Siga-nos

Perfil

Economia

Economia

Redução de CO2. Entre a tecnologia e a floresta

Évora e as alterações: A tarde foi ocupada por um debate, moderado por João VieiraPereira (do Expresso), que juntou o presidente da Câmara de Évora, Carlos Sá, a vereadora da Câmara de Viseu, Conceição Azevedo, o presidente da Câmara de Mação,Vasco Estrela, a vereadora da Câmara de Cascais, Joana Balsemão e ainda o presidente da Águas de Portugal, João Mendes

José Fernandes

Debate: Descarbonização não se faz só com energias renováveis. É preciso apostar no ordenamento e proteção do território

Ana Baptista

Ana Baptista

Jornalista

O incêndio de Pedrógão Grande terá sido provocado por uma trovoada seca, uma chuva que se evapora antes de chegar ao solo porque o ar está muito seco. E o incêndio de outubro aconteceu porque as temperaturas estavam demasiado elevadas para a altura do ano. Ou seja, estávamos a dois meses de começar o inverno e ainda fazia calor suficiente para ir à praia.

Há um nome para isto: alterações climáticas. São elas que explicam o facto de o verão tardar em chegar e depois se alongar até outubro ou que, em dezembro do ano passado, algumas cidades do país, como Viseu, estivessem em seca extrema e a braços com falta de água, a ponto de ter de gastar €700 mil em camiões-cisterna. “As pessoas percebem melhor este tema quando lhes dizemos que as praias vão ficar sem areal porque o nível da água do mar pode subir até 70 cm até 2050”, diz a vereadora da Câmara de Cascais, Joana Balsemão. Ou quando há Debate Descarbonização não se faz só com energias renováveis. É preciso apostar no ordenamento e proteção do território Redução de CO2. Entre a tecnologia e a floresta estudos que mostram que “vai haver uma quebra de 40% na precipitação na zona sul de Portugal e de 10% na zona norte” ou que pragas como o zika só acontecem “porque está mais calor e o mosquito tem mais tempo para picar. Se estivesse mais frio, ele morria antes de o fazer”, afirma o presidente da Associação Zero, Francisco Ferreira.

Ambos estiveram esta quinta-feira no IV seminário organizado pela EDP e pelo Expresso, em Évora, e que este ano tinha como tema o impacto das alterações climáticas no sector público e a importância da descarbonização, ou seja, da redução das emissões de CO2. Porque, explica o professor da Faculdade de Ciências e presidente do Conselho Nacional do Ambiente Filipe Duarte Santos, é a elevada concentração de gases com efeitos de estufa (GEE), entre eles o CO2 emitido pelas atividades que mais usam combustíveis fósseis como a produção de energia e os transportes, que provoca o aquecimento da atmosfera e, consequentemente, eventos extremos como as cheias, as secas, os deslizamentos de terras. “Estamos viciados em combustíveis fósseis porque foram eles que nos deram esta sociedade de que desfrutamos. Mas se não fizermos nada, estes eventos extremos vão crescer”, acrescenta.

E fazer algo passa por dois momentos: adaptar a sociedade às alterações climáticas e reduzir o aumento das emissões, ou seja, descarbonizar. “Mas qual é mais importante?”, pergunta Francisco Ferreira. Esta foi uma das grandes questões do encontro, mas a reposta não é única. A aposta nas renováveis é óbvia e tem sido um dos caminhos escolhidos em quase todos os países do mundo. “Porque o investimento pode ser grande agora, mas depois não vamos pagar energia”, adianta Filipe Duarte Santos.

Mas há outros caminhos. Para o sócio da consultora McKinsey Bruno Esgalhado, “a descarbonização passa pela eletrificação”, principalmente dos transportes, ainda hoje o segundo maior produtor de emissões de CO2. “Só com carros elétricos consumimos 25% menos energia do que com carros a combustíveis fósseis”, acrescenta. Mas para uma das responsáveis do Boston Consulting Group, Teresa Abecassis, à eletrificação dos carros particulares tem de se juntar uma estratégia de mobilidade alargada aos transportes públicos e ao ordenamento das cidades. Uma opinião partilhada pela vereadora da Câmara de Cascais. “Não basta dizer que não se pode andar de carro na cidade, é preciso depois ter uma política para os transportes públicos e parques de estacionamento”, repara.

