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Mário Draghi. Fim das compras em dezembro não é fim da política expansionista

Draghi decretou o fim do QE, mas deu prolongamento para as compras e disse que não mexia nas taxas até ao verão de 2019

Ints Kalnins/ REUTERS

O presidente do Banco Central Europeu reafirmou esta segunda-feira em Bruxelas que a política monetária vai continuar a apoiar a expansão económica por mais algum tempo. Exortou os europeus a manterem-se unidos face ao protecionismo

Jorge Nascimento Rodrigues

O “fim previsível” do programa de compra de ativos em dezembro não significa que “a política monetária deixe de ser expansionista”, afirmou esta segunda-feira Mario Draghi, o presidente do Banco Central Europeu (BCE), na Comissão de Assuntos Económicos e Financeiros do Parlamento Europeu.

Draghi, que se dirigiu ao final desta tarde aos deputados europeus da Comissão em Bruxelas no âmbito do “diálogo monetário” entre o Parlamento e o BCE, assegurou que “a política monetária vai continuar a acompanhar a expansão económica por algum tempo”, nomeadamente através da política de reinvestimento “durante algum tempo” das amortizações da sua carteira de títulos e da orientação futura sobre as taxas de juro do banco central.

Em resposta ao eurodeputado espanhol do PP Gabriel Mato, o presidente do BCE reafirmou a orientação saída da última reunião do BCE em junho no sentido das taxas de juro se manterem nos níveis atuais – em mínimos históricos, nomeadamente 0% na taxa diretora – “até pelo menos durante o verão do próximo ano”.

Recorde-se que, na reunião de 14 de junho, o BCE decidiu antecipar o anúncio do fim do programa de compra de ativos em dezembro e tranquilizar os mercados de que não mexeria nas taxas de juro até ao final do verão do próximo ano. A compra no mercado secundário da dívida pública desde março de 2015 de obrigações emitidas pelos países membros do euro representa 80% do programa de aquisição de ativos e tem funcionado como um verdadeiro 'resgate' para os países periféricos do euro, como Portugal.

Nesta comparência perante o Parlamento, Draghi reduziu as expetativas de que, após a saída da Grécia do resgate em agosto, a dívida helénica possa ser integrada na parte final do programa de compras do BCE que terminará em dezembro. O responsável do banco central da zona euro referiu a necessidade prévia de uma análise à sustentabilidade da dívida grega.

Unidade face ao protecionismo

Nesta audição, Draghi aproveitou para chamar a atenção para os “fatores globais” de risco, derivados da “ameaça do protecionismo”, e geradores de uma “elevada incerteza global”, que requer “que os europeus se mantenham unidos”.

As palavras de Draghi perante o Parlamento Europeu ocorrem no momento em que o risco de uma guerra comercial global se acentuou desde o final da semana passada depois dos EUA iniciarem a aplicação de taxas aduaneiras de 25% sobre um primeiro lote de 818 linhas de produtos importados da China no valor de 34 mil milhões de dólares (€29 mil milhões). Logo após a entrada em vigor destas taxas no dia 6 de julho, as autoridades de Pequim anunciaram uma retaliação abrangendo 545 produtos norte-americanos exportados para a China. A guerra entre as duas maiores economias do mundo poderá escalar face à previsão de um segundo pacote de imposição de taxas por Washington e das instruções dadas pelo presidente Trump para ampliação substancial do universo de aplicação das taxas.

BCE a favor da reforma da zona euro

Mario Draghi aproveitou a ocasião para expressar as posições do BCE sobre os pontos da reforma da zona euro cujas decisões foram adiadas para dezembro por parte da recente cimeira dos líderes da zona euro em Bruxelas no final de junho.

O presidente do BCE sublinhou a necessidade de se prosseguir na conclusão da União Bancária, nomeadamente com a criação do Sistema Europeu de Garantia de Depósitos, justificando que a redução do risco no sector bancário exigida por um grupo de países liderados pela Alemanha está em curso, inclusive em países com alto nível de crédito malparado, acima de 15%, como Grécia, Chipre, Itália e Portugal.

Considerou, ainda, que um dispositivo de apoio de último recurso ao Fundo Único de Resolução bancário, de modo a este poder recorrer, em caso de necessidade, a uma linha de crédito junto do Mecanismo Europeu de Estabilidade, deverá “ser tornado operacional o mais breve possível e ter procedimentos de decisão rápidos e eficientes”. Posição que choca com a exigência de Berlim e de outros governos da zona euro que querem ter controlo intergovernamental sobre a matéria.

Draghi apoiou a título pessoal a criação de um fundo de estabilização europeu para o desemprego e pronunciou-se a favor de um mecanismo europeu orçamental de apoio macroeconómico face a situações de recessão na zona euro.