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Chegada ao desemprego estrutural beneficia salários

Marcos Borga

Vários anos de queda na taxa de desemprego pode, segundo os especialistas, levar à subida das remunerações

Um dos impactos mais diretos da aproximação à taxa de desemprego estrutural é o aumento dos salários. À medida que o desemprego vai descendo e que aumenta a escassez de profissionais qualificados no mercado, as empresas são forçadas a aumentar salários para resolver o seu défice de profissionais, contratando na concorrência ou em mercados internacionais. São as regras do mercado e para a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Económico (OCDE), esta dinâmica até já deveria ser mais evidente em Portugal e na Europa.

Com o desemprego a baixar e a economia a recuperar, os salários em Portugal deveriam estar a aumentar mais, defende a OCDE no último “Employment Outlook 2018”, esta semana divulgado. Contudo, segundo o relatório, “a recuperação no crescimento dos salários está atrás da queda no desemprego” e a valorização salarial, na maioria dos países da OCDE, “permanece marcadamente abaixo do que era antes da recessão para níveis de desemprego comparáveis”.

Em média, no último trimestre de 2017, o crescimento dos salários por hora nos países da OCDE estava ainda 0,4 pontos percentuais abaixo do valor de finais de 2008, quando o desemprego tinha valores similares.

Portugal ainda resiste

E Portugal é um dos países onde esta tendência é mais evidente. Comparando o período de 2000 a 2007 e de 2007 a 2016, o crescimento médio anual dos salários medianos para os trabalhadores a tempo inteiro caiu 1,5 pontos percentuais no conjunto da OCDE, mas em Portugal a queda ultrapassou os três pontos percentuais, realça o relatório.

O que justifica esta quebra no crescimento dos salários e dificuldades na recuperação? Segundo a OCDE, o abrandamento da produtividade e a baixa inflação: “Num contexto de estagnação do poder negocial dos trabalhadores e forte substituição do trabalho por capital, isto inevitavelmente coloca um limite à possibilidade de aumentar salários”.

E embora os economistas ouvidos pelo Expresso, Francisco Madelino e João Cerejeira, apontem como caminho certo um aumento de salários em Portugal, à medida que o país se aproxima da taxa natural de desemprego, a OCDE avança uma explicação adicional para esse incremento não ser ainda visível: parte do aumento do emprego estar a acontecer em postos de trabalho com baixos salários.

“No rescaldo da recente e longa crise, muitas pessoas que procuravam emprego foram forçadas a aceitar postos de trabalho que consideram piores em termos de condições de trabalho, por comparação com as expectativas de emprego que tinham antes da crise”, conclui o relatório. Muitos destes profissionais continuam, intensivamente, à procura de melhores empregos, aumentando o número de candidaturas por vaga e, logo, exercendo maior pressão em baixa sobre os salários.