Aliás, o ordenamento do território e a proteção das florestas foi apontado por quase todos os oradores como um dos pilares fundamentais para reduzir as emissões de CO2. Alguns concordam mesmo que é por aqui que tem de se começar, porque a existência de florestas, de árvores e de zonas verdes permite reduzir ou captar de forma natural as emissões de CO2. Se essas florestas e zonas verdes forem abandonadas, ficam mais vulneráveis a incêndios e, consequentemente, a desaparecer e a contribuir para o aumento das emissões.

O IV seminário da EDP, organizado em parceria com o Expresso, emÉvora, tinha como tema o impacto das alterações climáticas no sector público

O IV seminário da EDP, organizado em parceria com o Expresso, emÉvora, tinha como tema o impacto das alterações climáticas no sector público

Jose Fernandes

O que é a descarbonização?

É ainda um palavrão para muitas pessoas e até um tema que não entendem ou optam por não entender. Mas descarbonização é algo bem mais simples do que se pensa. Na prática, é apenas o ato de reduzir o mais possível as emissões de gases com efeito de estufa (GEE), principalmente o dióxido de carbono (CO2), em todos os sectores da economia e da sociedade, desde os transportes ao consumo de energia ou a uma simples poupança no papel das fotocópias. E porque é que é importante reduzir essa emissões? Porque elas contribuem para o aquecimento do planeta, o que provoca depois alterações climáticas e situações como o degelo, os longos períodos de seca ou cheias altamente destruidoras. Isto sem falar dos efeitos nocivos que têm para a saúde. Atualmente fala-se em três formas de descarbonizar: as energias renováveis, a eficiência energética e a eletrificação dos transportes e da indústria. Há ainda muitos estudos e especialistas que falam noutro caminho para a descarbonização, que passa pela captura de CO2, seja utilizando a tecnologia seja através do processo natural, ou seja, das florestas.

O professor da Faculdade de Ciências, Filipe Duarte Santos, falou sobre as alterações climáticas no sector público

O professor da Faculdade de Ciências, Filipe Duarte Santos, falou sobre as alterações climáticas no sector público

José Fernandes

Números do Clima

4,5
são os milhões de toneladas de gases com efeito de estufa (GEE) que foram emitidos na Europa em 2015

75
é a percentagem de redução de emissões que o Acordo de Paris quer que se atinja em 2050, chegando a 1,1 milhões de toneladas

24
é a taxa de eletrificação na Península Ibérica, ligeiramente acima dos 22% da média europeia

2
são os graus que o Acordo de Paris definiu como teto máximo para o aumento da temperatura. Se nada for feito, estima-se que esse aumento possa ser de 3,6 graus

Vera Pinto Pereira, presidente do Conselho de Administração da EDP Comercial, abriu a sessão

Vera Pinto Pereira, presidente do Conselho de Administração da EDP Comercial, abriu a sessão

Luis Filipe Catarino\012

Quais os riscos de não fazermos a descarbonização?

PATRÍCIA FORTES
Investigadora da Universidade Nova de Lisboa

Se não ocorrer uma descarbonização substancial da atividade humana, o aumento da temperatura média do planeta pode atingir valores superiores a 4 graus (muito acima dos 1,5° assumidos como uma espécie de teto seguro pela comunidade científica). Este facto contribuirá para o aumento e frequência de eventos climáticos extremos em diferentes partes do globo, como sejam tempestades, ondas de calor, secas ou inundações. A região mediterrânea, incluindo Portugal, será uma das regiões do mundo mais vulneráveis. Portugal, por exemplo, pode ser sujeito a secas de 10 ou 15 anos com consequentes impactes na nossa disponibilidade de água, num aumento da desertificação e num aumento do risco de incêndios florestais, como os verificados em 2017. Esta realidade faz com que Portugal e o resto do mundo não possam ficar indiferentes à problemática das alterações climáticas e que tenham de aplicar ações de mitigação ambiciosas, concretas e o mais rapidamente possível, caso contrário será demasiado tarde para reverter estes impactes. Alguns estudos alertam para a necessidade de uma descida vertiginosa nas emissões após 2020, até se atingir uma quase neutralidade em 2050. Isto implica inevitavelmente uma completa transformação do sistema energético, com alterações comportamentais, aumentos significativos de eficiência energética e uma transição do consumo de combustíveis fósseis para fontes de base renovável.

