transformadora (9,3%) e ao universo total das empresas do país ((13,5%), com as microempresas a aparecerem aqui em destaque no sector, uma vez que a percentagem que o rácio de crédito vencido no seu segmento atingiu os 26,4%.