FILIPE DUARTE SANTOS
Presidente do Conselho Nacional do Ambiente

Uma das razões que permitem afirmar que se tornou improvável cumprir o Acordo de Paris é o investimento planeado para os próximos dez anos, cerca de 7,2 milhões de milhões de dólares, em centrais termoelétricas, a maioria das quais a carvão e gás natural. Estima-se que as emissões desse tipo de centrais durante o seu tempo de vida representem um excesso de 240 gigatoneladas (Gt) de CO2 relativamente ao orçamento de carbono correspondente a um aumento da temperatura média global no intervalo de 1,5° C-2° C. As emissões das centrais já planeadas e que irão ser construídas representam um excesso adicional de 270 GtCO2. Por outras palavras, se a partir de hoje não se construíssem mais centrais ainda seria necessário fechar cerca de 20% do parque global de centrais termoelétricas a combustíveis fósseis para poder cumprir o Acordo de Paris. Note-se, porém, que é ainda possível cumprir o Acordo se houver à escala global, principalmente nos países que são os maiores emissores de CO2 — China, EUA, EU, Índia e Rússia —, uma mobilização social e uma vontade política fortes para fazer a necessária transição energética para as energias renováveis. Tal mobilização social, porém, ainda não existe. A problemática da mudança do clima é para a maioria das pessoas difusa, complexa e afetada por grandes incertezas. Por outro lado existe e promove-se a perceção errónea de que a solução por meio de uma transição energética é prejudicial ao crescimento económico dos países e à prosperidade económica das pessoas.

FRANCISCO FERREIRA
Presidente da Associação Zero

Considerando que o aquecimento global e as alterações climáticas são causadas de forma inequívoca pelas emissões de gases com efeito de estufa, principalmente associadas à queima de combustíveis fósseis, sendo o dióxido de carbono o principal composto responsável, descarbonizar a sociedade é essencial. Há várias regras claras neste domínio: os investimentos feitos na descarbonização serão muito menores que os custos para as gerações atual e futura associados às consequências das alterações climáticas; mais ainda, os danos provocados ao clima conseguem ser feitos em poucos anos, mas a sua recuperação demora décadas. A transição energética é um elemento fundamental através dos investimentos em energias renováveis e na eficiência energética. Portugal, em termos de política climática e de metas futuras, nomeadamente com o objetivo de ser neutro em carbono em 2050 está na frente, quadro infelizmente manchado pelo facto de querermos explorar petróleo frente a Aljezur e gás de xisto em Aljubarrota, numa contradição direta com o Acordo de Paris cujo conteúdo implica parar a exploração de combustíveis fósseis. Descarbonizar a sociedade é um imperativo e terá implicações em todos os sectores, nomeadamente na mobilidade, em determinados sectores industriais, no consumo de materiais, na alimentação, na necessidade absoluta de preservarmos a floresta como sumidouro de carbono. Não o fazermos é continuarmos por um caminho de crise climática que irá onerar, e muito, o futuro.

JOÃO NUNO MENDES
Presidente do grupo Águas de Portugal

As alterações climáticas têm consequências relevantes nos recursos hídricos, prevendo-se que as regiões do sul da Europa possam sofrer reduções na disponibilidade de água devido ao aumento da frequência e da intensidade das secas. Em Portugal, dos 10 anos hidrológicos mais secos ocorridos desde 1931, cinco sucederam precisamente depois do ano 2000. Mitigar os riscos e aumentar a resiliência dos sistemas de abastecimento é pois uma prioridade estratégica do Grupo AdP — Águas de Portugal. Como fazê-lo? Através da eficiência hídrica, da reutilização da água residual e da concretização das infraestruturas necessárias, incluindo a ligação dos sistemas de maior dimensão aos de maior vulnerabilidade. No plano energético, o Grupo AdP representa o 5º maior consumidor de energia elétrica em Portugal, atenta a natureza industrial da nossa atividade, sendo essencial potenciar o aproveitamento da energia solar e a produção de biogás nas instalações industriais. O Plano de Eficiência e de Produção de Energia (PEPE) e o desenvolvimento da mobilidade elétrica em curso no Grupo AdP constituem contributos para a descarbonização, conjugando a racionalização dos consumos com o aproveitamento dos recursos endógenos, dando resposta aos desafios da economia circular.

Textos originalmente publicados no Expresso de 7 de julho de 2018